A formação do Cânon do Novo Testamento e as implicações para a Igreja

cânon do novo testamento

 

Filipe Balieiro
Mestrando em Divindade, Regent College – Vancouver – Canada
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Facebook: Filipe Balieiro
e-mail: balieiro.f@gmail.com

Todos nós sabemos que a bíblia é o livro mais importante do cristianismo, é o livro que regula a fé e a prática de todo cristão. Mas, quando e como a bíblia foi formada? Quem decidiu que esses 27 livros que temos hoje no Novo Testamento seriam os livros oficiais? Tentando responder essas perguntas, discutiremos o fechamento do cânon do Novo Testamento. Alguns anos depois da morte e ressureição de Cristo, as igrejas e os cristãos tinham vários livros que circulavam entre as igrejas e os cristãos sem critério nenhum. Esses livros eram chamados “Escrituras”.i Como não existia nenhuma regra para definir quais livros deveriam circular entre as igrejas, os teólogos discordavam sobre quais livros deveriam circular entre as igrejas. O fato é que a situação ficou insustentável e que em um determinado ponto da historia da igreja foi decidido quais livros iriam compor o novo testamento. Mas, quais foram as influências (internas e externas) que levaram a criação e o fechamento do cânon do Novo Testamento; Que critério foi usado para selecionar esses livros? Quais as implicações do fechamento do cânon para a igreja contemporânea?

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O Códice Sinaítico

Códice Sinaítico

O códice Sinaítico

O Códice Sinaítico foi descoberto por Constantin von Tischendorf, em sua terceira visita ao Mosteiro Ortodoxo de Santa Catarina, no sopé do Monte Sinai (Egipto), em 1859. Nas duas primeiras viagens, ele conseguiu partes do Antigo Testamento, encontrados num cesto que continha pedaços de vários manuscritos. Tischendorf teria ouvido de um bibliotecário que aqueles manuscritos eram lixo, e que seriam queimados no forno do mosteiro. O imperador da Rússia Alexandre II o enviou para procurar os demais manuscritos, os quais ele estava convencido de que estariam no próprio mosteiro.

Os principais manuscritos da Bíblia

manuscritos da Bíblia

Os principais manuscritos da Bíblia

Referiremos-nos aos manuscritos como cópias totais ou parciais da Bíblia. Recebem seu nome dependendo do lugar, quem fez a descoberta, ou conhecendo-se os escritores da cópia. O estudo destes manuscritos é importante para conhecermos parte do processo que levou a Bíblia até nossos dias. Vamos dividir nosso estudo entre os manuscritos do Antigo e Novo Testamentos.

 

Manuscritos do Antigo Testamento

 

Temos três cópias ou traduções importantes do Antigo Testamento:

 

  • Septuaginta (LXX) Septuaginta é o nome de uma suposta versão da Bíblia hebraica para o grego koiné (grego popular), que teria sido traduzida entre o terceiro e o primeiro século a.C. em Alexandria. A tradução ficou conhecida como a Versão dos Setenta (ou Septuaginta, palavra latina que significa setenta, ou ainda LXX), pois setenta e dois rabinos trabalharam nela e, segundo a lenda, teriam completado a tradução em setenta e dois dias. O caso é que a versão grega é uma realidade inegável e foi bem acolhida pelos judeus alexandrinos, que logo a difundiu pelas nações onde o grego era falado. A Septuaginta foi usada como base para diversas traduções da Bíblia.
    Ela tornou-se o Antigo Testamento da Igreja e foi altamente estimada pelos cristãos primitivos, de modo que muitos escritores declararam-na inspirada. Os cristãos recorriam à ela constantemente em suas controvérsias com os judeus; estes logo reconheceram suas imperfeições e, finalmente, a rejeitaram em favor do texto hebraico ou de traduções mais literais.

 

  • Vulgata A Vulgata é uma tradução para o latim da Bíblia, escrita em meados do século IV por Jerônimo, a pedido de Dâmaso (Bispo de Roma). Nos seus primeiros séculos, a Igreja serviu-se sobretudo da língua grega. Foi nesta língua que foi escrito todo o Novo Testamento, incluindo a Carta aos Romanos, bem como muitos escritos cristãos de séculos seguintes. No século IV, o biblista Jerônimo traduz pelo menos o Antigo Testamento para o latim. Foi a primeira, e por séculos a única, versão da Bíblia que traduziu o Antigo Testamento diretamente do hebraico e não da tradução Septuaginta. O nome vem da frase versio vulgata, isto é “versão dos vulgares”, e foi escrito em um latim cotidiano.

 

  • Texto massorético Texto Massorético (“MT”) é um texto em hebraico do Tanakh. Inclui a Torá, os Profetas e Escritos. Conhecido como Bíblia Hebraica ou Tanakh, foi utilizado como base em várias traduções protestantes do Antigo Testamento. Em torno do século VI, um grupo de competentes escribas judeus teve por missão reunir os textos considerados inspirados por Deus, utilizados pela comunidade hebraica, em um único escrito. Este grupo recebeu o nome de “Escola de Massorá”. Os “massoretas” escreveram a Bíblia de Massorá, examinando e comparando todos os manuscritos bíblicos conhecidos à época. O resultado deste trabalho ficou conhecido posteriormente como o “Texto Massorético”. O termo “massorá” provém na língua hebraica de mesorah e indica “tradição”. Portanto, massoreta era alguém que tinha por missão a guarda e preservação da tradição.

 

Os Códices (Códex)


A origem da palavra vem de caules (caudex) = códice (códex).

Na igreja primitiva dos séculos II e III, as Escrituras eram executadas em material barato como o papiro, daí não terem sido tão bem preservados quanto os rolos hebraicos encontrados nos sítios arqueológicos. Ainda eram usados os rolos. A partir do século IV o suporte de papiro foi substituído por cascas de árvores, prensadas e misturadas à goma, técnica desenvolvida pelos ítalos. E ao invés de enroladas as folhas eram sobrepostas umas às outras e costuradas, da mesma forma dos livros atuais. Para proteger a obra, era colocada uma capa de madeira, que depois foi substituída por couro.

 

 

Manuscritos do Novo Testamento

 

  • Códice Alexandrino Também conhecido como manuscrito ‘A’, pertence à primeira metade do século V. Este códice contém a Septuaginta e grande parte do Novo Testamento. Este é um dos mais completos manuscritos gregos antigos da Bíblia. Este manuscrito recebe o nome de Alexandria, lugar onde se acredita que ele foi originalmente escrito.

 

  • Códice Vaticano O Códice Vaticano, também conhecido como Manuscrito ‘B’, pertence ao século IV. Foi considerado por estudiosos como o melhor manuscrito grego do Novo Testamento. É um dos manuscritos mais antigos da Bíblia, sendo inclusive ligeiramente mais antigo que o Códice Sinaítico. Ele é um dos manuscritos unciais, isto é, escritos em letras gregas maiúsculas.

 

  • Códice Sinaítico O Códice Sinaiticus, também conhecido como Manuscrito ‘Aleph’ (primeiro algarismo do alfabeto hebraico), é um dos mais importantes manuscritos gregos já descobertos, pois além de ser um dos mais antigos (século IV), e o único códice que contém o Novo Testamento inteiro. Atualmente acha-se no Museu Britânico. Juntamente com o Codice Vaticano, é um dos mais importantes manuscritos gregos para a referência textual da Bíblia, além do texto da Septuaginta.

 

  • Códice Efraimita Originou-se em Alexandria, por volta de 354. Foi levado à Itália em 1500. Catarina de Médici, italiana, mãe e esposa de reis franceses o comprou em 1533. Após sua morte foi colocado na Biblioteca nacional de Paris, onde está até hoje. Falta a este códice a maior parte do Antigo Testamento, contendo partes de Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos cânticos e dois livros apócrifos – Sabedoria de Salomão e Eclesiástico. Ao Novo testamento faltam 2 Tessalonicenses, 2 João e parte de outros livros.

 

  • Códice Beza Também chamado Códice de Cambridge, foi transcrito em 450 ou 550. É o manuscrito bilíngue mais antigo que se conhece do Novo Testamento, escrito em grego e em latim, na região geral do sul da Gália (França) ou do norte da Itália. Foi descoberto em 1562 por Teodoro Beza, teólogo francês, no Mosteiro de Santo Irineu, em Lion, na França. Em 1581 Beza deu-o à Universidade de Cambridge. Contém os quatro evangelhos, Atos e 3João 11—15, com variações tiradas de outros manuscritos, nele indicadas. Há muitas omissões no texto, tendo permanecido apenas o texto latino de 3 João 11—15.

 

  • Códice Washington Data do século IV ou início do V. Charles F. Freer, em 1906, o havia adquirido de um negociante do Cairo, no Egito. Esse manuscrito contém os quatro evangelhos, porções das epístolas de Paulo (exceto Romanos), Hebreus, Deuteronômio, Josué e Salmos. A ordem dos evangelhos é: Mateus, João, Lucas e Marcos. Marcos contém o final mais longo (Mc 16.9-20); entretanto, acrescenta uma inserção após o versículo 14. É um códice volumoso, feito de velino.

 

Traduções para o português

 

  • Idade Média A primeira tradução que se tem notícia é a do rei Dinis de Portugal. É uma tradução dos 20 primeiros capítulos de Gênesis, a partir da Vulgata. Em 1505, a rainha Leonor ordena a tradução de Atos dos Apóstolos e as Epístolas de Tiago, Pedro, João e Judas. O padre Antônio Ribeiro dos Santos é responsável por traduções dos Evangelhos de Mateus e Marcos. Em 1529, é publicada em Lisboa uma tradução dos Salmos feita por Gomez de Santofímia, que teve uma 2ª edição em 1535.

 

  • João Ferreira de Almeida A tradução feita por João Ferreira de Almeida é considerada um marco na história da Bíblia em português porque foi a primeira tradução do Novo Testamento a partir das línguas originais. Aos 17, traduziu o Novo Testamento do latim, da versão de Theodore Beza, além de ter se apoiado nas versões italiana, francesa e espanhola. Aos 35 anos, iniciou a tradução a partir de obras escritas no idioma original. A tradução do Novo Testamento ficou pronta em 1676. O texto foi enviado para a Holanda para revisão. O processo de revisão durou 5 anos, sendo publicado em 1681. O próprio Almeida revisou o texto durante dez anos, sendo publicado após a sua morte, em 1693. A tradução completa, após muitas revisões, foi publicada em dois volumes, um 1748.

 

Traduções do Brasil

 

  • Traduções parciais – A primeira tradução realizada no Brasil foi feita pelo bispo Joaquim de Nossa Senhora de Nazaré. Era um Novo Testamento traduzido a partir da Vulgata.  O imperador D. Pedro II era um profundo admirador da cultura judaica. Após aprender o hebraico, que era a sua língua favorita, traduziu partes da Bíblia, como o livro de Neemias, além de partes do Antigo Testamento para o latim.

 

  • Traduções completas – A Almeida Revista e Corrigida foi a primeira Bíblia a ser impressa no Brasil, em 1948.Está em circulação a revisão de 1995. A Versão Revisada foi publicada em 1967, pela Imprensa Bíblica Brasileira e pela Juerp. Em 1988 é publicada a Bíblia na Linguagem de Hoje, caracterizada por ter uma linguagem popular e tradução flexível. Muitos eruditos vêem uma excessiva utilização de linguagem popular, que pode comprometer a fidelidade com o texto original. Devido a esses problemas, essa tradução passou por um grande processo de revisão, que resultou na Nova Tradução na Linguagem de Hoje, em 2000. Em 2006 é publicada a Bíblia Hebraica. É o primeiro Tanakh completo publicado em português, desde 1553.

 

 

As línguas e materiais da Bíblia

Linguas e Materiais

As línguas e materiais da Bíblia

Vimos até este momento os dois primeiros elos sobre a Bíblia:

  • A inspiração (Aulas 1 a 5)
  • A canonização (Aulas 6 a 10)

Nesta terceira parte de nosso estudo vamos nos concentrar na transmissão da Bíblia. As traduções pelas quais passou até chegar aos nossos dias. Como foi a recuperação destes textos e os materiais usados para sua transmissão. Vamos ver alguns dos principais manuscritos da Bíblia, já que ela nem sempre esteve compilada num único livro.

