O testemunho e a beligerância cristã

Testemunho

O testemunho e a beligerância cristã

Testemunhar é ser martirizado. Sim, a raiz do verbo testemunhar vem do termo martírio em grego. À medida que a maioria dos primeiros cristãos sofria retaliações da sociedade, o termo martírio passou a designar a morte em razão do testemunho de Cristo. O cristão foi chamado para ser um mártir. Portanto, testemunhar era ser martirizado.

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O desespero humano e a possibilidade de salvação

desespero

O desespero humano e a possibilidade de salvação

1. Introdução

A individualidade, para Kierkegaard é uma ousadia, em virtude do esforço e da raridade com que são projetadas diante de Deus. A relação do homem consigo mesmo, em sua realidade pessoal, é dominada pelo desespero em razão da condição na qual ele se encontra ao cruzar com uma possibilidade seguida de outra sem permanecer, de fato, em nenhuma delas. É por esta razão que Kierkegaard compara o desespero com uma doença1.

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O lugar do homem na Criação

antropologia na criação

O lugar do homem na criação

1. Introdução

A angústia da existência humana é uma questão que ultrapassa o sentido da dignidade e do utilitarismo que o homem tem de si mesmo. O lema << conheça-te a ti mesmo >> mantem-se como um desafio e um problema durante o desenrolar da história da humanidade e ainda suscita a busca por uma solução especialmente para a corrente filosófica existencialista.

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A função e o dom pastoral

A função e o dom pastoral
A função e o dom pastoral

*Discurso apresentado na ocasião da formatura da Turma 2012 de Bacharel em Teologia da Faculdade Teológica Batista de São Paulo

A função e o dom pastoral

UFA! Depois de quatro curtos anos, terminamos o início de nossa jornada teológica. Sim, a maioria de nós achou que quatro anos demorariam uma eternidade; mas não foi isso que aconteceu, não é mesmo?

Entramos achando que sabíamos muita coisa, e saímos com a certeza de que há muito a se aprender ainda. Neste tempo na Faculdade Teológica Batista de São Paulo deram-nos um GPS teológico e nos ensinaram a mexer nele. Aprendemos alguns comandos, aprendemos algumas rotas; mas, a partir de agora, caberá a cada um de nós, com a ajuda de Deus, descobrir outros recursos para traçar nosso caminho.

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A vida cristã e as falsas promessas

A vida cristã e as falsas promessas
A vida cristã e as falsas promessas

A vida cristã e as falsas promessas

Promessas. Vivemos num mundo que perdeu a consideração pela palavra falada. Se te prometeram alguma coisa, que foi não foi registrado por escrito, isto não tem o menor valor para nossa sociedade. Entretanto, nem sempre foi assim, mas houve um tempo no qual as palavras faladas tinham peso, e alguém poderia morrer caso não cumprisse o prometido.

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A vida cristã e a sede pelo poder

A vida cristã e a sede pelo poder
A vida cristã e a sede pelo poder

A vida cristã e a sede pelo poder

O ser humano deseja o poder. Sua vontade de dominação sobre o próximo pode ser vista desde a infância, quando um irmão tenta manipular o outro. Este comportamento pode ser observado nas empresas, onde, por meio dos trâmites corporativos, as pessoas querem que seu próximo se submeta aos seus caprichos. A noção de equipe perde facilmente para este primitivo instinto humano. Para alcançar este objetivo, inúmeras estruturas e processos sociais foram criados. Em todas as instituições sociais existem mecanismos que preveem a manipulação do próximo para subjugá-lo à dominação daqueles que estão no topo da hierarquia. A Igreja não é uma exceção a esta regra.

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A vida cristã e a tirania das metas

A Vida Cristã e a tirania das Metas
A Vida Cristã e a tirania das Metas

A vida cristã e a tirania das metas

Metas, objetivos e alvos numéricos, quem está livre deles hoje? Vivemos em uma sociedade massacrada pelos números. Em sua empresa você está moralmente obrigado a produzir cada vez mais sob risco de demissão caso falhe no cumprimento de suas metas. Na escola ou na faculdade seus professores exigem uma quantidade mínima de leitura e produção acadêmica, além da tirania dos ponteiros da balança que insistem em jogar na sua cara que você não está cumprindo a meta do peso ideal. Os números te sufocam. Os números te acusam insolentemente.

