A interpretação das epístolas – Parte 2

A interpretação das epístolas – Parte 2

Publicado em Hermenêutica no dia 8 de setembro de 2009

Interpretação das Epístolas

A interpretação das epístolas – Parte 2

Na aula anterior nós procuramos primeiramente o sentido do texto para os leitores daquela época, para os quais foi primariamente escrito. Ou seja, o texto deveria fazer sentido para aquele povo, não poderia haver algum significado fora da realidade daquela época. A este exercício, o de descobrir o significado que o texto tinha, chamamos de exegese.

Nesta lição, vamos aplicar o que chamos de Hermenêutica: a interpretação dos escritos para a nossa realidade.

A primeira dificuldade é que, diferentemente da exegese, que é a investigação dos fatos que se sucederam, a hermenêutica pode ter muitas variantes. Ainda que nem todos pratiquem a exegese, ou seja, não investigam a fundo quais eram as implicações culturais e socio-políticas da época, por outro lado, todos praticam a hermenêutica.

O objetivo desta aula é ver o que há em comum entre todos os crentes com relação à hermenêutica, ou seja, o que cada grupo de crentes têm em comum na interpretação das epístolas. A grande diferença entre os vários grupos de crentes é com relação à cultura: o que deve ser mantido para nós e o que deve ser considerado um costume apenas do povo no século I?

1 A Interpretação comum de todos nós

Mesmo que você não soubesse que este curso chama-se hermenêutica, você a pratica todo o tempo que lê a Bíblia. Afinal, quando lemos a Bíblia trazemos nosso bom senso e aplicamos o texto à nossa realidade, e aquilo que não se aplica a nós nesta época, descartamos.

Vamos ler II Tm. 4:13. Quantos de nós nos sentimos obrigados a obedecer este mandamento? E isto é claramente um mandamento. Na mesma carta no capítulo 2 versículo 3, somos exortados a sofrer como bons soldados de Cristo, mesmo muitas vezes relutando em obedecer este mandamento.

A maioria dos textos do Novo Testamento se encaixam nesta categoria do bom senso. Nossos problemas se encontram nos textos que fogem deste bom senso. Uns acham que devem obedecer exatamente o que está escrito, outros já não têm tanta certeza. Quando interpretamos um texto, trazemos muito de nossa herança teológica e cultural. Isto nos faz “selecionar” certos textos e contornar outros.

A maioria de nós concorda quanto à posição acerca de II Tm. 2:2 e 4:13. Porém, estes mesmos cristãos poderão argumentar contra I Tm. 5:23. Eles dizem esar relacionado somente a Timóteo, e não aos outros cristãos. Ou então, Paulo recomendou vinho pois a água não era muito confiável naquela época, diferente de hoje. Ou ainda que vinho queria dizer, na realidade, suco. Agora, por que esta recomendação de beber vinho é endereçada somente a Timóteo, enquanto que a exortação a permanecer na palavra (II Tm. 3:14-16), que também foi endereçada a Timóteo, serve para todos os cristãos em todos os tempos?

Um outro problema frequente em algumas igrejas é o fato de aplicarem o texto de I Coríntios 11:14 aos homens, quanto ao cabelo comprido; porém não aplicam o texto do versículo 13 às mulheres. Ou antes, as deixam cortar o cabelo até ficarem curto.

Estes dois exemplos ilustram como a cultura influencia no bom-senso em nossa interpretação. Mas a tradiçao eclesiástica também dita o bom-senso que deve ser aplicado em nossa interpretação. Algumas igrejas proibem as mulheres de falarem nos cultos com base em I Coríntios 14:34-35. Porém, todas as outras coisas citadas no capítulo 14 é contra-argumentado como não pertencente ao nosso século, são coisas que eram específicas para a Igreja do século I. Como é que os versículos 34-35 podem pertencer ao nosso tempo, mas os versículos 1-5 ou 26-33 e 39-40, que estão no mesmo contexto, pertencem à igreja do século I?

Alguns cristãos acham apoio nas escrituras para o batismo de crianças em I Coríntios 1:16 ou 7:14.

Para muitos na tradição arminiana, que enfatiza o livre arbítrio do homem com relação à salvação, os textos de Rm. 8:30, 9:18-24, Gl. 1:15 e Ef. 1:4-5 são uma pedra no sapato. Porém, os calvinistas tem suas próprias maneiras de contornar textos como II Pe. 2:20-22 e Hebreus 6:4-6.

Baseados nestes problemas, que tipo de diretrizes e parâmetros nós precisamos a fim de estabelecer uma hermenêutica mais consistente?