A importância das línguas escritas

Meios alternativos de transmissão

Deus tinha várias alternativas para transmitir sua palavra aos homens(Hb. 1:1)

  • Œ Anjos – Gn. 18 e 19; Ap. 22:8-21
  •  Urim e Tumim – Ex. 28:30; Pv. 16:33
  • Ž Voz da consciência – Rm. 2:15
  •  Criação – Sl. 19:1-6
  • ‘ Vozes audíveis – 1 Sm 3
  • ’ Milagres diretos – Jz. 6:36-40

Todos estes meios eram válidos e funcionaram, porém se tornam muito subjetivos com o passar do tempo.

A língua escrita em geral

Deus decidiu fazer com que as palavras que ele havia dito aos profetas e apóstolos permanecesse ao longo do tempo e fosse imortalizada. Deus então resolveu registrar sua palavra, um registro objetivo e muito mais fácil de transmitir.

Vantagens da palavra escrita:

  • Precisão – Para que um pensamento seja escrito, é necessário que o mesmo tenha sido claramente compreendido pelo autor. O leitor por sua vez, pode entender muito mais facilmente a palavra escrita.
  • Permanência – Por causa de nossos lapsos de memória a palavra escrita pode preservar nossos pensamentos.
  • Objetividade – Uma vez que os pensamentos já estão formados basta registrá-los.
  • Disseminação – A capacidade de propagação da palavra escrita é muito grande, e não se corre o risco de perder-se a ideia principal de um pensamento.

Os idiomas originais

Foram utilizados três idiomas diferentes na escrita dos diversos livros da Bíblia: o hebraico, o grego e o aramaico. Em hebraico consonantal foi escrito todo o Antigo Testamento, com exceção dos livros chamados deuterocanônicos (Apócrifos), e de alguns capítulos do livro de Daniel, que foram redigidos em aramaico.

Em grego comum, além dos já referidos livros deuterocanônicos do Antigo Testamento, foram escritos praticamente todos os livros do Novo Testamento. Segundo a tradição cristã, o Evangelho de Mateus teria sido primeiramente escrito em hebraico, visto que a forma de escrever visava alcançar os judeus.

O hebraico utilizado na Bíblia não é todo igual. Encontramos em alguns livros o hebraico clássico (por ex. livros de Samuel e Reis), em outros um hebraico mais rudimentar e em outros ainda, nomeadamente os últimos a serem escritos, um hebraico elaborado, com termos novos e influência de outras línguas circunvizinhas.

O grego do Novo Testamento, apesar das diferenças de estilo entre os livros, corresponde ao chamado grego koiné (isto é, o grego “comum” ou “vulgar”, por oposição ao grego clássico), o segundo idioma mais falado no Império Romano.

Materiais e instrumentos de escrita

  • Tabletes de Argila, ou tabuinhas de barro, que eram usadas na antiga Suméria, já em 3.500ª.C. No AT há referência delas em Jeremias 17:13 e Ezequiel 4:1;
  • Pedras foram usadas na Mesopotâmia, no Egito e na Palestina, por exemplo, o código de Hamurábi e as pedras de Roseta. Na bíblia há citação de seu uso em Êxodo 24:12; 32:15 e Deuteronômio 27:2,3;
  • Pedras preciosas, como o ônix, referidas em Êxodo 39:6-14;
  • Metal, em lâminas de ouro, cuja referência bíblica encontra-se em Êxodo 28:36;
  • Cera foi referida em Isaías 8:1;
  • Madeira, tábuas, em Habacuque 2:2.
  • Óstracos, pedaços de restos de azulejos e cascas de crustáceos, referidos em Jó 2:8;
  • Linho foi usado no Egito, Grécia e Itália, mas não tem referência bíblica.
  • Papiro foi usado na antiga Gebal, ou Biblos, e no Egito por volta de 2100 a.C. Era obtido através da prensa de cascas coladas. Desse material faziam-se rolos. Foi esse o material utilizado por João, o discípulo de Cristo, para escrever o Apocalipse.
  • Pergaminho surgiu pela primeira vez em Pérgamo, cidade grega da Mísia, daí a origem do seu nome. O uso desse material se expandiu devido ao monopólio imposto pelos exportadores de Papiro. Havia dois tipos: o pergaminho e o velino, o primeiro era feito com o couro de animais menores, como as ovelhas e cabras, e o segundo com bois e antílopes, o que encarecia o produto, diminuindo a sua utilização. Paulo se refere ao pergaminho em 2Timóteo 4:13;
  • Palimpsesto, um pergaminho reutilizado, utilizado para escrever o Códice Efraimita em 345 d.C.

As ferramentas de Escrita

  • Estilo ou Estilete simples – feitos em pedra talhadas, no formato de pontas de lanças, e usados sobre tabuinhas de argila ou cera. Alguns autores bíblicos também a denominavam pena.
  • Estilete ponta resistente – ponta feita em ferro ou diamante, usados em material de metal (Jr 17:1).
  • Cinzel – ferramenta feita de ferro ou chumbo para escrever sobre pedra. Jó se refere ao cinzel como pena de ferro (Jo 19:24).
  • Canivete – Jeremias usa a expressão “canivete de escrivão” que era usado para documentos oficiais.

A preparação dos manuscritos

Os escritos originais, saídos da mão do profeta ou apóstolo eram chamados de autógrafos, e já não existem mais.

  • Antigo Testamento – Não existem manuscritos que foram feitos antes do cativeiro babilônico (586 a.C.). Após este período houve uma avalanche de manuscritos produzidos pelas sinagogas. Existiam dois tipos de produção: os particulares e os rolos das sinagogas. OS rolos das sinagogas eram tidos como sagrados por causa das rígidas regras que regiam a sua produção. Eram usados nos cultos, leituras públicas e festas anuais. As cópias particulares eram consideradas cópias comuns, mas mesmo assim sujeitas a algumas regras de produção. Custava muito dinheiro ter uma cópia particular de toda escritura na época.
  • Novo Testamento – Os autógrafos desapareceram há muito tempo, porém existem evidências de que foram escritos em rolos e livros de papiro, entre os anos de 50 e 100 d.C. No começo do século II, com a chegada das perseguições, as cópias sistemáticas pararam, e depois da legalização do Cristianismo com Constantino, voltaram a ser feitas, desta vez usando-se o velino e o pergaminho. Só na época da Reforma(século XVI) é que haveriam as primeiras cópias impressas da Bíblia toda.

A extensão do cânon do Novo Testamento

A extensão cânon do Novo Testamento

A extensão do cânon do Novo Testamento

Assim como o Antigo Testamento havia livros do cânon do Novo Testamento que foram aceitos por todos, livros rejeitados por todos, livros aceitos por alguns e livros questionados por alguns.

Os livros aceitos por todos – Homologoumena

Assim como no Antigo Testamento a maioria dos livros foi aceita pela Igreja logo no início. Em geral, 20 dos 27 livros do Novo Testamento pertencem a esta classificação. Incluem-se todos exceto: Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. Os outros três foram omitidos em algumas épocas. Como os livros desta classe foram aceitos por todos não trataremos mais deles e concentraremos nossos estudos nas outras classes de livros.

Os livros rejeitados por todos – Pseudepígrafos

Entre os séculos II e III surgiram numerosos livros heréticos, que receberam o nome de pseudepígrafos, ou escritos falsos. Eusébio os classificou de “totalmente absurdos e ímpios”.

Praticamente nenhum pai da Igreja, nenhum cânon ou concílio declarou apoio a estes escritos, pois em sua maioria eram gnósticos, heréticos e registravam supostos fatos misteriosos não narrados nos evangelhos canônicos (por exemplo a infância de Jesus). Tinham uma desmedida fantasia religiosa. As seitas que mais adotaram este livros foram os:

  • Gnósticos – Ensinavam que a matéria era má e negavam a encarnação de Jesus.
  • Docetas – Ensinavam a divindade de Jesus e negavam sua humanidade; diziam que era apenas uma aparência de humano.
  • Monofisistas – Ensinavam que Jesus tinha uma única natureza, uma fusão da humana e divina.

O interesse destes livros por parte dos cristãos é puramente histórico.

O número dos pseudepígrafos

Até o século XIX haviam sido achados 280 obras desta natureza. Abaixo relacionamos as principais e as mais tradicionais neste quesito.

Evangelhos
1. O Evangelho de Tomé (século I) é uma visão gnóstica dos supostos milagres da infância de Jesus.
2. O Evangelho dos ebionitas (século II) é uma tentativa gnóstico-cristã de perpetuar as práticas do Antigo Testamento.
3. O Evangelho de Pedro (século II) é uma falsificação docética e gnóstica.
4. O Proto-evangelho de Tiago (século II) é uma narração que Maria faz do massacre dos meninos pelo rei Herodes.
5. O Evangelho dos egípcios (século II) é um ensino ascético contra o casamento, contra a carne e contra o vinho.
6. O Evangelho arábico da infância (?) registra os milagres que Jesus teria praticado na infância, no Egito, e a visita dos magos de Zoroastro.
7. O Evangelho de Nicodemos (séculos II ou V) contém os Atos de Pilatos e a Descida de Jesus.
8. O Evangelho do carpinteiro José (século IV) é o escrito de uma seita monofisista que glorificava a José.
9. A História do carpinteiro José (século V) é a versão monofisista da vida de José.
10. O passamento de Maria (século IV) relata a assunção corporal de Maria e mostra os estágios progressivos da adoração de Maria.
11. O Evangelho da natividade de Maria (século VI) promove a adoração de Maria e forma a base da Lenda de ouro, livro popular do século XIII sobre a vida dos santos.
12. O Evangelho de um Pseudo-Mateus (século V) contém uma narrativa sobre a visita que Jesus fez ao Egito e sobre alguns dos milagres do final de sua infância.
13-21.Evangelho dos doze, de Barnabé, de Bartolomeu, dos hebreus (v. “Apócrifos”), de Marcião, de André, de Matias, de Pedro, de Filipe.

Atos
1. Os Atos de Pedro (século II) contêm a lenda segundo a qual Pedro teria sido crucificado de cabeça para baixo.
2. Os Atos de João (século II) mostram a influência dos ensinos gnósticos e docéticos.
3. Os Atos de André (?) são uma história gnóstica da prisão e da morte de André.
4. Os Atos de Tomé (?) apresentam a missão e o martírio de Tomé na Índia.
5. Os Atos de Paulo apresentam um Paulo de pequena estatura, de nariz grande, de pernas arqueadas e calvo.
6-8. Atos de Matias, de Filipe, de Tadeu.

Epístolas
1. A Carta atribuída a nosso Senhor é um suposto registro da resposta dada por Jesus ao pedido de cura de alguém, apresentado pelo rei da Mesopotâmia. Diz o texto que o Senhor enviaria alguém depois de sua ressurreição.
2. A Carta perdida aos coríntios (séculos II, III) é falsificação baseada em 1Coríntios 5.9, que se encontrou numa Bíblia armênia do século V
3. Às (Seis) Cartas de Paulo a Sêneca (século IV) é falsificação que recomenda o cristianismo para os discípulos de Sêneca.
4. A Carta de Paulo aos laodicenses é falsificação baseada em Colossenses 4.16. (Também relacionamos essa carta sob o título “Apócrifos”).

Apocalipses
1. Apocalipse de Pedro (também relacionado em “Apócrifos”).
2. Apocalipse de Paulo.
3. Apocalipse de Tomé.
4. Apocalipse de Estêvão.
5. Segundo apocalipse de Tiago.
6. Apocalipse de Messos.
7. Apocalipse de Dositeu.

Os três últimos são obras coptas do século III de cunho gnóstico, descobertas em 1946, em Nag-Hammadi, no Egito.

Outras Obras
1. Livro secreto de João
2. Tradições de Matias
3. Diálogo do Salvador

Visto que a rejeição a estes livros foi unânime, e em razão das heresias e erros grosseiros apresentados são adequadamente chamados de pseudepígrafos. Seja qual for a verdade contida nestes livros, perdeu-se em virtude das fantasias apresentadas e tendências heréticas. Não acrescentam nem mesmo valor devocional, a não ser histórico, pois revelam a crença de seus autores.