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Não coloque o SENHOR teu Deus em uma armadilha

Armadilha

Calma! Eu sei que Deus não pode cair em uma armadilha, ao menos em uma como a da figura acima. Mas, por incrível que pareça, Jesus adverte contra esta prática.

Não sou favorável à técnica de ficar desfilando palavras em grego e hebraico seja em pregações ou textos, exceto os acadêmicos claro; mas um texto em especial me chamou a atenção, e creio que o estudo correto de um termo grego neste texto nos ajudará a compreender melhor a verdade revelada por Deus em sua palavra.

O texto se encontra em Mateus 4:1-11, o conhecidíssimo texto sobre a tentação de Jesus.

Vamos nos deter um pouco no verso 7, onde Jesus dá uma dura no diabo dizendo que ele não deveria tentar a Deus. Pois bem, em português temos o mesmo termo apontando para tentar a Deus e a própria tentação de Jesus, mas, um exame um pouco mais detalhado deste trecho no original, nos permitirá um novo olhar sobre este texto.

O termo comum para tentação em grego é peirazo, que significa uma prova, um teste. Ou seja, Jesus estava passando por um teste. Entretanto, quando Jesus diz para o diabo não tentar a Deus ele não usa o termo peirazo, mas sim a palavra ekpeirazo, que significa não colocar em uma armadilha.

Antes de continuar no estudo deste texto, permita-me, caro leitor, mudar rapidamente de assunto. Recentemente eu vi a notícia que determinado grupo religioso vendia um martelo por R$ 1000,00 e prometia esmagar todos os problemas da vida de quem comprasse o tal produto.

Voltando ao embate Jesus versus diabo, vemos que ele pretendia que Jesus aplicasse um grande golpe publicitário. Ou seja, estando em Jerusalém, no principal ponto da cidade, e no lugar mais alto, todos veriam Jesus pulando lá de cima, enquanto os anjos viriam em seu socorro. BINGO! Seria aclamado na hora como uma espécie de “Jesus super star“.

Sabemos que este não era o plano de Deus, e Jesus responde ao diabo dizendo que ele não deveria por Deus em uma armadilha, ou seja, obrigar Deus a fazer algo que não estava  nos planos originais.

Muito bem! Toda vez que alguém diz que determinado objeto, tal como um martelo ou toalha, pode resolver seus problemas em nome de Deus, ou marca um dia e horário específico para realizar curas e milagres, está pondo Deus em uma armadilha, pois, pode ser que nos planos originais de Deus, esta cura ou milagre não aconteça. Toda vez que alguém faz isso, e ainda se aproveita deste momento para fazer algum tipo de publicidade, se iguala do diabo, conforme lemos no trecho mencionado acima.

Ah sim, eu ia me esquecendo! O termo tentador, usado neste texto de Mateus, significa literalmente aquele que corrompe. Logo podemos dizer que todo aquele que faz este tipo de coisa é um verdadeiro diabo, pois além de colocar Deus numa armadilha, ainda corrompe a fé das pessoas desesperadas por uma solução instantânea dos seus problemas.

Pecar ou não pecar?

A situação

Um erro bastante comum, ao examinarmos os textos bíblicos, é desconsiderarmos a data e o propósito para o qual cada livro ou carta da Bíblia foi escrita, e para irmos um pouco além, para quem foi escrita.

Muitos erros doutrinários, e por consequência, de comportamento cristão, poderiam ser evitados se não usássemos os textos bíblicos para nos auto-desculparmos dos pecados cometidos.

Um exemplo clássico é o uso da carta aos romanos, de Paulo, para provar a nós mesmos que somos reprováveis diante de Deus, e apenas a justiça divina aplicada em Jesus nos livra da justa ira de Deus. Mesmo Paulo escrevendo que não devemos viver no pecado, nós os que já morremos para ele, encontramos grande parcela da população cristã vivendo na “liberdade da graça“.

Como ninguém é de ferro, e todos continuam pecando, utiliza-se o texto da primeira carta do apóstolo João para remir-se de seus pecados, afinal ele (Deus) é fiel e justo para nos purificar, certo?