2  A Regra Básica

Lembrem-se de que já falamos que um texto não pode significar algo que não faria sentido, tanto para o escritor quanto para o leitor. Esta regra não ajuda a descobrir o significado de um texto, porém nos ajuda, dizendo o que um texto não pode significar.

Vamos pegar I Coríntios 14. A justificativa mais comum para desconsiderar alguns dos dons espirituais é o versículo 13:10.

Na interpretação comum somos informados que o que é perfeito já veio, na forma do Novo Testamento, e portanto, parte destes dons, a profecia e as línguas cessaram de funcionar na igreja. mas isso é uma coisa que o texto não pode significar, pois os leitores desta carta não sabiam naquela época, que haveria de existir um Novo Testamento. E o Espírito Santo não deixaria Paulo escrever uma coisa que soasse incompreensível aos Corintios daquela época.

3  A Segunda Regra

A segunda regra é um modo diferente de expressar nossa hermenêutica comum. Sempre que temos situações de vida comuns, comparáveis aos nossos dias, a plava de Deus para nós é a mesma que era para eles no século I. Ainda é verdade que todos pecamos, que somos salvos pela graça. Revestir-nos de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longaminidade, ainda é a Palavra de Deus para os que são crentes.

Os textos de I Coríntios e Filipenses, estudados na aula 08, parecem ser deste tipo. Fizemos nossa pesquisa e chegamos à conclusão de que ainda temos igrejas locais, cujos líderes devem servir com zelo, escutar a Palavra e cuidar da forma como edificam a igreja. 1 Coríntios ainda é aquilo que Deus nos fala quanto às nossas responsabilidades perante a igreja local. Esta deve ser um local onde se sabe que o Espírito Santo habita, e que portanto, é a alternativa de Deus ao pecado do mundo.

O que mais exige cuidado é a reconstrução do problema deles, naquela época. Devemos ter certeza de que os pormenores são os mesmos. Para nossa hermenêutica, é importante saber que o processo jurídico entre dois irmãos, era iante de um juíz pagão, lá na praça pública. A lição aqui não muda se o processo é relizado dentro de um tribunal fechado. Pois, os versículos 6-11 nos deixa claro que é errado dois irmãos irem à justiça, fora da Igreja. Agora, poderíamos dizer que este versículo não se aplica a um cristão processando uma Empresa, pois neste caso os pormenores mudam. Apesar que a pessoa deveria considerar o apelo de Paulo para assim não o fazerem, seguindo o exemplo de Jesus, conforme nos diz o versículo 7.

Bom, tudo isto parece relativamente simples. Porém qual deve ser o limite de aplicação dos pormenores dos textos bíblicos, em nossa vida hoje?

Vamos verificar, ainda nesta Aula, quatro problemas deste tipo.

4  O Problema da Aplicação Extendida

Se há contextos comparáveis em nossos dias ao século I, é legítimo extender a aplicação a outros contextos, ou fazer o texto aplicar-se a um contexto totalmente diferente do século I?

Por exemplo, argumentamos que I Coríntios 3:16-17 se refere à igreja local, também apresenta o princípio de que aquilo que Deus separou pela habitação de seu Espírito Santo é sagrado, e que quem o destrói está sujeito ao terrível julgamento de Deus. Este mesmo princípio não pode ser aplicado ao crente que abusa do seu próprio corpo? De igual modo, I Coríntios 3:10-15 fala àqueles que edificam a igreja, e avisa sobre o prejuízo que sofrerão os que constroem mal. Já que o texto fala sobre a salvação “como que através do fogo”, podemos usar este texto para ilustrar a segurança do crente?

Veja bem, estas interpretações erradas têm sido feitas a séculos! Paulo, neste contexto está tratando da igreja local, então não podemos aplicar este texto ao crente individualmente. Quanto à segurança do crente, este texto não é o mais forte, o mais recomendado, pois o contexto na época era outro.

Podemos dizer então que a aplicação deve ser limitada à intenção original, quando há situações comparáveis. Então, na aplicação estendida, quando há outras passagens apoiando esta aplicação, podemos tê-la como legítima.

Uma passagem mais dificil é II Coríntios 6:14, que têm sido geralmente interpretado como uma proibição ao casamento entre um cristão e um não-cristão. A metáfora de jugo era raramente usada para casamento, e não há nada no contexto desta passagem que indique que o casamento seja a questão. Provavelmente tinha algo a ver com as festas idólatras. Porém, podemos estender este princípio ao casamento, visto ser um princípio bíblico que pode ser sustentado à parte deste único texto.