Os livros questionados por alguns – Antilegomena

Houve sete livros cuja autenticidade foi questionada por alguns dos pais da Igreja, e por isso, ainda não tinham tido reconhecimento até volta do século IV. Estes livros foram: Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. O fato destes livros não terem sido universalmente reconhecidos não significa que não houvesse aceitação dos mesmos por parte da Igreja. O fato também de que houve algum questionamento sobre estes livros não quer dizer que sua canonicidade esteja diminuída, de forma alguma! O problema principal do questionamento de alguns livros se referia muito mais à dificuldade de comunicação entre as comunidades cristãs do Oriente e Ocidente. A partir do momento que todos os fatos envolvidos no reconhecimento destes livros ficaram evidentes para ambas as comunidades, o total dos 27 livros foi imediatamente reconhecida como tendo autoridade divina.

O número dos antilegomena

Vamos examinar cada um dos livros que sofreram algum tipo de objeção com relação ao reconhecimento de sua autoridade divina.

Hebreus – A principal questão envolvendo o não reconhecimento deste livro por parte da Igreja do Oriente foi o autor não se identificar. O autor também não toma para si a qualidade de apóstolo(Hb. 2:3). Porém, os cristãos do Oriente não sabiam que os cristãos do Ocidente já haviam reconhecido sua autenticidade. Outro fato que contribuiu para o não reconhecimento foi o fato de alguns grupos heréticos terem usado Hebreus para apoio de algumas de suas heresias. Já no século IV, com a ajuda de Jerônimo e Agostinho, a carta aos Hebreus foi definitivamente incorporada ao cânon do Novo Testamento. O conteúdo do livro é altamente confiável, bem como sua reivindicação de deter autoridade divina (1:1; 13:22)

Tiago – Assim como Hebreus, a veracidade da carta de Tiago foi questionada. Principalmente pelo fato do autor não afirmar ser apóstolo. Porém, os primeiros leitores e aqueles que se seguiram, puderam atestar que este Tiago pertencia ao círculo apostólico, era o irmão de Jesus. Contudo, a Igreja Ocidental não teve acesso a esta informação. Também havia a questão da justificação pela fé e as obras que Tiago cita em sua carta. A princípio pareceu conflitante com os ensinos de Paulo sobre a justificação pela fé somente. Até Martinho Lutero chamou Tiago de “carta de palha”, colocando-a no fim do Novo Testamento. Então, com os esforços de Orígenes, Eusébio (que pessoalmente recomendava a carta), Jerônimo e Agostinho a veracidade desta carta foi reconhecida pela Igreja Ocidental.

Segunda carta de Pedro – Nenhuma outra carta do Novo Testamento gerou tantas dúvidas quanto a segunda epístola de Pedro. As dúvidas surgiram em decorrência da diferença de estilos entre esta e a Primeira carta do apóstolo. Descobertas demonstram que cristãos coptas (Egito) usavam esta carta em épocas bem antigas. Clemente de Roma, e a obra “Pseudo-Barnabé”, dos séculos I e II  citam a segunda carta de Pedro. Há também, evidências internas (doutrinas) de que se trata de uma carta do Apóstolo Pedro. As diferenças de estilos podem ser explicadas, pois em sua primeira carta houve o emprego de um escriba (1 Pe. 5:12) o que não aconteceu em sua segunda epístola.

Segunda e terceira cartas de João – Por causa de sua identificação como “O Presbítero” e sua limitada circulação, não foi amplamente aceita como a sua primeira carta, porém eram mais aceitas do que a segunda carta de Pedro. Policarpo e Irineu haviam aceito como confiável e inspirada. Por causa de semelhança de estilo com a primeira carta, que havia sido amplamente aceita, mostrou-se óbvio que estas duas também vieram do mesmo escritor. João era íntimo dos crentes asiáticos, ao ponto de escrever-lhes sob o título afetuoso de “O presbítero”. este título era usado pelos outros apóstolos(1 Pe. 5:1), enquanto que Apóstolo era usado para especificar seu dom (Ef. 4:11)

Judas – Esta carta também foi posta em dúvida por alguns devido às citações de livros que não se encontram no Cânon do Velho Testamento. Nos versículos 14 e 15 há uma citação do livro de Enoque  e uma possível citação do livro Assunção de Moisés no versículo 9. Porém, os primeiros pais da igreja, Irineu e Clemente de Alexandria haviam recebido esta carta como autorizada. O problema das citações pode ser entendido da mesma forma que Paulo faz menção de poetas não cristãos em Atos 17:28, 1 Cor. 15:33 e Tt 1:12. Não necessariamente há aprovação do que está sendo dito ou então tirou-se um fragmento de verdade dessas obras, e isso, não necessariamente desqualifica ou desautoriza o escrito Apostólico.

Apocalipse – Embora tendo sido aceito pelos primeiros pais da igreja no século I, no início do século IV o mesmo foi questionado devido à doutrina do Milênio, em Apocalipse 20. O debate acerca de Apocalipse foi o que mais durou entre os livros do Novo Testamento. Por volta do século III começaram a surgir ensinos heréticos tomando por base este livro. Dionísio, que era bispo de Alexandria, no século III, se ergueu contra o livro de Apocalipse. Porém, Jerônimo, Agostinho e Atanásio defenderam a autenticidade e confiabilidade de Apocalipse, no século IV. Quando houve o esclarecimento de que o livro estava sendo mal interpretado pelas seitas heréticas, Apocalipse ganhou lugar definitivo no Cânon.

Os livros aceitos por alguns – Apócrifos

Tiveram grande estima entre os pais da igreja primitiva, porém nunca ninguém os considerou canônico.

Epístola do Pseudo-Barnabé (c. 70-79) –  Teve ampla circulação no século I, seu estilo é parecido com o de Hebreus, porém mais alegórico. A antiguidade da carta está confirmada porém sua confiabilidade é extremamente questionável. O autor é um leigo que não reivindica autoridade divina (cap. 1) e obviamente não é o mesmo Barnabé encontrado em Atos.

Epístola aos Coríntios (c. 96) –  Esta carta de Clemente de Roma havia sido lida publicamente em Corinto e outros lugares.  Provavelmente o escritor tenha sido Clemente citado em Filipenses 4:3, porém a carta não reivindica autoridade divina. Emprega narrativa fantasiosa do velho Testamento e o livro apócrifo “Livro da Sabedoria” é citado como Escritura no cap. 27. O tom da carta é evangélico porém a igreja nunca o reconheceu como canônico.

O pastor – Hermas (c. 140) –  Foi o livro não-canônico mais popular da igreja primitiva. Tem grande valor ético e devocional, mas nunca foi reconhecido como inspirado pela igreja.

Didaquê – ou ensino dos doze apóstolos (c. 100-120) – Teve grande importância e prestígio na igreja primitiva. Foi o elo entre  os apóstolos e os pais primitivos, pois tinha muitas referências aos evangelhos e às cartas de Paulo até ao Apocalipse. Porém jamais foi considerado como inspirado divinamente pela igreja primitiva.

Apocalipse de Pedro (c. 150) –  Um dos mais antigos Apocalipses não-canônicos que circulou em larga escala na igreja primitiva. Suas narrações realísticas do mundo espiritual exerceram forte influência na Idade Média. A igreja nunca o reconheceu como canônico.

Carta aos Laodicenses (séc. IV?) –  Obra forjada, conhecida por Jerônimo. Aparece em muitas Bíblias do século VI ao XV. Mostra um punhado de frases de Paulo sem nenhum elo entre si, sem nenhuma linha de raciocínio lógica. Não tem ensino nenhum ensino doutrinário. Jamais obteve reconhecimento canônico.

Epístola de Policarpo aos Filipenses (c. 108) –  Foi discípulo do apóstolo João e mestre de Irineu. Foi o elo entre os apóstolos e os pais da Igreja do início do século II. Não defendeu inspiração divina para sua obra, apenas ensinava o que havia aprendido com os apóstolos. Não há muita originalidade nesta obra, visto que foi tirado dos escritos do Novo Testamento. Embora não seja canônica é uma rica fonte sobre os livros do Novo Testamento, que ele cita como canônicos.

Sete epístolas de Inácio (c. 110) –  Inácio, diz a tradição, foi também discípulo do Apóstolo João. Não reivindicou inspiração divina a seus ensinos. Tem muita familiaridade com os ensinos do Novo Testamento, de modo especial com as cartas de Paulo. Sem dúvida são cartas autênticas, porém não-canônicas.

Podemos resumir dizendo que os escritos do novo Testamento jamais sofreu polêmicas quanto à sua inspiração. O que houve sim, foi a dificuldade de comunicação e distância entre as comunidades do Oriente e Ocidente no sentido de estudarem em conjunto e dar um parecer favorável aos escritos do Novo Testamento, os quais temos até os dias de hoje.

O desenvolvimento do cânon do Novo Testamento

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O desenvolvimento do cânon do Novo Testamento

A história do cânon do Novo Testamento foi bem diferente do Velho Testamento. Não havia uma entidade ou organização que colecionassem os livros inspirados. Desde o começo a Igreja sempre foi uma comunidade internacional, então não havia como ter um único lugar de coleção destes livros considerados sagrados.

Os escritos sagrados eram copiados e colecionados nas diversas comunidades espalhadas. Por isso o processo para canonização dos escritos do Novo testamento levou alguns séculos. Uma vantagem foi que após haver o consenso sobre os livros realmente inspirados não houveram mais tentativas de inserir ou eliminar livros do cânon formado e aceito.

Os estímulos para que se colecionassem oficialmente os livros

Três fatores contribuíram para que se providenciasse o reconhecimento oficial dos livros do Novo Testamento: fator eclesiástico, fator teológico e o fator político.

O estímulo eclesiástico à lista dos canônicos

  • A necessidade de saber quais livros deveriam ser lidos em seus cultos, conforme a prática recomendada pelos apóstolos (1 Ts. 5:27).
  • A necessidade de saber quais livros deveriam ser traduzidos para as línguas estrangeiras dos convertidos.
  • A combinação destas forças exerceu pressão nos pais da igreja para que houvesse o reconhecimento dos livros inspirados.

O estímulo teológico à lista dos canônicos

Visto que toda escritura é útil para a doutrina (2 Tm. 3:16-17), tornou-se necessário definir os limites do que era a escritura, qual era o legado doutrinário dos apóstolos. Por causa da multiplicação dos livros heréticos (cânon de Marcião), foi de extrema urgência e importância definir quais livros seriam aplicados para o ensino da doutrina dos apóstolos.

O estímulo político à lista dos canônicos

As duas forças anteriores culminaram na pressão política sobre a Igreja para que se definissem os livros que eram realmente inspirados. Houve também a perseguição aos cristãos e a ordem para queimar quaisquer escritos dos mesmos. Então era necessário definir quais livros deveriam ser preservados e escondidos desta perseguição.

A compilação e o reconhecimento progressivo dos livros canônicos

Há fortes evidências de que os livros do Novo testamento foram colecionados e preservados, e sem dúvida alguma foram copiados e distribuídos pelas igrejas existentes na época.

Evidências neotestamentárias de um cânon crescente

O Novo testamento foi escrito na segunda metade do século I. A maior parte dos livros foi escrita para alguma igreja em particular (a maior parte das cartas de Paulo) e outras foram redigidas para pessoas em particular (Filemon, 2 e 3 João). Outros livros tinham o objetivo de atingir regiões inteiras: Ásia Oriental (1 Pedro), Ásia Ocidental (Apocalipse) e até mesmo Europa (Romanos). Algumas dessas cartas tiveram origem em várias regiões distintas: Jerusalém (Tiago); Roma, nos confins do Ocidente (1 Pedro). Desta forma é compreensível que a Igreja não tivesse todos os livros à sua disposição de imediato. Junte-se a isso a dificuldade com transporte e comunicação, e veremos que seria preciso algum tempo até que houvesse a coleção completa destes livros e a conseqüente canonização dos mesmos. Porém, apesar destas dificuldades a Igreja começou de imediato a coleção de todos estes escritos apostólicos.

A seleção dos livros fidedignos

Desde o início da era cristã houveram vários escritos falsos, ou não condizentes com os verdadeiros fatos sobre a vida de Cristo. Compreendemos isso lendo os primeiros versos do livro de Lucas (Lc. 1:1-4). Paulo advertiu os tessalonicenses sobre falsas cartas atribuídas a ele (2 Ts. 2:20). Paulo sempre assinava suas cartas de modo particular (2 Ts. 3:17).

