Alexandre Milhoranza Teologia com qualidade e vida | Estudos teológicos no Antigo Testamento e Novo Testamento

Josué – Com o pé na promessa – Análise preliminar

Publicado em Estudos no Antigo Testamento no dia 17 de janeiro de 2011

Introdução

Após 40 anos vagando no deserto os descendentes de Abraão finalmente chegam à terra que Javé prometera. O que Deus havia dito a Abraão no capítulo 15 de Gênesis se cumprira na íntegra!

Aqui começa outra divisão didática da Bíblia Ocidental: os livros históricos. Digo Bíblia Ocidental, pois as divisões na Bíblia hebraica, embora tendo o mesmo conteúdo, são diferentes.

O livro acertadamente recebe o nome de Josué, personagem principal da conquista de Canaã, reconhecidamente um general brilhante nas batalhas, mesmo pelos historiadores mais criteriosos. Porém, devemos entender que o livro não trata sobre os feitos de Josué, mas sim dos atos de Javé no cumprimento de sua promessa ao povo hebreu, conforme Gênesis 12.

Breve tratado sobre a interpretação de livros históricos

O livro de Josué, da mesma maneira que mais de 40% dos livros da Bíblia, é formado de narrativas. Logo, para podemos tirar algum proveito prático deste tipo de literatura bíblica é necessário relembrar alguns conceitos sobre a interpretação de narrativas bíblicas.

Como foi dito anteriormente os livros históricos tratam dos fatos que ocorreram, e o propósito primordial dessas narrativas é nos mostrar como Deus dirigiu a história de forma a cumprir seus desígnios. Ou seja, estas narrativas nos mostram Deus agindo em sua criação, no meio e por meio do seu povo escolhido.

Devemos ter em mente o plano universal de Deus em sua criação, e como este plano se desenrola na chamada teologia da aliança, que foi estabelecida com Noé, Abraão, Moisés e Davi. A partir daí temos os níveis menores de narrativa, onde os episódios narrados em Josué se encontram.

Ao ler as histórias narradas em Josué, tendo estes conceitos em mente, nossa leitura se torna mais madura, e não vamos correr o perigo de alegorizar cada uma das histórias para se encaixar em nossas fantasias pós modernas.

Os detalhes para interpretação das narrativas do AT estão aqui.

Contexto histórico

Em primeiro lugar, não é propósito deste artigo demonstrar as provas da historicidade do livro de Josué. O intuito deste artigo é estudar a teologia por trás dos acontecimentos narrados no livro, e como isso afeta nossa compreensão sobre Javé e sua soberania na história.

Para o nosso estudo neste artigo, tomaremos por base o século 14 a.C., data que a maioria dos estudiosos mais conservadores adotam.

Neste período havia uma lacuna de poder na região da Palestina. Ou seja, nenhum dos 3 impérios de maior expressão havia imposto seu domínio. Nem os egípcios, hititas ou o império Mitani-Hurriano havia conseguido a hegemonia da região, logo o momento estava propício à tomada da terra pelo povo hebreu, pois não havia uma coalisão suficientemente forte para detê-los.

Contexto sócio-religioso

A estrutura social era formada por uma minoria de nobres cananeus que exploravam uma imensa maioria de pobres. Devido a isto os gibeonitas, por exemplo, preferem fazer um acordo com os novos invasores a se manter no jugo exploratório no qual se encontravam.

A cena religiosa era muito variada, mas se baseava em dois conceitos:

  • as forças da natureza eram vistas como expressões dos deuses
  • a prosperidade e o bem-estar dependiam dos rituais apropriados para estas divindades.

Entre os rituais estavam a postituição cultual, que em última análise, apela à depravação moral do homem.

Baal era o deus das chuvas, e, como os cananeus estavam em uma região fértil de Canaã, o israelita comum passou a entender que baal cuidava melhor dos seus adoradores que Javé. Por isso o baalismo sempre foi uma pedra no sapato do monoteísmo ético proposto por Moisés, conforme a revelação que o próprio Deus lhe fizera.