5  O Problema das características que não são comparáveis

Nesta categoria há dois tipos de problemas:

1 – Questões do século I que não tem equivalentes no século XXI.
2 – Problemas que poderiam surgir no século XXI, mas que são altamente improváveis.

O que devemos fazer nestes casos?

Um exemplo disso é o texto de I Coríntios 8 – 10, onde Paulo se dirige a três tipos de questão:

1 – Cristãos que argumentam sobre continuar a acompanhar seus vizinhos pagãos nas festas nos templos dos ídolos (8:10)
2 – A dúvida que lançavam sobre a autoridade apostólica de Paulo (9:1-23)
3 – O alimento sacrificado aos ídolos, que depois era vendido no mercado (10:23-11:1)

Fazendo a exegese destas passagens, vemos que Paulo responde da seguinte maneira:

1 – São proibidos de frequentar tais festas e comer alimentos oferidos aos ídolos, por causa da consciência dos mais fracos (8:7-13) e significa tomar parte no que é demoníaco (10:19-22)
2 – Paulo defende seu direito ao apoio financeiro, mas abriu mão deste; além disso defende suas ações (9:19-23)
3 – O alimento que foi sacrificado, vendido no mercado, pode ser comido, inclusive no lar de outra pessoa. Porém, se for causar algum problema de consciência, deve ser recusado.

Pode-se comer qualquer coisa para a glória de Deus, mas não se deve fazer algo que venha a ofender alguém.

O problema aqui é que não existe, em nossa cultura hoje, este tipo de idolatria. Então os problemas 1 e 3 não existem. E quanto ao problema 2, já não temos mais apóstolos no, sentido do Novo Testamento, de pessoas que se encontraram pessoalmente com Jesus ressurreto (9:1).

O outro tipo de problema, os de acontecimento altamente improvável, pode ser ilustrado por:

1 – Pessoas embriagadas na Ceia do Senhor (11:17-22)
2 – Pessoas que querem forçar alguns irmãos a se circuncidar (Gl. 5:2)

Estas coisas poderiam acontecer, mas são altamente improváveis em nossa cultura.

A grande questão é: como a resposta a estes problemas, que afligiam a igreja no século I, podem ser relevantes a nós, tanto tempo depois e em outra cultura?

A hermenêutica deve seguir dois passos:

1 – Devemos fazer nossa exegese com muito cuidado, pois devemos ouvir aquilo que a Palavra de Deus era para eles. E na maioria dos casos um principio foi dado, que geralmente vai além da particularidade histórica à qual estava sendo aplicado.

2 – Este “princípio” não deve ser aplicado a toda e qualquer situação, porém a situações genuinamente comparáveis.

Vamos ilustrar estas considerações.

Paulo proíbe a participação nas festas pagãs com base no princípio da pedra de tropeço.

Porém, isto é algo que simplesmente ofende a um irmão. Isto se aplica ao caso de um irmão, com boa consciência, convence outro irmão a fazer; porém este irmão não consegue fazê-lo com ba consciência. Então este segundo irmão é destruído por imitar a ação do primeiro irmão. Ou seja, não foi simplesmente ofendido.

Outra consideração de Paulo, foi o fato de não participarem de festas pagãs, pois estariam se associando aos demônios. Então podemos dizer que esta é uma proibição aos cristãos de participarem de todo tipo de astrologia, bruxaria, espiritismo, etc.

Embora não tenhamos apóstolos, nem pensamos que nossos pastores estejam na sucessão apostólica, o princípio de que “os que pregam o evangelho, vivam do evangelho” (I Co. 9:14), parace ser aplicável ainda hoje.

O problema de comer carne oferecida aos ídolos apresenta uma dimensão dificil deste princípio. Para Deus, e para Paulo isto, era uma questão indiferente. Porém não era para outras pessoas. Era o mesmo caso da observância de certos dias em Romanos 14 e Colossences 2:16-23.

O problema para nós é como distinguir questões indiferentes de questões importantes. Mesmo porque existem coisas que se diferem entre culturas e entre grupos cristãos. A lista abrange desde estilo de vestimentas, estilos musicais, recreação, ornamentos e até esportes. As pessoas que veem nestas coisas algum valor espiritual, pensam que a abstinência de quaisquer uma destas coisas se constitui em santidade diante de Deus, não apenas mera indiferença.

O que torna alguma coisa uma questão indiferente? Podemos seguir as seguintes sugestões:

1 – Aquilo que a Bíblia diz ser uma questão indiferente, podemos ainda considerá-la indiferente: comida, bebida, guardar determinados dias, etc.