O apóstolo João nos afirma que existiram muitas outras coisas que Jesus fez, que não estavam escritos nos evangelhos (Jo 20:30; Jo 21:25). Desta maneira começaram a surgir muitas crendices sobre a vida de Jesus. Enquanto as testemunhas oculares da morte e ressurreição de Jesus ainda estivessem vivas, tudo poderia passar pela autoridade oral dos apóstolos (1 Ts. 2:13; 1 Co. 11:2). Há quem acredite que estas tradições orais dos apóstolos originou o kerigma (proclamação) que funcionava como um cânon dentro do cânon. Quer o kerigma fosse o critério, ou não, fica claro que a igreja apostólica também tinha que ser seletiva e apurar os fatos sobre a vida e ensinos de Jesus. João, em seu evangelho, destrói uma heresia que se havia se tornado comum naquele tempo: que ele jamais morreria (Jo 21:23-24). Ele também escreveu outra advertência dizendo para não crer em qualquer espírito que diga ser vindo de Deus (1 Jo 4:1).

Diante disso concluímos que na igreja primitiva já havia um processo de seleção canônica em operação. Quaisquer palavras, fossem orais ou escritas, eram submetidas ao ensino apostólico. Se tal palavra não pudesse ser comprovada pelas testemunhas oculares(Lc. 1:2;At. 1:21-22), era rejeitada. Os apóstolos eram o tribunal pelo qual os ensinos eram testados e confrontados (1 Jo. 1:3; 2 Pe. 1:16). O próprio Deus deu testemunho aos apóstolos (Hb. 2:3-4).

A leitura de livros autorizados

Outra evidência do processo de canonização do Novo Testamento era a leitura pública das cartas que os apóstolos enviavam às igrejas. Paulo ordena aos tessalonicenses que sua carta seja lida a todos (1 Ts. 5:27). Paulo faz o mesmo com os colossenses (Cl. 4:16). Na realidade este era um costume antigo da comunidade judaica, a leitura das escrituras publicamente.

  • Moisés e Josué o praticaram (Ex. 24:7;Js. 8:34)
  • Josias pediu para que se lesse a Bíblia em seus dias (2 Rs. 23:2)
  • Esdras o reinstituiu (Ne. 8:8)

Isto indica que as cartas apostólicas tinham por objetivo serem lidas em várias comunidades, e não apenas no lugar para o qual eram destinadas. À medida que iam recebendo e lendo também colecionando estes escritos. Mais tarde este costume teria importância vital para a canonização do Novo Testamento.

A circulação e a compilação dos livros

No início da Igreja nenhuma comunidade cristã tinha a coleção completa dos escritos apostólicos, mas a coleção foi crescendo à medida que as igrejas iam recebendo as cartas e fazendo cópias autenticadas pela assinatura dos apóstolos ou seus emissários. Conforme foram crescendo as igrejas cristãs, novas cópias eram necessárias para que fossem lidas e estudadas nestas novas comunidades.

Conforme vemos em Colossenses já havia o costume da circulação das cartas.

O apóstolo João foi orientado a escrever seu ultimo livro, o Apocalipse, e envia-lo às sete igrejas pela Ásia Menor (Atual Turquia). Ou seja, teria de haver a circulação deste livro entre estas igrejas (Ap. 1:11).

Outros livros seguem o mesmo padrão. Tiago havia escrito às doze tribos da Dispersão (Tg 1:1). Pedro também escreveu a várias comunidades distintas (1 Pe. 1:1).

Todas essas cartas-circulares revelam o início do processo de canonização. As cartas eram obviamente primeiro endereçadas à Igreja para qual era destinada, mas depois essas igrejas deveriam fazer cópias e enviar a outras comunidades.

E não deveriam ser apenas lidas uma vez, mas Paulo orienta a leitura continuada destas cartas (1 Tm. 4:11-13).

Existe evidência no Novo Testamento desta coleção crescente dos escritos. Basta analisarmos o texto de 2 Pe. 3:15-16. Pedro possuía um conjunto dos escritos de Paulo, que colocava ao lado “das outras escrituras”. Ora, se as cartas foram endereçadas às igrejas específicas o que levou Pedro a ter uma cópia destas cartas de Paulo? Isto demonstra que realmente havia coleções dos escritos dos apóstolos sendo feitas.

Desta forma, notamos que desde o início da Igreja a formação do cânon do Novo Testamento estava em pleno andamento.

No final do século I, todos os escritos apostólicos já haviam sido recebidos pelas igrejas.

Porém, pelo fato da dificuldade de locomoção e comunicação, demorou-se alguns séculos até que todos estes escritos fossem reunidos e formalmente agrupados num único livro. Além da seleção dos falsos escritos que também circulavam entre a comunidade neo testamentária, o que levou a um acréscimo do tempo necessário para o reconhecimento dos escritos inspirados.

A confirmação da compilação oficial dos livros canônicos

O testemunho dos pais da Igreja sobre o cânon

Logo após a primeira geração de cristãos, todos os livros do Novo Testamento já haviam sido citados nas obras dos primeiros pais da Igreja. Esta geração havia convivido com os apóstolos diretamente. Devemos ter o cuidado de não achar que, por um determinado pai da Igreja não ter citado algum livro do Novo Testamento, este não seja dotado de autoridade divina, afinal isto não é um pré-requisito de sua canonicidade. Basta fazer um exercício consigo mesmo: qual foi a última vez que você mencionou o livro de Filemom? O mesmo princípio se aplica aos pais da Igreja. O importante a ser destacado é que todos os livros do Novo Testamento, já no segundo século, havia sido citado por todos os pais da Igreja na época.

O testemunho das listas primitivas e das traduções do cânon

Outras confirmações sobre o cânon do Novo Testamento estão claras em algumas traduções mais antigas e listas canônicas entre os séculos II e IV. Não poderia haver uma lista, ou uma tradução, sem antes reconhecer-se serem estes livros dotados de autoridade divina.

Antiga tradução Siríaca (Síria) – Uma antiga tradução circulou na Síria no fim do século IV. Continha todos os livros do Novo Testamento exceto: 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. Isto é explicado pelo fato dos livros omitidos serem dirigidos a igrejas no Ocidente, a igreja siríaca ficava no Oriente. A distância e falta de comunicação atrasaram o processo de reconhecimentos destes livros por parte da Igreja Oriental. Esta versão da Bíblia foi editada antes desta confirmação ser aceita por todos.

Antiga Latina – O Novo Testamento já havia sido traduzido para o latim antes do ano 200. Continha todos os livros do Novo Testamento exceto: Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro. A omissão a estes livros são o oposto da tradução siríaca. Estas cartas haviam sido escritas a princípio para as igrejas orientais, então devido aos mesmos problemas relatados anteriormente, demorou até que as igrejas no Ocidente tivessem o reconhecimento destes livros.

Cânon Muratório (170 d.C.) – Além do cânon herético de Marcião, a lista canônica mais antiga se encontra no fragmento muratório. É idêntico à Antiga Latina, excluindo-se Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro. Porém os estudiosos acreditam que houve uma falha nos manuscritos, pois Hebreus e 1 Pedro estavam ausentes, ao passo que livros menos frequentes como Filemom e 3 João estavam incluídos.

Códice barocócio (206 d.C.) – Outro testemunho do cânon primitivo vem de um códice intitulado “Os sessenta livros”. Esta obra continha 64 dos 66 livros da Bíblia atual, exceto Ester no Velho Testamento e Apocalipse no Novo Testamento. A canonicidade de Apocalipse está bem atestada em outras obras, entre elas o Códice Muratório. Teve também o apoio de Justino Mártir, Ireneu, Clemente de Alexandria e Tertuliano.

Eusébio de Cesaréia (c. 340 d.C.) – A situação do Novo Testamento no século IV já estava bem definida. Em sua obra “História Eclesiástica” ele mencionou como totalmente aceitáveis os livros do Novo Testamento, exceto: Tiago, Judas, 2 Pedro e 2 e 3 João, pois este livros eram questionados por alguns ainda. Havia também o Apocalipse que ele próprio rejeitava. Desta forma, todos os livros do Novo Testamento, exceto Apocalipse tinham o reconhecimento da autoridade divina.

Atanásio de Alexandria (c. 373) – Nos cinqüenta anos seguintes a Eusébio, Atanásio relaciona todos os 27 livros do Novo Testamento como canônicos. Mais tarde, na geração seguinte, tanto Jerônimo quanto Agostinho teriam confirmado a mesma lista de livros canônicos, de modo que os mesmos permaneceram no cânon do Novo Testamento (Da Doutrina Cristã).

Concílios de Hipo (393) e Cartago (397) – Os testemunhos de apoio não se limitaram apenas a indivíduos. Estes dois concílios também reforçaram o apoio ao reconhecimento da autoridade divina aos 27 livros do Novo Testamento.

Então, desde o século V a Igreja tem aceito esses 27 livros como canônicos.

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A extensão do cânon do Antigo Testamento

cânon do Antigo Testamento

A extensão do cânon do Antigo Testamento

A aceitação dos 24 livros que compõem o cânon hebraico Não resolveu a questão de uma vez por todas. Alguns estudiosos de eras posteriores nem sempre estavam conscientes dos fatos da aceitação original, e destas dúvidas nasceram alguns conceitos técnicos sobre a aceitação dos livros. Veremos quatro classificações que os livros receberam de acordo com sua aceitação ou rejeição.

  • Livros aceitos por todos – Homologoumena
  • Livros rejeitados por todos – Pseudepígrafos
  • Livros questionados por alguns – Antilegomena
  • Livros aceitos por alguns – Apócrifos

Os livros aceitos por todos – Homologoumena

São os livros que nunca foram questionados por nenhum dos grandes rabis. Todos reconheceram ser detentores da inspiração divina. Trinta e quatro dos 39 livros que formam o Velho Testamento são pertencentes a esta classificação. Os cinco excluíveis seriam: Cântico dos cânticos, Eclesiastes, Ester, Ezequiel e Provérbios. Como não foram alvo de sérias contradições, podemos focar nosso estudo aos outros livros.

Os livros rejeitados por todos – Pseudepígrafos

Os documentos tidos como não inspirados que circulavam entre a comunidade hebraica no Velho Testamento são conhecidos como pseudepígrafos. Nem tudo o que está escrito nestes livros são mentiras, porém alguns conceitos apresentados chegam a ser heréticos, pois apresentam algumas palavras com suposta autoridade divina, isso num contexto de fantasia religiosa. O Novo Testamento chega a mencionar algumas coisas destes livros. Em Jd. 14-15 está a citação de um trecho do livro de Enoque e Paulo cita a penitência de Jambres e Janes (2 Tm. 3:8). Devemos notar que o Novo Testamento cita os fatos verdadeiros deste livros, sem contudo atribuir-lhes autoridade divina. Afinal, a verdade é sempre verdade, mesmo quando dita por um : profeta pagão (Nm. 24:17), animal irracional mudo (Nm. 22:28) ou mesmo um demônio (At. 16:17)

l A natureza dos pseudepígrafos

Contém os extremos da fantasia religiosa judaica no período compreendido entre 200 a.C. e 200 d.C. Alguns são inofensivos, assim como o Salmo 151, porém outros contém erros históricos e heresias. Analisando-se superficialmente, estes livros são tomados por religiosos. Porém a não fundamentada autoridade divina e os ensinos questionáveis e heréticos algumas vezes, levaram os pais do judaísmo a considerá-los não inspirados. Abaixo segue uma pequena lista dos principais livros desta classificação (existem muito outros ainda):

Lendários
  • O livro do Jubileu
  • Epístola de Aristéias
  • O livro de Adão e Eva
  • O martírio de Isaías
Apocalípticos
  • 1 Enoque
  • Testamento dos doze patriarcas
  • O oráculo sibilino
  • Assunção de Moisés
  • 2 Enoque – ou – O livro dos segredos de Enoque
  • 2 Baruque – ou – O apocalipse siríaco de Baruque
  • 3 Baruque – ou – O apocalipse grego de Baruque
Didáticos
  • 3 Macabeus
  • 4 Macabeus
  • Pirque Abote
  • A história de Aicar
Poéticos
  • Salmos de Salomão
  • Salmo 151
Históricos
  • Fragmentos de uma obra de Sadoque

Os livros questionados por alguns – Antilegomena

A natureza dos antilegomena

Vimos na aula anterior como os 39 livros do Velho Testamento foram, de início, aceitos e reconhecidos como tendo autoridade divina pelo povo de Deus. Durante os séculos seguintes houve uma nova posição entre o povo judeu e alguns rabis resolveram pôr à prova alguns dos livros que anteriormente haviam tido sua autoridade reconhecida. Então, em vista deste livros uma vez na história tendo seu reconhecimento divino posto em dúvida, estes escritos recebem o nome de Antilegomena.