Logo, temos duas partes de um mesmo problema: romanos nos informa de nossa miserável condição pecaminosa, e João nos apresenta uma “solução rápida” a este problema.

Agora, como a história e propósito das cartas nos ajudam a viver uma vida cristã mais consciente?

Toda carta do NT foi escrita com um propósito situacional. Ou seja, todas as cartas foram escritas pois surgiram nas igrejas, e/ou regiões, problemas que estavam ameaçando de alguma maneira a unidade cristã no primeiro século.

Com isto em mente, poderemos tirar os ensinamentos corretos para a igreja de hoje.

Romanos

Tirando toda a parte do “tratado teológico” da carta aos romanos, Paulo escreve a estes irmãos por causa também da tensão que existia entre os judeus e gentios naquela igreja. Paulo não fundara esta igreja, e desejava muito conhecê-los, até mesmo para trocar experiências cristãs com aqueles irmãos, conforme vemos no início da carta.

Porém, devemos ter em mente que a localidade onde esta igreja estava inserida não era das mais éticas (pressuposto cristão) e familiares do mundo conhecido de então.

Sabendo da tensão entre os irmãos gentios e judeus, e também do baixo padrão moral da sociedade, Paulo exorta estes irmãos a não viverem uma vida de pecados.

Não era só por que viviam debaixo da graça, e não debaixo da lei, que eles deveriam viver na prática do pecado para que, de alguma forma, a graça de Deus se sobrepusesse ao pecado.

Paulo foi muito enfático quando disse que “DE FORMA NENHUMA” deveriam viver em pecado. E não apresentou nenhuma “fórmula mágica” de perdão de pecados. Nos disse sim, que nada poderia nos separar do amor de Cristo. Mas sua ênfase em não pecar persiste por toda a carta, que aliás é uma espécie de pré-requesito para tudo o que escreve depois.

I João

O contexto histórico da primeira carta de João é bem diferente.

Em primeiro lugar, era fim do século I. Todos estavam na espectativa do anti-cristo. As perseguições imperiais estavam a todo vapor, e os cristãos estavam com muito medo.

Para fechar com chave de ouro este período, onde a fé dos santos foi altamente provada, começaram a surgir inúmeras heresias a respeito de Jesus Cristo.

Pois bem, junte a isto o fato de que quase nenhuma igreja tinha o que conhecemos hoje por Bíblia, e por consequência, algumas doutrinas ainda não estavam fechadas ou definidas.

João escreve para um grupo de cristãos com medo, sendo atacados por todos os lados, interna e externamente. Logo, alguns começaram a questionar sua própria salvação, ou ainda, começaram questionar a perda de sua salvação.

O apóstolo do amor, dirigido por Deus, escreve a estes irmãos tranquilizando-os de que eles estavam salvos, se realmente cressem na Palavra da Vida, e por causa das heresias, ele escreve que não há ninguém que não peque, mas, se pecassem, Deus poderia purificá-los. Ou seja, um contexto totalmente diferente que temos da carta aos romanos.

Conclusão

Logo, de forma nenhuma podemos continuar na prática do pecado, já que somos pecadores e Deus nos perdoa, pois estamos na graça, e depois do pecado praticado, chegarmos diante de Deus com a cara lavada pedindo perdão, pois ele é fiel e justo.

Somos santos lutando contra o pecado, ou seja, o pecado em nossa vida é como um acidente, e ninguém vive se acidentando a todo minuto.

O que nos falta na igreja hoje é uma consciência da santidade de Deus, a mesma da qual nos fala o AT no pentateuco.

Sinto que falta, por vezes, um pouco de coragem da liderança eclesiástica de confrontar o pecado como a Bíblia ordena. Assim como Paulo fez com os romanos e coríntios, não se intimidou ou melindrou, mas nomeou os pecados e tratou de forma dura, como de fato deve ser tratado.

Não vejo na Bíblia nenhuma apologia ao “politicamente correto” no tratamento do pecado

Que o Senhor nos ajude a manter a santidade em mundo corrompido.

Desconstruindo as estruturas, edificando comunidades

Nos dias atuais, para aqueles olhares mais atentos, cresce a inquietação quanto à prática e razão de ser da Igreja de Cristo. Sim, parece estranho dizer Igreja de Cristo, mas creio ser necessária esta distinção.