2 – Questões indiferentes não são morais, mas sim culturais, mesmo que seja a cultura religiosa. Questões que endem a se diferir entre uma cultura e outra, mesmo entre grupos de crente genuínos, podem ser consideradas como indiferentes.

3 – As listas de pecados nas Epístolas (Rm. 1:29-30; I Co. 5:11; I Co. 6:9-10; II Tm. 3:2-

4) nunca incluem os equivalentes do século I dos itens que mencionamos acima. Além disso estes equivalentes não estão incluídos nos mandamentos cristãos (Rm 12; Ef. 5; Cl. 3; etc.)

Este é um terreno perigoso, muitas igrejas já foram divididas por questões como estas.

Entretanto, de acordo com Romanos 14, as pessoas dos dois lados não devem julgar umas às outras. A pessoa livre não deve fazer alarde de sua liberdade; a pessoa para quem estas não são questões indiferentes não deve condenar outra pessoa.

6  O Problema da relatividade cultural

Esta é a área com maior dificuldade hoje em dia. A Palavra Eterna de Deus tem sido substituída pelas questões culturais.

Quase todos os cristãos, pelo menos até certo grau, traduzem a Bíblia para novos contextos. E é por causa disto que muitos deixam “um pouco de vinho, por causa do seu estômago” no século I, e também não insistem que as mulheres tenham cabelos compridos e nem cumbram mais a cabeça, e não praticam o “ósculo santo”. Porém, muitos destes mesmos cristãos estremecem quando uma mulher ensina na igreja ou quando um homem deixa seu cabelo comprido.

Alguns ainda têm tentado estabelecer a cultura do século I em nosso século. Mas como estabelecer os parâmetros corretos para nós, baseados na cultura do século I? Como conservar suas filhas em casa, negar-lhes a educação superiror, combinar seu casamento?

É muito dificil ser coerente neste aspecto, exatamente porque não existe uuma cultura mais santa do que outra. As culturas são realmente diferentes, não apenas entre o século I e o século XXI, mas entre as próprias culturas do século XXI.

Então, ao invés de rejeitarmos a cultura, ou partes dela, sugere-se conhecer as culturas, para que o processo de interpretação bíblica ocorra dentro de limites conhecidos.

Como forma de distinguir entre os itens culturalmente relativos e aqueles que são realmente eternos e imutáveis, estabelece-se as seguintes regras (estas regras não são fechadas, devem ser estudas e discutidas):

1 – Devemos distinguir entre o âmago da Bíblia e as questões perféricas. Temos que evitar que o evangelho se transforme numa lei por meio da cultura ou costume religioso.

Assim, desta forma, a obra graciosa de Deus, demonstrada na cruz por meio de Jesus Cristo, sua morte e ressurreição, sua volta gloriosa para nos leval ao lar celestial, são parte deste âmago, parte central da Bíblia, que é independente de cultura.

Agora, o ósculo santo, as cabeças cobertas das mulheres, o comprimento dos cabelos, ministérios e dons carismáticos, parecem ser mais periféricos.

2 – Devemos estar dispostos a diferenciar o que o Novo Testamento vê como essencialmente moral, e aquilo que não é. Os aspectos essencialmente morais são absolutos, e portanto permanecem, independente da cultura. Agora, aquilo que não é essencialmente moral, pode mudar de cultura para cultura, sem necessariamente ser considerado uma doutrina.

As listas de pecados que Paulo faz nunca contém elementos culturais. O adultério, a idolatria, a embriaguez, a atividade homossexual, o furto, a avareza, a fofoca, a mentira, são sempre errados, seja qual for a cultura.

Do outro lado, o ósculo santo, mulheres usando véu, enquanto oram ou profetizam, a preferência de paulo pelo celibato, o ensino pelas mulheres na igreja, não são questões essencialmente morais. Tornam-se pecado somente quando alguma destas questões envolver desobediência ou falta de amor.

3 – Devemos tomar nota dos itens que o Novo Testamento é uniforme. Os seguintes são exemplos de questões onde o Novo Testamento dá testemunho uniforme: o amor como resposta básica do cristão, a política de não-retaliação (dar a outra face), o erro da contenda, do ódio, do assassínio, da embriaguês e imoralidade sexual de todos os tipos.

Por outro lado, o Novo Testamento não parece ser uniforme com relação ao ministério das mulheres na igreja. Veja o caso de Febe, em Rm. 16:1, que servia à igreja de Cencréia. Priscila era uma das cooperadoras de Paulo (Rm. 16:3). O mesmo acontece com os alimentos oferecidos aos ídolos. Compare I Co. 10:23-29 com At. 15:29.