O número dos Antilegomena

Cântico dos cânticos, Ester, Provérbios, Eclesiastes e Ezequiel tiveram sua autoridade divina contestada em um ou outro tempo. Porém, no final, prevaleceu a canonicidade destes 5 livros.

è Cânticos dos cânticos – Alguns estudiosos da escola de Shammai (rabi Judeu) consideraram este livro sensual demais. Mas, para acabar com a controvérsia em torno deste livro e defender a canonicidade dele o rabi Akiva escreveu o seguinte:

“” Livre-nos Deus! Ninguém jamais em Israel criou controvérsia acerca do Cântico dos Cânticos, alegando não tornar imundas as mãos [i.e., não ser canônico];  todas as eras somadas não equivalem ao dia em que o Cântico dos Cânticos foi dado a Israel. Todos os Escritos são santos, mas o Cântico dos Cânticos é o Santo dos Santos. “”

Quaisquer que tenham sido as dúvidas em relação à canonicidade deste livro, foram mal interpretadas. A pureza sexual, no casamento, foi exaltada por Deus neste livro. Deus deu o sexo aos seres humanos, para seu prazer, desde que realizado dentro dos parâmetros bíblicos. Cânticos dos cânticos nos dá este parâmetro.

  • Eclesiastes – Sua autoridade divina foi questionada por ser demasiadamente cético. Porém assim como com Cântico dos cânticos foi dada uma interpretação errônea de seus textos. Não tem nada a ver com sua autoridade divina. Cada uma destas observações aparentemente céticas tem como objetivo mostrar  que todas essas coisas, longe de Deus, são como correr atrás do vento. Basta ver a conclusão do livro: Ec. 12:13
  • Ester – Em virtude do não aparecimento do nome de Deus neste livro, sua canonicidade foi questionada. Porém podemos perceber que, durante o desenrolar da história, a mão de Deus esteve sempre presente, guardando e protegendo seu povo, no dia a dia, em cada detalhe. Outros estudiosos ainda dizem que a omissão do nome de Deus foi proposital, para impedir o plágio de outras nações, dando crédito a outros deuses.
  • Ezequiel – Novamente alguns estudiosos da escola de Shammai acharam que o livro de Ezequiel era anti-mosaico(contra a lei de Moisés), especialmente seus dez primeiros capítulos, que tinham uma tendência para o gnosticismo. Porém, se houvesse contradições com a Torá (Lei) o mesmo não poderia ter sido canonizado. Foi então, mais uma vez, uma questão de interpretação, não de inspiração.
  • Provérbios – O fato da dúvida em Provérbios se baseou no capítulo 26, dizendo que devemos responder ao tolo, isso ia contra alguns dos outros provérbios. O que houve, mais uma vez foi o erro de interpretação, pois existem momentos onde devemos responder, e outros momentos onde devemos nos calar.

Os livros aceitos por alguns – Apócrifos

O ponto com maiores divergências no cânon do Antigo Testamento está na aceitação, ou não, dos chamados livros apócrifos. São aceitos pelos católicos romanos e rejeitados pelos protestantes e judeus. Apocrypha em grego quer dizer oculto ou difícil de entender, mas depois tomou o sentido de esotérico. Desde a época da Reforma (séc. XVI) tem sido usado para descrever os escritos não-canônicos do período inter-testamentário.

A questão é: este livros eram ocultos a fim de serem preservados, pois sua mensagem era profunda; ou porque eram de confiabilidade duvidosa.

A natureza e número dos apócrifos do Velho Testamento

Há quinze livros chamados apócrifos, e preenchem a lacuna entre Malaquias e Mateus.

Gênero do livro Versão revista padrão Versão de Douai
Didático

Sabedoria de Salomão (c. 30 a.C.)

Eclesiástico (Siraque) (c. 132 a.C.)

O livros da sabedoria

Eclesiástico

Religioso Tobias (c. 200 a.C.) Tobias
Romance Judite (c. 150 a.C.) Judite
Histórico

1 Esdras (c. 150-100 a.C.)

1 Macabeus (c. 110 a.C.)

2 Macabeus (c. 110-70 a.C.)

3 Esdras*

1 Macabeus

2 Macabeus

Profético

Baruque (c. 150-50 a.C.)

Epístola de Jeremias (c. 300-100 a.C.)

2 Esdras (c. 100 a.C.)

Baruque 1-5

Baruque 6

4 Esdras**

Lendário

Adições a Ester (140-110 a.C.)

Oração de Azarias (Séc. I ou II a.C.)

Suzana (Séc. I ou II a.C.)

Bel e o dragão (c. 100 a.C.)

Oração de Manassés (Séc. I ou II a.C.)

Ester 10:4 – 16:24

Daniel 3:24-90*

Daniel 13**

Daniel 14**

Oração de Manassés*

*Livros não aceitos como canônicos no Concílio de Trento (1546).

** Livros não relacionados no sumário de Douai por estarem juntos com outros livros.

Argumentos a favor da aceitação dos apócrifos

Os protestantes e judeus aceitam que haja algum valor religioso ou histórico, porém não atribuem a estes livros nenhum valor canônico. Os católicos desde o concílio de Trento (1546) tem aceitos estes livros como inspirados por Deus.

Œ Alusões no Novo Testamento – O Novo Testamento registra alguns fatos e pensamentos. Por exemplo, Hebreus fala de mulheres que receberam seus mortos pela ressurreição (Hb. 11:35), e faz referência a 2 Macabeus 7 e 12. Os chamados pseudepígrafos também são citados (Jd. 14-15; 2 Tm 3:8)

 Emprego que o Novo Testamento faz da versão dos Septuagintas – A versão grega da bíblia hebraica chamava-se Septuaginta. Foi realizada em Alexandria. É a versão mais citada pelo Novo testamento e pelos cristãos primitivos. A septuaginta continha os apócrifos.

Ž Os mais antigos manuscritos completos da Bíblia – Os mais antigos manuscritos da Bíblia em grego contém os livros apócrifos inseridos entre os livros do Antigo Testamento.

 A arte cristã primitiva – Alguns dos registros da arte cristã primitiva refletem o uso dos apócrifos. Algumas gravuras feitas nas catacumbas se baseavam na história registrada no período inter testamentário.

 Os primeiros pais da Igreja – Alguns pais da Igreja, especialmente os do Ocidente, usaram os livros apócrifos em seu ensino.

‘ A influência de Agostinho – Ele influenciou os concílios da Igreja em Hipo (c. 393d.C.) e Cartago (c. 397 d.C.), que relacionaram os apócrifos como canônicos. A partir daí a Igreja Ocidental passou a usá-los em seu culto público.

’ O concílio de Trento – Em 1546, o concílio católico do Pós-Reforma, realizado em Trento, proclamou os livros apócrifos como canônicos. Desde então, a Igreja Católica passou a aceitar os apócrifos como detentores de autoridade divina e espiritual.

“ Uso não-católico – As  Bíblias protestantes logo após a Reforma continham os apócrifos. A Igreja Anglicana usa regularmente os apócrifos em seus cultos públicos, e também, as igrejas ortodoxas orientais tem uso comum e freqüente deste livros.

” Pergaminhos do Mar Morto – Os livros apócrifos foram encontrados entre os rolos do Mar Morto. Alguns inclusive escritos em hebraico, o que indica terem sido usados por judeus palestinos antes da época de Jesus.

Argumentos contra a aceitação dos apócrifos

Œ A autoridade do Novo Testamento – O NT jamais cita um livro apócrifo como sendo inspirado. Assim como há algumas menções a outros escritos fora da Bíblia, não quer dizer que a simples menção de trechos destes livros lhe atribuam alguma autoridade divina. O NT cita os limites da extensão do cânon do VT, excluindo os apócrifos (Aula 7).

 A tradução Septuaginta – O verdadeiro lugar do cânon hebraico era  a Palestina, não Alexandria. O centro grego do saber não tinha autoridade para determinar com precisão quais livros pertenciam ao cânon hebraico. O fato da Septuaginta conter os livros apócrifos apenas prova que os judeus alexandrinos traduziram os demais livros religiosos judaicos, do período inter-testamentário, para o grego. Não é sequer um fato comprovado que a LXX do século I contivesse os apócrifos. Os primeiros manuscritos gregos que os incluem datam do século IV d.C.

Ž Bíblia cristã primitiva – Os mais antigos manuscritos gregos datam do séc. IV e seguem a tradição da LXX, ou seja, contém os apócrifos.  Porém, devemos ressaltar que era simplesmente uma tradução e não o cânon hebraico. O NT faz menções à LXX, porém não vemos uma única referência aos livros apócrifos. Isto apenas mostra que este slivros eram aceitos apenas por alguns cristãos e não por toda comunidade cristã da época.

 A arte cristã primitiva – Isto nunca foi, e nem será base para reconhecermos a canonicidade de algum livro.

 Os primeiros pais da Igreja – Os pais da Igreja, anteriores a Agostinho, nunca aceitaram a canonicidade destes livros.

‘ O cânon de Agostinho – Agostinho não era isento de erros. Primeiramente, Agostinho supõe que os apócrifos tenham deutorocanonicidade (segundo cânon) e não canonicidade absoluta (Cidade de Deus 18,36). Além disso, os concílios de Hipo e de Cartago foram influenciados por Agostinho e nenhum especialista hebreu esteve presente nestes concílios. Jerônimo, que era o mais qualificado especialista hebreu rejeitou fortemente os apócrifos e chegou a recusar-se a traduzir estes para a linguagem latina (Vulgata). Só traduziu os apócrifos para o latim por pressão do Bispo de Roma. Só depois de sua morte é que os apócrifos foram incluídos na tradução Vulgata Latina.

’ O concílio de Trento – Foi um concílio realizado (1545-1563) para contra-atacar a Reforma Protestante que aconteceu em 1517. Uma das medidas para combater Lutero e os reformadores foi canonizar os livros apócrifos, já que Lutero os havia rejeitado.

“ Uso não-católico – O uso dos livros apócrifos entre as igrejas protestantes e anglicanas foi desigual. Ainda que igreja não católicas façam uso dos livros apócrifos, nunca foram atribuídos aos mesmos qualquer autoridade divina.

” Pergaminhos do Mar Morto – Foram achados além dos livros, comentários e manuais e em nenhum deste comentários e manuais se atribui valor canônico aos livros apócrifos. Podemos então presumir que a comunidade da época não considerava os livros apócrifos como canônicos.

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O desenvolvimento do cânon do Antigo Testamento

O desenvolvimento do canon do antigo testamento

O desenvolvimento do cânon do Antigo Testamento

A história da canonização da Bíblia é muito fascinante. À medida que Deus ia revelando sua palavra e o Espírito santo movendo seus profetas, nenhum deles tinha em mente como seu “capítulo” iria se encaixar no plano global do Senhor. E cada um destes capítulos nos mostra o grande amor de Deus pela humanidade e o plano maravilhoso da redenção, que só poderia vir de Deus que fez e sustenta todo universo.

Algumas distinções importantes

Os três passos mais importantes no processo de canonização

Há três elementos básicos no processo de canonização: a inspiração de Deus, o reconhecimento pelo povo de Deus e a coleção dos livros inspirados. A inspiração cabia ao próprio Deus, mas os dois passos seguintes, Deus os incumbiria a seu povo.

Inspiração de Deus – Deus deu o primeiro passo na canonização da Bíblia, quando ele mesmo os inspirou. O povo de Deus não teria como reconhecer a inspiração de um livro, se Deus mesmo não tivesse dotado os 39 livros que compõem o Velho Testamento, de autoridade divina.

Reconhecimento por parte do povo de Deus – Quando Deus dotava algum livro de autoridade, seu povo o reconhecia. Este reconhecimento ocorria imediatamente pela comunidade para a qual o livro foi destinado. Os escritos de Moisés foram reconhecidos em seus dias(êx. 24:3), como também os de Josué(Js. 24:26), os de Samuel(1 Sm. 10:25) e os de Jeremias(Dn. 9:2). Este reconhecimento seria confirmado pelos crentes do Novo Testamento e também por Jesus(Aula 3).