Para estas Igrejas, que sentem a necessidade de se tornarem relevantes no mundo, o foco em uma Igreja orientada ao serviço cristão, e não a eventos, tem gerado discussões acaloradas aqui e acolá.

A intenção deste artigo é justamente discutir a diferença de uma igreja orientada ao serviço cristão, abudante em toda a Bíblia, e orientada a eventos.

Em uma igreja orientada a eventos, a estrutura é parte primordial. Sem uma estrutura adequada esta igreja não tem como suprir seu calendário de atividades. Alguns itens, tais como: iluminação, salas, projetores, som e mão de obra são imprescindíveis. Aqui começa o problema deste modelo de igreja, pois, em nome de “fazer a obra de Jesus“, muitos irmãos acabam se estressando com outros por causa destes itens citados acima. Creio, que você que lê este artigo, ainda tem fresca, em sua memória, a última briga que teve com o “irmão do som”. Nem entraremos em profundidade nas brigas geradas por conta do atropelo nos ensaios.

Esta é a igreja orientada a eventos. A infra-estrutura, que tem por função nos servir, acaba nos escravizando, e a briga sobra para o “departamento do patrimônio”. Mais brigas à frente!

Mas, diriam alguns, a estrutura é importante! Afinal como faríamos nossos congressos, cantatas, peças teatrais, programas especiais…?

E de repente, lendo despretenciosamente nossa regra de fé e prática, não conseguimos achar nem um único exemplo de igreja fazendo qualquer um dos exemplos acima.

Quando foi a última vez que houve em sua igreja um evento de entrega de roupas aos desabrigados, e um evento de entrega de alimento aos famintos? Toda a igreja se envolve nestes eventos com a mesma energia com que se envolve em uma cantata? O número de participantes é equivalente? Todos se sentem motivados a participar destes eventos com a mesma entrega de tempo com que organizam um congresso?

Para estes tipos de eventos (ou serviço cristão ?) não é necessária uma mega estrutura de som, palco, iluminação, projeção, divulgação, mas apenas a boa vontade e o amor ao próximo.

Os eventos em nossas igrejas hoje apenas nos cansam, tiram nosso foco daquilo que é o essencial, daquilo que é a razão de ser de uma Igreja: servir ao próximo. Não creio que servir ao próximo seja organizar um bom congresso, ou fazer a melhor cantata. Se for apenas isso qual a diferença entre Igreja e teatro? Ah sim, na igreja se fala de Cristo, claro! Se fala, mas será que se vive Cristo?

Será que nosso mestre estaria preocupado em organizar eventos?

Sempre que a oferta e dízimo de uma igreja é usada em prol da estrutura estamos inconscientemente dizendo que o templo, o som, os equipamentos são mais importantes do que as pessoas. Quanto das ofertas de sua igreja é usada para suprir a infra-estrutura? Quanto dela é destinada aos pobres e necessitados? Percebem agora o quão longe estamos do modelo que Jesus propôs de comunidade?

Vejamos alguns versículos que nos desafiam a uma mudança de paradigmas urgente no modo como vivemos igreja.

Tiago 1:27 A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo.

Aqui, além do testemunho pessoal, o serviço é parte integrante da vida cristã.

Mateus 25:34-40 … então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me. Então, perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar? O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.

Segundo o texto acima, o que Jesus vai cobrar de nós? Não vejo menções a eventos, mas sim a serviços.

Logo concluímos que Jesus queria formar uma comunidade, onde todos fossem iguais, sem necessitados, e não uma empresa produtora de eventos, na qual nossas igrejas se tornaram.

Está mais do que evidente que uma igreja orientada ao serviço cristão é o modelo bíblico que nos foi proposto. Porém, conseguimos transformar a vida cristã em um modelo de atingimento de metas (bem ao estilo americano).

Desconstruindo estas estruturas, que só nos atrapalham, e vivendo o cristianismo de serviço, vamos criar um ambiente de comunidade, onde todos se ajudam e, desta forma, acabaremos com a Instituição Igreja, que nunca foi o plano de Cristo para nós.