Para entender a história do povo de Israel

Publicado em Estudos no Antigo Testamento no dia 3 de janeiro de 2011

A história do povo de Israel, no Antigo Testamento, é vista da perspectiva da lealdade do povo hebreu à aliança com Javé.

De acordo com Deuteronômio capítulo 28 a obediência à aliança traria bençãos e prosperidade, enquanto que a apostasia traria maldições.

Devemos ter especial atenção a algumas expressões que se repetem nos livros históricos, tais como:

  • “Fizeram o que o Senhor reprova” – Livro dos Juízes
  • “Naqueles dias não havia rei em Israel e cada um fazia o que achava certo” – Livro dos Juízes
  • “Andaram nos caminhos de Jeroboão” – acusação contra os reis do Reino do Norte nos livros dos Reis

No decorrer das narrativas dos reis os seguintes padrões são adotados:

  • Todos os reis do Reino do Norte são reprovados por não terem abandonado o pecado de Jeroboão I, que instituiu o paganismo no Reino do Norte como forma de concorrer religiosamente com o Reino do Sul.
  • Os reis do reino do Sul que fizeram o que o Senhor aprova são comparados com seu ancestral Davi, com quem Javé havia feito uma aliança incondicional.

Observaremos que a quantidade de profetas enviados por Javé foi extensa, desde o profetismo extático, passando pelo profetismo da corte e até os profetas literários, que sugere que Javé dera ao povo da aliança ampla oportunidade de arrependimento.

Sua paciência e fidelidade à aliança com o povo foram comprovadas.

Na leitura dos livros históricos devemos:

  • ter como foco a aliança de Javé com o povo, não pessoas e acontecimentos
  • analisar causa e efeito históricos a partir do papel de Javé, não da ação das pessoas

Toda intervenção de Javé na história foi com vistas à execução do seu plano redentor.


Os julgamentos e livramentos de Javé

Publicado em Estudos no Antigo Testamento no dia 30 de dezembro de 2010

Introdução

O título hebraico do livro canônico que conhecemos como Números é “no deserto”. Este título traduz corretamente a história do povo eleito em sua jornada rumo à terra da promessa.

O título “Números” é uma herança da Septuaginta, versão grega do Antigo Testamento. Este título foi dado por conta dos recenseamentos do povo de Israel narrados nos capítulos 1 e 26.

O fato de haver tido um recenseamento prova que Javé cumpriu, até aqui, uma parte de suas promessas dadas a Abraão: ser uma grande nação. Agora, este grande povo deveria percorrer sua jornada no deserto para receber a outra parte da promessa: a terra prometida.

O livro de Números vai destacar as provações e rebeliões do povo escolhido durante o período da formação do seu relacionamento com Javé, relacionamento este que se desenrola durante a jornada no deserto. Logo, Números serve também como um diário dos primeiros dias de relacionamento entre o povo da aliança e seu libertador.

O livro registra, durante 38 anos, os fatos importantes antes da morte de Moisés e da entrada do povo em Canaã, a terra prometida.

Teologia e história

O livro de Números, de forma geral, possui duas mensagens:

  • a paciência e a fidelidade de Javé diante da rebelião e murmuração do povo
  • revelação adicional da natureza e caráter de Javé, o Deus da aliança.

A experiência no deserto dera ao povo provas de que Javé era seu provedor fiel. Inclusive, um dos utensílios do tabernáculo (ver aqui) era a mesa com os pães, que significava exatamente a provisão do Deus da aliança para seu povo escolhido.

Do ponto de vista histórico o livro de Números explica a presença do povo hebreu na terra de Canaã.

Do ponto de vista teológico o livro de Números destaca os seguintes princípios:

  • a santidade de Javé
  • a pecaminosidade do homem
  • a necessidade de obediência a Javé
  • a fidelidade total de Javé à aliança com o povo hebreu

Do ponto de vista sociológico explica a transformação de ex-escravos em uma comunidade unida por Javé, preparada para cumprir as obrigações da aliança.

Incredulidade e rebelião

Nos capítulos 13 e 14 de Números somos informados sobre a incredulidade do povo da aliança, que atingira um patamar altíssimo. Eles escolhem não confiar em Javé, a despeito de todo histórico de milagres a seu favor.