Coleção e preservação pelo povo de Deus – O povo de Deus colecionava e guardava sua Palavra. Os escritos de Moisés foram colocados na arca(Dt. 31:26). As palavras de Samuel foram colocadas num livro e o pôs perante o Senhor(1 Sm. 10:25). A lei de Moisés foi preservada no templo nos dias de Josias(2 Rs. 23:24). Daniel tinha uma coleção da lei de Moisés e dos profetas(Dn. 9:2; 6:13). Os crentes do Novo Testamento tinham toda escritura do Velho Testamento(2 Tm. 3:16), tanto a Lei como os Profetas(Mt. 5:17).

A diferença entre os livros canônicos e outros escritos religiosos

Apesar da importância que alguns livros tinham, assim como: Livro dos justos (Js. 10:13) e o Livro das Guerras do Senhor(Nm. 21:14), nem todos os escritos eram considerados canônicos.

Os livros apócrifos, escritos após o período do Velho Testamento (c. 400 a.C.), tinham seu valor religioso definido, porém jamais foram delimitadores da fé, doutrina e conduta cristãs, diferentemente dos escritos inspirados e dotados da autoridade divina, pois têm autoridade sobre os crentes.

Nenhum artigo de fé deve basear-se num livro não-canônico, não importando o valor religioso do mesmo.

A verdade transmitida pelos livros inspirados é que constitui o fundamento das verdades da fé.


A diferença ente canonização e categorização dos livros da Bíblia

Tem havido muita confusão quanto à data dos escritos sagrados e sua canonização. A quem defenda que a canonização foi modular. Ou seja, seguindo as datas das seções do Velho Testamento:

  • Lei (c. 400 a.C.)
  • Profetas (c. 200 a.C.)
  • Escritos (c. 100 a.C.)

Porém, algumas seções, assim como os Escritos foram reagrupados diversas vezes desde que foram redigidos e foram aceitos antes mesmo dessas datas e reagrupamentos, como veremos em breve.


Compilação Progressiva dos livros do Velho Testamento

A evidência da coleção progressiva dos livros proféticos

Desde o início, os escritos proféticos eram reunidos e guardados, tidos como inspirados e autorizados por Deus.

  • As leis de Moisés foram preservadas ao lado da arca da aliança (Dt. 31:24-26) e posteriormente no templo (2Rs. 22:8)
  • Josué acrescentou suas palavras no livro da lei de Deus(Js. 24:26)
  • Samuel informou o povo sobre os deveres do rei e escreveu em um livro e o pôs diante do Senhor(1 Sm. 10:25)
  • Ezequiel nos informa que havia um registro oficial de profetas e seus escritos no templo (Ez. 13:9)
  • Daniel refere-se aos livros que continham a “Lei de Moisés” e os “Profetas” (9:2,6,11)

Esta evidência de coleção progressiva dos escritos dos profetas se confirma pelo uso dos escritos dos profetas antigos feitos pelos profetas que viriam mais tarde.

  • Os livros de Moisés são citados por todo Velho Testamento. Desde Josué (1:7) até Malaquias (4:4)
  • Os livros de Reis citam a vida de Davi conforme narrada nos livros de Samuel
  • Crônicas faz uma revisão da história de Israel desde Gênesis até Reis, incluindo o elo genealógico mencionado apenas em Rute (1Cr. 2:12-13)
  • Neemias 9 resume a história de Israel conforme registro de Gênesis a Esdras
  • Há referências aos Provérbios de Salomão e ao Cântico dos cânticos em 1 Rs. 4:32
  • O profeta Jonas recita partes de muitos Salmos (Jn 2)
  • Ezequiel menciona Jó e Daniel (Ez. 14:14-20)

Nem todos os livros são citados em livros posteriores, porém há evidências suficientes para provarmos que existia uma coleção progressiva dos escritos considerados divinos e dotados de autoridade e inspiração.

A evidência da continuidade profética

Durante a coleção dos escritos proféticos, houve uma continuidade dos eventos e profecias narradas pelos seus autores. Os cinco primeiros livros da Bíblia foram escritos por Moisés. O próximo livro é o de Josué, porém vemos que o capítulo final de Deuteronômio narra a morte de Moisés. Por não ser um escrito profético, mas sim a narração de um fato da época, entendemos que não pode ter sido Moisés quem escreveu o final do livro de Deuteronômio. Provavelmente teria sido Josué, já que foi o sucessor de Moisés. E em seu livro o primeiro capítulo continua os eventos imediatos acontecidos após a morte de Moisés.(Js. 1:1).

Juízes retoma a narrativa de onde parou o livro de Josué. Porém este registro só se completou nos dias de Samuel, como podemos observar pela frase “Naqueles dias não havia rei em Israel” (Jz. 17:6;18:1;19:1;21:25). Depois disso a continuidade profética se estabeleceu com a criação de uma escola de profetas dirigida por Samuel(1 Sm. 19:20). Desta escola sairiam vários livros que cobririam a história do povo de Israel e Judá no período dos reis e profetas. Vejamos:

  • A história de Davi foi escrita por Samuel (1 Sm.), por Natã e por Gade (1 Cr. 29:29)
  • A história de Salomão foi escrita por Natã, Aías e Ido (2 Cr. 9:29)
  • Os atos de Roboão foram escritos por Semaías e Ido (2 Cr. 12:15)
  • A história de Abias foi acrescentada pelo profeta Ido (2 Cr. 13:22)
  • A história do reinado de Josafá  foi registrada pelo profeta Jeú (2 Cr. 20:34)
  • A história do reinado de Ezequias foi registrada por Isaías (2 Cr. 32:32)
  • A história do reinando de Manassés foi registrada por profetas anônimos (2 Cr. 33:19)
  • Os demais reis também tiveram suas histórias registradas pelos profetas (2 Cr. 35:27)

Podemos perceber que os livros de Samuel, Reis e Crônicas não são idênticos aos livros mencionados acima. Nos parece que os livros do cânon do Velho Testamento são pequenos textos tirados de narrativas mais longas, como demonstra a frase “e os demais atos” do rei tal estão escritos no livro tal do profeta tal, isso demonstra claramente a sucessão profética iniciada por Samuel.

Notem que não houve menção a Jeremias, mesmo escrevendo antes e durante o exílio, ter escrito uma dessas histórias. Porém, Jeremias era um profeta, historiador e escritor, como claramente afirma em várias ocasiões: Jr. 30:2 – Jr. 36:1-2 – Jr. 45:1-2 – Jr. 51:60-63.

Podemos verificar que o último capítulo de 2 Reis corresponde aos capítulos 52, 39, 40 e 41.

Estes são indícios de que ele era responsável por ambos os livros. Mais tarde, no exílio, disse ter acesso aos livros de Moisés e dos profetas. Menciona não só Jeremias, mas também cita a predição do cativeiro no capítulo 25 (Dn. 9:2,6,11). Com base nisso é razoável supor que os resumos dos escritos proféticos tenha tomado a forma dos livros dos Reis. Desta forma, a continuidade profética a partir de Moisés, Josué e Samuel se completaria com as obras de Jeremias.

Durante o exílio, Daniel e Ezequiel continuaram o ministério profético. Ezequiel reconheceu um registro oficial de profetas nos arquivos do templo(Ez. 13:9). Ezequiel se referiu a Daniel como um “notável servo de Deus”(Ez. 14:14-20). Visto que Daniel possuía cópia dos livros de Moisés e dos profetas, dos quais o livro de Jeremias, podemos presumir razoavelmente que a comunidade judaica no exílio babilônico possuía os livros de Gênesis a Daniel.

Depois do exílio, Esdras volto da Babilônia levando consigo os livros de Moisés e dos profetas(Ed. 6:18 – Ne. 9:14,26-30). Nos livros de Crônicas sem dúvida ele registrou seu relato sacerdotal da história de Judá e do templo (Ne. 12:23). Crônicas está ligado a Esdras-Neemias pela repetição do último versículo de um, como o primeiro versículo do outro.

Com Neemias completa-se a cronologia profética. Cada profeta, desde Moisés até Neemias contribuiu para a crescente coleção de livros, que foi preservada pela comunidade dos profetas a partir de Samuel.

Até agora não existem evidências de que outros livros, houvessem alcançado canonização depois dessa época (c. 400 a.C.)

A evidência de que o cânon do Velho Testamento se concluiu com os profetas

Vimos que toda Escritura hebraica havia sido colecionada ao longo dos anos pelos profetas que Deus havia levantado.

Vimos também que houve continuidade nestes escritos. Cada novo profeta se apoiava na autoridade dos escritos do profeta anterior e juntava seus escritos aos escritos anteriores.

Na época de Neemias (c. 400 a.C.), os profetas já haviam produzido todo cânon hebraico, ou seja, os 24 livros que compõem a Bíblia hebraica.

O Novo Testamento cita praticamente todos os livros do cânon hebraico sem fazer menção a nenhum livro posterior a Malaquias.

Jesus parece colocar parâmetros no cânon do Velho Testamento, quando em Mt. 23:35 faz menção ao sangue de Abel, citando o livro de Gênesis, e mencionando o sangue de Zacarias(filho do sacerdote Joiada), citando o livro de 2 Crônicas (24:20-22), último livro do cânon hebraico.

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As características da canonicidade

A formação da Bíblia

A partir desta lição e nas próximas vamos estudar sobre o processo formação da Bíblia. Por que temos 66 livros na Bíblia, e quanto aos livros apócrifos? A canonicidade vai tratar disto.

A inspiração é meio pelo a Bíblia recebeu sua autoridade; a canonização é o processo pelo qual a Bíblia recebeu sua aceitação definitiva.

Definição de canonicidade

A palavra cânon deriva do grego kanōn (“cana, régua”), que por sua vez vem do hebraico kaneh, que significa vara de medir (Ez. 40:3). Era usada antes do cristianismo de modo mais amplo com o sentido de padrão ou norma. O Novo Testamento emprega o termo em sentido figurado referindo-se a padrão ou regra de conduta. (Gl. 6:16).

Emprego da palavra “cânon” pela Igreja Primitiva

No começo do cristianismo, a palavra cânon significava “regra” de fé ou Escrituras autorizadas. O conceito de cânon, como o conhecemos hoje, estava em desenvolvimento na época de Atanásio (c. 350 d.C.).

Temos dois sentidos para a palavra cânon:

  •  Ativo: a Bíblia é o livro pelo qual tudo mais deve ser julgado.
  • Passivo: Significava a regra que um escrito deveria ter para ser considerado inspirado ou tendo autoridade.

Alguns sinônimos de canonicidade

A existência de um cânon (ou escritos autorizados) antecede o uso da palavra cânon.

  • Escrituras Sagradas – É um dos mais antigos conceitos de cânon. Os escritos de Moisés eram guardados ao lado da Arca da Aliança (Dt. 31:24-26). Depois de o templo ter sido edificado, este escritos foram guardados em seu interior. A consideração que estes livros receberam provam que eram considerados canônicos, ou sagrados.
  • Escritos autorizados – A autoridade dos escritos de Moisés foi reforçada perante Josué e o povo de Israel (Js. 1:8). Todos os reis de Israel foram alertados a este respeito. (Dt. 17:18-19). Visto que estes livros vieram de Deus, são dotados de autoridade, logo, eram canônicos, isto é, normativos, para o israelita.
  • Livros que mancham as mãos – No ensino de Israel  havia surgido um conceito de livros tão sagrados que manchavam as mãos. Assim diz o Talmude: “Os evangelhos e livros dos hereges não mancham as mãos; os livros de Ben Sira e quaisquer outros livros que tenham sido escritos desde sua época não são canônicos”. Ao contrário, os livros do Antigo Testamento hebraico “sujam” as mãos. Assim, qualquer livro que não precisasse uma cerimônia de purificação não era considerado canônico, ou sagrado.
  • Livros proféticos – Como estudamos anteriormente (Aula 3) um livro só era considerado inspirado se tivesse sido escrito por um profeta. As obras dos falsos profetas era rejeitada. Segundo Josefo, somente os livros escritos compreendidos entre os períodos de Moisés até o rei Artaxerxes, podiam ser canônicos. Assim se expressou Josefo: “Desde Artaxerxes até nossa época tudo tem sido registrado, mas nada foi considerado digno do mesmo crédito das obras do passado, visto que a sucessão exata dos profetas cessou”. Ou seja, o que Josefo quis dizer foi que são considerados canônicos apenas os livros de Moisés até Malaquias.  O talmude faz a mesma afirmação: “Até esta altura [Séc. IV a.C. ] os profetas profetizavam mediante o Espírito Santo, a partir desta época inclinai vossos ouvidos e ouvi as palavras dos sábios”. Portanto para ser canônico, qualquer livro do Velho Testamento deveria vir de uma sucessão profética, durante o período profético.