Estas são questões culturais, dependentes de determinado contexto histórico e geográfico, não sendo portanto, uma questão moral.

4 – É importante, dentro do Novo Testamento, saber distinguir entre o princípio e a aplicação específica. Vejamos o caso de I Coríntios 11:2-16. Paulo começa apelando à ordem divina de criação, e estabelece o princípio de que não devemos fazer nada que diminua a glória de Deus quando a comunidade está em adoração (vv. 7-10). A aplicação específica, no entanto, parce ser relativa, já que Paulo faz menção repetidas vezes ao “costume” e à “natureza” (vv. 6, 13-14, 16).

5 – É importante sabermos determinar as opções culturais no mundo neo testamentário. Geralmente, naquela época, havia somente uma única opção cultural, e isso só faz aumentar o grau de relatividade neste aspecto cultural. Por exemplo, notem que nenhum escritor do Novo Testamento faz qualquer menção à escravidão como sendo um mal, e o papel das mulheres era basicamente inferior ao dos homens. Porém, por outro lado, os escritores avançam bastante, em relação à socidade da época, com relação à atitude para com as mulheres, e o homossexualismo era visto como uma prática contrária aos ensinos cristãos. Mas em todo caso, quando refletem as atitudes culturais nestas questões, estão apenas refletindo, geralmente, a única opção cultural da época.

6 – Devemos estar alertas para as grandes mudanças culturais entre o século I e o século XXI. Isso pode mudar a forma como interpretamos a Bíblia. Ainda na questão do ensino pelas mulheres na igreja, devemos levar em conta que havia poucas oportunidades de estudo para as mulheres no século I. E a educação é o primeiro passo para podermos ensinar alguém. Pensando desta maneira, a nossa interpretação de I Timóteo 2:9-15 pode mudar. Outro exemplo é o de Romanos 13:1-7. No século I não havia o governo democrático, com a participação de todos. Nos dias de hoje, espera-se que os maus governantes sejam depostos, e isto muda nosso modo de interpretar Romanos 13 no século XXI.

7  O Problema da Teologia Prática (de Tarefa)

Notamos na aula passada que boa parte da teologia das Epístolas é orientada a tarefas. Porém, uma das tarefas “obrigatórias” do estudante bíblico é apresentar este teologia de modo sistemático, e devemos sempre reconhece que muitas vezes a teologia de determinado escritor está implícita em suas declarações.

Queremos aqui esclarecer alguns pontos enquanto realizamos a tarefa da teologia.

Algumas precauções que devemos tomar, até por causa da natureza ocasional das Epístolas.

1 – Justamente por conta desta natureza ocasional devemos nos contentar com nossas limitações teológicas. Não teremos respostas para todas as perguntas. Por exemplo, em I Coríntios, quando Paulo fala do absurdo que é um irmão levar outro ao tribunal pagão (I Co. 6:2-3), Paulo diz que todos os salvos haverão de julgar o mundo e os anjos. Além disso, o texto não diz mais nada. Podemos com isso apenas crer que os cristãos farão julgamentos no Juízo Final, e apenas isto, o resto é pura especulação.

2 – Às vezes queremos encaixar nossas perguntas a determinados textos, quando na realidade a questão não havia sido ainda levantada. Quando indagamos ao texto que fale à questão do aborto, da eutanásia, células tronco, estamos querendo que respondam às perguntas de um período posterior. Às vez e até possível isso acontecer, porém não o farão frequentemente, simplesmente porque não existiam estas questões no século I. Há um claro exemplo disso no Novo Testamento em I Coríntios 7:10, querendo dizer que o próprio Jesus dera uma explicação à pergunta feita. Agora se o mesmo problema acontecesse na sociedade grega Paulo responde: “eu, não o Senhor” (v. 12). Claro que nós não possuímos a mesma autoridade apostólica de Paulo para questões semelhantes, mas devemos tentar trazer uma cosmovisão bíblica para o problema.

Estas são algumas sugestões para lermos e interpretarmos as Epístolas, porém o estudo sistemático continua, e o uso de dicionários, comentários e chaves bíblicas se fará constantemente necessários.

Deixe seu comentário:

  • Lucas Silva

    Muito bom este artigo.

  • Muito bom, muito bom mesmo. Obrigado por este esclarecimento.

  • J. J.

    Excelente!

  • Elvis

    Show!
    Muito bom mesmo! Parabéns!

  • Wesley Pimentel

    Valeu pelo texto, “Tipo X Símbolo” estava me dando uma canseira para entender, me ajudou.

  • Edmilson Manoel

    Gostei muito do site, vai me ajudar muito,nos meus estudos.