A consequência desta escolha foi a rejeição de Javé à geração do Êxodo.

A rebelião, causada pela incredulidade e desprezo de Israel por Javé, traz a perda irreversível das promessas relativas à terra para a geração do êxodo.

A rebelião e incredulidade chegou a um nível tão alarmante que o povo quis assassinar os espias que tiveram uma reação de fé diante dos obstáculos, de acorco com Números 14:10.

Diante deste quadro Javé tenciona destruir o povo e recomeçar tudo a partir de Moisés. Porém, Moisés intercede a favor do povo remetendo a duas características de Javé:

  • sua reputação – conforme Números 14:13-16
  • seu caráter – conforme Números 14:17-19

Este texto nos mostra que Moisés aprendera a conhecer Javé.

Entretanto, este ato de rebelião foi punido com a morte dos 10 espias por meio de uma praga, e, toda a geração do êxodo morreria no deserto.

Sempre mais do mesmo

38 anos se passam, estamos no capítulo 20 de Números, e a murmuração continua a mesma.

No episódio narrado neste capítulo a murmuração do povo levou Moisés a um orgulho e arrogância pecaminosos, que roubou a glória devida a Javé diante do povo, de acordo com Números 20:10-11.

Em Números 21:5 os israelitas, mais uma vez, mostram desprezo pela provisão de Javé. Por isso, são enviadas serpentes venenosas para matar o povo.

Mais uma vez, pela intercessão de Moisés, o povo recebe um meio de escapar da morte, por um ato de fé em Javé, olhando para o símbolo do seu pecado: uma serpente de metal.

Muitos anos se passam, e esta serpente começou a ser adorada como deus em Israel, e, 700 anos depois de ter sido construída, o rei Ezequias destruiu-a conforme 2 Reis 18:4.

Êxodo – Deus entre o povo da aliança

Publicado em Estudos no Antigo Testamento no dia 13 de outubro de 2010

A confirmação da aliança

A confirmação da aliança, feita pelos israelitas, traz a esta nova nação um relacionamento nacional de obediência (Êxodo 24:1-11). Para reforçar este conceito, é importante entendermos que Deus enxerga todo o povo como uma unidade, e não apenas indivíduos. Por isso que, ao longo da história de Israel, toda a nação sofrerá as consequências pelo erro de alguns.

O capítulo 24 de Êxodo nos aponta, pelo menos, três aspectos deste acordo:

  • Compromisso solene com os termos da aliança – Êxodo 24:1-4
  • O Acordo foi celebrado com sacrifícios – Êxodo 24:4-7
  • A aspersão do sangue sela a aliança – Êxodo 24:8

No processo de formação da nação de Israel as leis cerimoniais foram dadas a Moisés para regulamentar o culto e o serviço sacerdotal em Israel, de acordo com Êxodo capítulos 24 a 31.

O tabernáculo

Por ser uma nação teocrática, o próprio Deus redentor, Javé, habitaria no meio dela. Então, o plano para Javé manifestar sua presença no meio do povo escolhido exige a dedicação dos bens de Israel, para a construção de um tabernáculo divinamente inspirado, de acordo com Êxodo 25:1-9. Neste ponto, temos o cumprimento de mais uma das promessas feitas a Abraão: sairiam com grande riqueza da terra da servidão, conforme lemos em Gênesis 15:13-14.

Logo, a promessa de riquezas para os ex-escravos tinha um motivo já pré-definido por Javé. Como construiriam o tabernáculo se não tivessem o material adequado, de acordo com as especificações divinas? Então, quando Javé promete riquezas aos descendentes de Abraão não era apenas para seu uso pessoal e egoísta. Era para construirem o tabernáculo, símbolo da presença de Javé entre seu povo. Podemos aprender deste episódio que, quando Deus nos abençoa materialmente, não devemos ficar com tudo para nós mesmos, mas sim distribuir estas riquezas para o uso coletivo.

As instruções para a construção do tabernáculo revelam a glória e a santidade Javé.

O termo tabernáculo (משכן mishkan) é derivado de um verbo cujo significado é habitar. Logo, o tabernáculo representaria a presença de Javé habitando no meio do povo. Isso significa que, o grande criador do universo, o soberano de toda criação se dignou a habitar no meio de homens pecadores.