A determinação da canonicidade

Veremos algumas considerações que nos ajudarão a esclarecer o que significa Escrituras canônicas.

Alguns conceitos deficientes sobre o que determina a canonicidade

Foram apresentadas várias opiniões e teorias sobre o que deve determinar a canonicidade de um escrito. Essas posições muitas vezes confundem as regras nas quais o crente deve se basear para descobrir se um escrito é inspirado (sentido passivo da palavra cânon), com os cânones dos Escritos que foram descobertos (sentido ativo da palavra cânon). Vamos examinar cada uma destas teorias.

A teoria de que a idade determina a canonicidade – Esta teoria está incorreta por duas razões:

  • Livros antiquíssimos, como o Livro das guerras do Senhor e o Livro dos justos (Js. 10:13 e Nm. 21:14) não foram aceitos no cânon
  • Há evidencias de que os livros canônicos foram aceitos logo após terem sido escritos, e não depois de terem envelhecido. É o caso dos livros de Moisés (Dt. 31:24-26), de Jeremias (Dn 9:2) e dos escritos do Novo Testamento produzidos por Paulo (2 Pe. 3:16).

A teoria de que a língua hebraica determina a canonicidade – Esta teoria também é insatisfatória, pois alguns livros escritos em Hebraico não foram aceitos no cânon, como é o caso dos livros apócrifos e outros documentos antigos, como visto acima. Além disso, há partes de alguns livros aceitos no cânon que foram redigidos em aramaico:

  • Daniel 2:4b;a 7:28
  • Esdras 4:8 a 6:18 e 7:12-26

A teoria de que a concordância com a Torá determina sua canonicidade – É outra visão errônea de canonicidade. É óbvio dizer que se um escrito discordava da Torá o mesmo não poderia ser considerado canônico, pois Deus não pode se contradizer em suas palavras. Esta teoria não considera duas questões muito importantes:

  • Não era a Torá que determinava a canonicidade dos escritos que lhe sucederam. Pelo contrário, o fator que determinou a canonicidade da Torá seria o mesmo que determinaria a canonicidade de qualquer escrito posterior à Torá.
  • Esta teoria é muito generalizante, pois muitos outros escritos que concordavam com a Torá não foram aceitos no Cânon. É o caso do Talmude, embora concordando em tudo com a Torá os judeus não o consideram inspirado.

A teoria de que o valor religioso determina sua canonicidade – Mais uma vez é óbvio dizer que se um livro não possui algum valor religioso não deve ser considerado canônico. Porém esta teoria faz confusão entre causa e efeito. Não é o valor de um livro que determina sua autoridade divina, mas a autoridade divina é que determina seu valor.

A canonicidade é determinada pela inspiração

Os livros da Bíblia não são valiosos por se haver descoberto nelas algum valor. Antes sim, são valiosos porque vieram de Deus. É a inspiração de Deus que concede a um livro sua autoridade. Deus revela, e seu povo reconhece o que o Senhor revelou. A canonicidade é determina por deus e descoberta pelos homens de Deus. Dizer que o povo de Deus, por meio de quaisquer regras estabelecidas pode dar canonicidade a um livro só confunde a questão. Só Deus pode dar autoridade a seus escritos. Então, com relação à Bíblia, devemos aplicar o sentido ativo da palavra cânon; ou seja, a Bíblia é a norma que governa nossa fé.

A descoberta da canonicidade

Como alguém poderia reconhecer um escrito canônico só por vê-lo? Quais são as características que diferenciam uma declaração de Deus de meros escritos humanos? Vários critérios foram adotados neste processo de reconhecimento.

Os princípios de descoberta da canonicidade

Sempre houveram falsos ensinos e escritos na vida da Igreja. Foi necessário muitas vezes que a Igreja revisse a sua coleção de livros sagrados. Até mesmo os livros aceitos por outros crentes foram posteriormente questionados. Cinco critérios são aplicados ao processo de canonicidade:

  • O livro é autorizado – afirma vir da parte de Deus?
  • É profético – foi escrito por um servo de Deus?
  • É digno de confiança – fala a verdade acerca de Deus, do homem, etc.?
  • É dinâmico – possui o poder de Deus que transforma vidas?
  • É aceito pelo povo de Deus, para o qual foi originariamente escrito – é reconhecido como vindo de Deus?

A autoridade de um livro – Como vimos em aulas anteriores(aulas 3 e 4), todos os livros trazem consigo a reivindicação de autoridade divina.

  • A expressão “Assim diz o Senhor”, está freqüentemente presente.
  • O tom e as exortações revelam a natureza divina.
  • Nos livros de ensino existe a declaração divina do que os crentes devem fazer.
  • Nos livros históricos, através do que Deus tem feito na história do seu povo, o ensino fica implícito.

Se faltasse a um livro a autoridade divina, este era considerado não canônico, não sendo, portanto, incluído no cânon sagrado.

Alguns livros não tinham a reivindicação divina, por isso foram rejeitados. Talvez fosse o caso do Livro das guerras do Senhor e o Livro dos justos.

Outros livros foram provados e questionados quanto à sua autoridade divina, mas por fim foram aceitos no cânon sagrado. É o caso de Ester. Estudando cuidadosamente o livro, viram o cuidado e proteção de Deus com seu povo.

A autoria profética de um livro – Os livros da Bíblia só foram produzidos pela atuação do Espírito Santo que moveu alguns homens, conhecidos como profetas (2 Pe. 1:20-21). Todos os escritores da Bíblia tinham um dom profético, ou uma função profética, ainda que não fossem profetas por ocupação (Hb. 1:1).  Paulo dizia aos Gálatas que suas cartas deveriam ser aceitas, pois ele era apóstolo de Cristo. Suas cartas deveriam ser aceitas, pois foi o próprio Deus quem havia revelado. Se os escritos viessem de outra pessoa que não fosse nomeado por Deus deveriam ser rejeitadas. (Gl. 1). As advertências de João se enquadram neste mesma situação, pois ele adverte que devemos julgar os espíritos, se procedem de Deus. (1 Jo. 2:18-19 e 4:1-3).

Foi por causa deste princípio que a segunda carta da apóstolo Pedro, inicialmente foi rejeitada por alguns pais da Igreja primitiva. Enquanto todos não ficaram plenamente convencidos de que se tratava ter realmente vinda do apóstolo, não foi inclusa no cânon cristão.

A confiabilidade de um livro – Outra característica da inspiração é um livro ser digno de crédito. Todo livro que contenha erros doutrinários, não pode ser um livro inspirado. Deus não pode mentir, então sua palavra deve ser, e é, a verdade, com coerência. Os crentes de Beréia, neste aspecto, foram louvados, pois eles verificavam nas escrituras (Velho Testamento) se o que o apóstolo Paulo estava ensinando era realmente verdade e estava em acordo com os escritos anteriores. (At. 17:11). O mero fato de um escrito estar em concordância com escritos anteriores não quer dizer que o mesmo seja inspirado. Porém, entrar em contradição com escritos anteriores, já quebra o vínculo da credibilidade.

Grande parte dos livros apócrifos não foi aceita no cânon por não passar pelo crivo da confiabilidade. Seus erros históricos e doutrinários fizeram com que fosse impossível aceitá-los como inspirados. Não há como um livro vir de Deus e apresentar erros.

A carta do apóstolo Tiago também passou pela dúvida inicial, pois aparentemente apresentava discordância com a salvação pela graça(justificação pela fé) apresentada por Paulo.

Outros questionaram a carta de Judas, pela menção de escritos não confiáveis. Desde que ficasse claro que Judas estava apenas citando estes livros, e não atribuindo a eles nenhuma legitimidade divina, assim como Paulo citou poetas não cristãos (At. 17:28 e Tt. 1:12) não havia razão para deixar a carta de Judas fora do cânon cristão.

A natureza dinâmica de um livro –  O quarto teste de canonicidade, às vezes um mais implícito que os demais, era a capacidade transformadora do livro. Hebreus nos diz que a palavra de Deus é viva e eficaz (Hb 4:12). O resultado é que ela pode nos ensinar, corrigir e instruir em justiça (2 Tm 3:16-17). Em outro texto o apóstolo Pedro nos diz sobre o poder de evangelização e edificação da palavra de Deus (1 Pe. 1:23; 2:2). Outros livros e mensagens foram rejeitados porque apresentavam falsas esperanças (1 Rs. 22:6-8) ou traziam alarmes falsos (2 Ts. 2:2). Desta forma, não conduziam o crente ao crescimento na verdade de Jesus Cristo. Jesus disse: “Vocês conhecerão a verdade, e a verdade os libertará.” (Jo. 8:32). O falso ensino jamais liberta.

Alguns livros da Bíblia, como o Cântico dos cânticos e Eclesiastes, foram questionados por alguns estudiosos os julgarem isentos deste poder dinâmico. Então se convenceram que Eclesiastes não é um livro cético ou pessimista, mas positivo e edificante (12:9-10) e Cântico dos cânticos não era sensual, mas também profundamente espiritual que mostra o verdadeiro amor que é criação de Deus.

A aceitação de um livro – A marca final da inspiração divina era a aceitação pela comunidade da Igreja. A palavra de Deus transmitida deve ser reconhecida pelo seu povo. Como o sistema de transportes e comunicações na época da Igreja Primitiva era muito lento, demorou-se muitos anos para a determinação da canonicidade. Os livros de Moisés foram imediatamente aceitos pelo povo de Deus (aula 3). Foram citados, copiados, preservados e até mesmo impostos para as novas gerações. As cartas de Paulo foram imediatamente recebidas pelas igrejas às quais foram destinadas (1Ts. 2:13) e até pelos demais apóstolos (2 Pe. 3:16). Alguns escritos foram imediatamente rejeitados  pelo povo de Deus, por não apresentarem a autoridade divina (2 Ts. 2:2). Os falsos profetas deveriam ser testados e rejeitados (1 Jo. 4:1-3).

Este principio levou alguns estudiosos a questionar certos livros da Bíblia, como 2 e 3 João. São de natureza particular e circulação restrita, então houve certa relutância em aceitá-los, até que todos tivessem absoluta certeza de que tais livros haviam sido recebidos pelo povo de Deus do século I como cartas do apóstolo João.

Haviam pessoas que não reconheciam , muitas vezes, um profeta como vindo da parte de Deus. Neste caso, Deus mesmo vinha em favor de seus servos, confirmando sua vocação. Foi o caso de Elias, o caso de Moisés.

O papel do povo de Deus foi decisivo para a criação do cânon cristão. Deus mesmo deu autoridade sobre todos os seus escritos, porém o povo de Deus também havia sido chamado para a tarefa de descobrir quais eram os livros dotados da autoridade divina e quais eram falsos.

O procedimento para a descoberta da canonicidade

No processo de descoberta da canonicidade dos livros da Bíblia, não devemos imaginar os pais da Igreja andando pelos corredores com pilhas e pilhas de documentos ou debruçados sobre mesas ao longo do dia e da noite. O processo foi muito natural e dinâmico. Veremos mais tarde a história real de como aconteceu a descoberta dos livros inspirados por Deus. O objetivo nesta aula é avaliar como estas cinco regras foram usadas no processo de canonização.

Alguns princípios estão apenas implícitos no processo – Nem todos os cinco elementos estavam presentes na determinação da autoridade (ou não) de um livro. Nem sempre parecia óbvio à Igreja que um livro fosse “dinâmico” e “autorizado”, porém poderiam ser considerados “profético” e “aceito”. No entanto, poderia acontecer ao contrário, talvez sua autoria não fosse conhecida (ex. Hebreus), porém, o poder e a autoridade saltavam aos olhos. De qualquer maneira, durante todo o processo, os cinco elementos se faziam presentes em todos os livros que foram aceitos no cânon cristão, mesmo que alguns estivessem aplicados de modo implícito.

Alguns princípios atuavam de modo negativo no processo – Algumas regras utilizadas no processo de descoberta da canonicidade atuavam de modo mais negativo que outras.