Não é à toa que João, em seu evangelho, no capítulo 1 verso 14, menciona que Jesus viveu entre nós. O termo original, em grego, que João usou foi  εσκηνωσεν (skenou), que signifca tabernaculou. Ou seja, João, como um bom israelita, sabia do significado do tabernáculo entre o povo escolhido de Javé, e o associou a Jesus – Emanuel, Deus conosco.

Os utensílios do tabernáculo

Cada utensílio tinha sua especificação e valor simbólico.

A arca da aliança era o principal utensílio, pois continham as tábuas que Javé dera ao povo. Serviam como testemunho da aliança feita com a nação de Israel.

A tampa da arca era chamada de kapporet, derivado do verbo hebraico kpr, que significa cobrir. Tinha o sentido de cobrir os pecados. Por isso encontramos no Salmo 32, verso 1 a alegria de Davi por saber, e experimentar o perdão de Deus, o cobrimento (perdão), e não o encobrimento dos pecados.

O candelabro (menorah) deveria estar com suas luzes constantemente acesas, pois a luz era associada à presença de Deus, talvez porque a luz foi a primeira criação de Javé por meio da palavra, segundo o livro de Gênesis. Novamente o apóstolo João faz uma comparação entre Jesus e a luz em seu evangelho, no capítulo 1 verso 4. Sendo Jesus a própria representação de Deus entre os homens, logo este era a luz dos homens, pois Deus estava, em carne, entre os homens.

As cortinas internas e externas sugeriam a separação e pureza exigidas pela presença de Deus naquele lugar.

A mesa dos pães era o lugar onde os israelitas se consagrariam a Javé, lembrando que ele era seu provedor. Mais uma vez, vemos no evangelho de João, a comparação que Jesus faz de si mesmo com o pão da vida. Jesus é o nosso provedor, dependemos somente dele.

Outros aspectos de santidade do tabernáculo

A construção e a decoração do tabernáculo manifestaram a glória e majestade do soberano criador e redentor de Israel que se “rebaixou” habitando entre os homens.

A cerimônia de ordenação de Arão e seus filhos ao sacerdócio apontam para a absoluta necessidade pureza no serviço de Javé, de acordo com Êxodo 29.

E finalmente, no capítulo 40 do livro de Êxodo, lemos sobre a glória de Javé enchendo o tabernáculo, confirmando sua presença na, recém nascida, nação de Israel. Mais um vez, João nos brinda com a comparação de Javé entre sua criação, dizendo que vimos a glória de Jesus cheio de graça e verdade, testemunhando a decisão de Deus de viver entre nós. Este é um fato que ultrapassa as linhas do tempo, e vai do Antigo ao Novo Testamento, de encontro às nossas vidas.

Conclusão

A aventura narrada no livro do Êxodo nos mostra como Javé faz de ex-escravos na terra do Egito, uma nação dirigida diretamente por ele.

Seu poder, glória e majestade são testemunhados em cada situação, além da sua longaminidade, demonstrada diante de um povo murmurador, que sempre coloca em risco a aliança feita entre Deus e seu povo.

Êxodo – Um povo dentro da lei

Publicado em Estudos no Antigo Testamento no dia 11 de outubro de 2010

Êxodo – O nascimento de uma nação

Publicado em Estudos no Antigo Testamento no dia 11 de outubro de 2010

 

A impressionante imanência do Deus transcendente

Chegamos ao capítulo 19 de Êxodo, 3 meses após a saída dos descendentes de Israel do Egito. Neste momento da história o povo está acampado na península do Sinai, e ficaria ali por quase 1 ano. Esta narrativa termina lá em Números capítulo 10, onde o povo continuaria sua longa e árdua caminhada por mais quase 40 anos pelo deserto.

Esta é uma das passagens mais importantes do Antigo Testamento, pois relata o encontro de Javé com seu o povo escolhido, o povo da aliança. Em nenhuma outra cultura há a descrição deste tipo de teofania, onde o deus adorado se une, se encontra com seu povo. Neste momento, único na história, a transcedência de Javé, soberano do universo, se funde à imanência, a presença visível no meio do povo.