Por exemplo, o principio da confiabilidade eliminava mais rapidamente os escritos não-canônicos, porém não tinham a mesma rapidez para determinar os canônicos. Não existem falsos ensinos que sejam canônicos, porém existem escritos que falam a verdade mas não são de modo alguns inspirados.

De igual modo, existem livros apócrifos que clamam por serem inspirados, mas nenhum livro pode ser canônico se não for revestido da autoridade de Deus.

O principio da aceitação é principalmente negativa. Nem sempre quando um livro recebe aceitação significa que o mesmo seja inspirado. Mais uma vez temos o exemplo dos livros apócrifos; muitos anos depois da aceitação dos livros inspirados, algumas pessoas mal-informadas, atribuíram reconhecimento temporal a estes escritos. O simples fato de algum escrito ter sido aceito em algum lugar, não dá autoridade divina a este escrito. A aceitação inicial dos cristãos do século I tem fundamental importância para testar a autoridade divina de um livro. Ou seja, a aceitação posterior por parte de outros cristãos era importante, mas funcionava apenas como apoio adicional e não como fator fundamental.

O princípio realmente essencial substitui todos os demais princípios – Na base de todo processo de canonização está o princípio da natureza profética do livro. Se um livro foi escrito por um profeta honrado e prestigiado de Deus, nem há a necessidade de formular as demais perguntas. Porém, quando não havia confirmação direta da vocação desta profeta, e nem sempre havia mesmo (Ex. 4:1-9), então a confiabilidade, a dinâmica do livro e sua aceitação pelo povo de Deus seria elemento essencial para determinação de sua inspiração divina. Nenhum livro de Deus pode ser falso, desta forma os outros quatro princípios se aplicam para conferir o caráter profético dos livros da cânon.

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Evidências da inspiração da Bíblia

A inspiração da Bíblia

A inspiração da Bíblia

Os cristãos ao longo dos séculos têm sido desafiados a provar sua fé, apresentar as razões em defesa desta fé. (1 Pe. 3:15). Vamos então estudar as evidências da inspiração da Bíblia e o  apoio à doutrina bíblica da inspiração.

Resumo da reivindicação a favor da inspiração da Bíblia

Explicação bíblica da inspiração

Não devemos confundir a inspiração da Bíblia com a inspiração poética. A inspiração da Bíblia diz respeito à autoridade dada por Deus para a Bíblia.

A palavra que usamos para descrever inspiração significa “soprado por Deus”. É o processo no qual as Escrituras foram revestidas com a autoridade de Deus (2 Tm. 3:16-17).

A inspiração, como processo total, é o fenômeno sobrenatural, no qual homens movidos pelo Espírito Santo registraram mensagens sopradas por Deus.

Existem três elementos neste processo total de inspiração (Aulas 1 e 2):

  • Causa divina – Deus teve desejo de se comunicar com o homem.
  • Mediação profética – Homens movidos pelo espírito Santo registraram essa mensagem vinda de Deus.
  • Autoridade resultante que reveste o documento – A mensagem profética escrita foi revestida de autoridade, vinda de Deus.

A primeira característica da inspiração, por ela ser escrita, é uma inspiração verbal. Os profetas não foram simples robôs usados por Deus, mas cada um, no seu estilo, registrou as palavras dirigidos pelo Espírito Santo.

Outra característica da inspiração é a totalidade desta inspiração, ou seja, a inspiração é plenária, nenhum trecho foge à inspiração divina.

Além disso a inspiração é inerrante, tudo quanto Deus disse é verdadeiro e isento de erros.

A reivindicação da Bíblia quanto à sua inspiração

Não são os cristãos que atribuem à Bíblia inspiração divina, mas sim a própria Bíblia atribui a si mesma esta inspiração (Aulas 3 e 4) .

A reivindicação da inspiração do Antigo Testamento – O Velho Testamento afirma ser um documento com mensagem profética. As profecias que vinham de Deus, foram guardadas nas Escrituras e posteriormente cumpridas. A expressão “Assim diz o Senhor” enche suas páginas. Jesus e os autores do Novo Testamento, atestaram com toda a força e convicção a certeza da inspiração divina do Velho Testamento.

A reivindicação da inspiração do Novo Testamento – Os escritos apostólicos, foram citados, da mesma forma que o Antigo Testamento, sendo divinamente inspirados. Cada livro do Novo Testamento reivindica inspiração divina. Cada escritor do Novo Testamento faz referência aos escritos de outros autores como sendo inspirados. A Igreja Primitiva copiava e guardava estes escritos apostólicos juntamente com o Velho Testamento. Os pais da Igreja Primitiva, os quais eram sábios, mestres ou professores, atestaram a inspiração divina destes escritos. Podemos verificar que desde a fundação da Igreja a Bíblia tem sido reconhecida como a mensagem de Deus para os homens.

Apoio à reivindicação bíblica de inspiração

Durante os séculos os cristãos têm tido duas posturas quanto à inspiração bíblica:

  • Alguns transformaram o cristianismo num sistema totalmente racional
  • Outros afirmam crer justamente por ser “absurdo”

Porém os verdadeiros apologistas (defensores da fé) cristãos têm dado “a razão da esperança que há neles”. (1 Pe. 3:15)

Abaixo estudaremos uma síntese das evidências da doutrina da inspiração.

Evidência interna da inspiração da Bíblia

Há dois tipos de evidências que devemos levar em conta no que diz respeito à inspiração da Bíblia:

  • A que existe dentro da própria Bíblia (Interna).
  • A que surge fora da Bíblia (Externa).

A evidência da autoridade que se auto confirma – A Bíblia diz que  Jesus ensinava com autoridade(Mc. 1:22) e de modo semelhante a expressão contida no Velho Testamento “Assim diz o Senhor”, fala por si mesma. As palavras da Bíblia não precisam ser defendidas, precisam apenas ser ouvidas. Podemos comparar com um leão: a melhor maneira de o leão provar sua autoridade é solta-lo da jaula onde está. Da mesma maneira, a Bíblia. Seus ensinos precisam apenas ser expostos, pois a Bíblia fala por si mesma.

A evidência do testemunho do Espírito Santo – Está intimamente relacionada com a autoridade da própria Bíblia.  A Palavra de Deus se confirma na vida do crente pelo Espírito Santo. O mesmo Espirito Santo que moveu homens a registrar as palavras de Deus é o mesmo que nos ilumina a entender a Bíblia. (1 Co. 2:14), é o mesmo Espírito Santo que afirma que a Bíblia é a Palavra de Deus (2 Pe. 1:20-21). Desta forma a Bíblia recebe confirmação do Espírito Santo.

A evidência da capacidade transformadora da Bíblia – Outra evidência interna é a capacidade que a Bíblia tem de edificar, exortar, corrigir e mudar a vida de quem a lê. Assim diz Hebreus : “A Palavra de Deus é viva e eficaz mais penetrante do espada alguma de dois gumes…” (4:12). Muitos têm sido curados pela Palavra. A evidência de que Deus deu autoridade à Bíblia está em seu poder edificante e evangelístico.

A evidência da unidade da Bíblia – A Bíblia foi escrita ao longo de 1500 anos, por cerca de 40 autores. É constituída de 66 livros, escritos em diversas línguas. Não pode ser mero acidente que, dado este contexto, a Bíblia apresenta o mesmo assunto: Jesus Cristo. A Bíblia afirma que existe um problema: o pecado, e uma solução: Jesus Cristo. Este único assunto unifica toda a Bíblia do Gênesis ao Apocalipse. Seria impossível que alguém tramasse um plano para escrever um livro desta natureza, pois seria como se vários autores escrevessem um capítulo da novela, sem ao menos saber o enredo todo, e no final os capítulos escritos por todos estes autores fizessem algum sentido na mesma estória! O fato da Bíblia ter sido escrita por homens não invalida a autoridade divina e a inspiração a ela atribuída.

Evidência externa da inspiração da Bíblia

A evidência interna se baseia unicamente na experiência do crente, pois alguém que está fora do cristianismo não pode sentir o testemunho do Espírito Santo, ou ouvir a voz de Deus, exceto claro, pela última evidência, que é palpável a todos que examinam a Palavra. ë neste ponto que entra a evidência externa, pois funciona como sinais que conduzem ao “interior” da verdadeira vida cristã.

A evidência baseada na historicidade da Bíblia – Grande parte do conteúdo da Bíblia é história, e por isso mesmo pode ser comprovado. Nos últimos tempos os arqueólogos têm descoberto milhares de objetos que datam dos tempos do Velho Testamento, e nenhuma destas descobertas invalidou quaisquer relatos ou ensinos bíblicos. É bem verdade que nenhuma destas descobertas históricas representam evidência direta de alguma afirmação espiritual feita pela Bíblia. Porém, sua historicidade confere credibilidade às suas declarações e ensinos. Assim como disse Jesus: “Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais?” (Jo. 3:12).

A evidência do testemunho de Cristo – O testemunho de Cristo está relacionado à historicidade dos documentos do Novo Testamento. Estes documentos nos fornecem todo ensino de Cristo, que tinha autoridade para isso. Como já foi provado que Jesus realmente existiu, e um de seus ensinos foi a autoridade e inspiração divinas, logo concluímos que realmente, pelo testemunho de Cristo, a Bíblia é realmente inspirada por Deus. Se alguém realmente achar que isto é falso deverá provar que Jesus não existiu e que Jesus não tinha autoridade.

A evidência da Profecia – Outro testemunho externo de grande força são as profecias cumpridas que a Bíblia registra. Algumas feitas centenas de anos antes de se cumprirem, se concretizaram literalmente. A época do nascimento e morte de Jesus (Dn. 9:25-26). Outras profecias como a da explosão da comunicação e conhecimento (Dn 12:4), a da repatriação de Israel e repovoamento da Palestina (Is. 61:4), estão sendo cumpridas em nossos dias.

A evidência da influência da Bíblia – Nenhum outro livro no mundo, em qualquer que seja a época tem sido mais traduzido. Nenhum outro livro tem exercido tamanha influência sobre o curso dos acontecimentos. Tem influenciado governos, pessoas, entidades, pensamentos. Nenhum outro livro foi, e é objeto de tantos estudos e descobertas. É o livro mais vendido de todos os tempos. Na verdade, nenhuma outra obra religiosa exerce o papel moral que a Bíblia desempenha e nenhuma outra obra apresenta um conceito tão majestoso de Deus e de seu amor.

A evidência da indestrutibilidade da Bíblia – Mesmo com toda a sua influência e importância, ou então por causa disso, a Bíblia tem sido muito atacada em todos os tempos. O imperador Diocleciano tentou destruí-la, porém hoje é o livro mais impresso e vendido do mundo. Ainda hoje historiadores, psicólogos, humanistas têm tentado desautoriza-la, contradizê-la, mas a Bíblia permanece indestrutível. Na idade média era comum queimar Bíblias para que o povo comum não a lesse, mas como comprovamos de nada adiantaram e de nada adiantarão as tentativas para fazer calar o livro vivo, a Palavra de Deus. “Passarão céus e terra, mas as minhas palavras jamais passarão” (Mc. 13:31)

A evidência vinda da integridade de seus autores humanos – Não existem razões sólidas para não considerarmos os escritores da Bíblia dignos de crédito. Uma vez que eles morreram por causa da fé que abraçaram, morreram acreditando no que haviam escrito, pois tinham dito ter recebido do próprio Deus. Como fazer para não acreditar que mais de quinhentas pessoas haviam visto a Jesus ressurreto que reivindicam a autoridade divina da Bíblia? (1 Co. 15:6). Se alguém crer que estavam todos intoxicados ou padecendo de algum surto psicótico isso viola a própria credulidade e lógica humana. O fato é que eram todos sadios, de reconhecida integridade moral e reivindicam a inspiração divina da Bíblia, não há motivos para não darmos crédito a eles. Isto constitui uma importante evidência da autoridade e inspiração divina da Bíblia.

Estes argumentos podem satisfazer um incrédulo? Estes argumentos são infalíveis? Não claro que não. Pois até um filósofo amador poderia contra argumentar diante destes fatos.

O leitor deve tomar sua decisão. E para aqueles que têm a tendência à indecisão, fica o lembrete do apóstolo Pedro a todos nós : “Senhor, para quem iremos nós? Só tu tens as palavras de vida eterna” (Jo. 6:68). Agora se não crermos que a Bíblia é mesmo inspirada por Deus, a quem nos dirigiremos? É nela que encontramos as palavras de vida eterna.

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