Outro ponto que merece destaque é que, neste momento histórico, o aglomerado de ex-escravos está prestes a se tornar uma nação. A promessa feita a Abrão séculos antes está se cumprindo.

Os ex-escravos tornam-se uma nação por meio da aliança

No trecho de Êxodo 19:3-8, Moisés torna-se o intermediário da aliança que Javé oferece ao povo; aliança que foi prontamente aceita. Esta aceitação, o compromisso de obediência do povo, veio da confrontação com os feitos de Javé realizado entre o povo da aliança, conforme Êxodo 19:4.

Javé chama seu povo a um compromisso nacional, ou seja, um relacionamento especial com seu redentor. Um ponto importante que deve ser destacado é que a aliança não é individual, mas coletiva. Isto é importante para entendermos as narrativas onde lemos que todo povo é castigado por cauda do pecado e transgressão de apenas um indivíduo.

Javé apresenta as responsabilidades e privilégios do compromisso do povo com ele. Javé os trouxera à sua presença para confirmar seu plano de fazer os descendentes de Jacó uma nação para bênção de todos os povos da terra, de acordo com Êxodo 19:6, a mesma promessa que fizera a Abraão.

Algo que podemos aprender neste episódio é que é impossível pertencer ao povo de Deus sem um encontro real com ele. Podemos aprender também a verdadeira dinâmica do relacionamento com Deus: ele fala, e nós obedecemos. Nos dias atuais há uma ênfase exagerada em ir, ou pertencer a alguma comunidade, apenas para obter bençãos e benefícios de Deus.

O tipo da aliança e a função da lei

Esta aliança firmada entre Javé e os descendentes de Israel era condicional, ou seja, para o povo obter os benefícios da aliança seria necessário cumprir certas obrigações.

O que está em jogo aqui não é a condição de Israel como povo de Deus, mas sim as bênçãos e privilégios da aliança: ser seu tesouro pessoal e nação santa. Israel deveria desempenhar o papel de mediador entre Javé e os outros povos. Como nação de sacerdotes, o povo da aliança deveria ensinar às outras nações a lei de Javé. Em Malaquias 2:7 lemos sobre as atribuições de um sacerdote.

Javé queria que Israel servisse como meio de restauração entre as nações e ele mesmo.

A lei, dada no monte Sinai, indicaria ao povo que eles eram pecadores diante de um Deus santo e justo.

A manifestação de Javé, por meio dos raios e trovões, serviu para demonstrar a sua grandeza e santidade, e, que este povo deveria se aproximar dele com temor e reverência, outra coisa que tem sido esquecida nos dias de hoje.

Êxodo – Entre o mar e a espada

Publicado em Estudos no Antigo Testamento no dia 26 de setembro de 2010

Introdução

Continuando nossa saga junto com o povo da aliança, chegamos a um ponto crucial desta aventura; onde o povo de Israel veria os feitos do Deus que os havia chamado, e, por meio do livramento na travessia do mar de juncos, renderiam o louvor devido a YAHWEH.

A páscoa

Estamos em Êxodo, capítulo 12, onde YAHWEH institui a comemoração da páscoa. Além disso, como forma de marcar o tempo anual da nação que estava por surgir, YAHWEH determina que o mês desta comemoração seria o primeiro mês do ano. Isto pode simbolizar a comemoração pela libertação logo na entrada de um novo ano.

A páscoa, ou פסח (pessah) em hebraico, pode fazer menção à passagem que tiveram, e à rápida saída que teriam do Egito. Nesta saída rápida não haveria tempo de muitos preparativos, por isso os pães, nesta comemoração, deveriam ser sem fermento. Um outro ponto, que não fica claro no texto, é que o fermento pode também significar a corrupção, que não deveria eatar entre o povo da nova nação.

Neste episódio aprendemos que, o Deus que chamara o povo, também providenciara sua redenção. Esta redenção, no episódio do Êxodo do povo de Israel, será o padrão de rendenção mencionado no Antigo Testamento. O profeta Isaías, mencionando a restauração de Israel após o cativeiro, remete suas palavras à lembrança do Êxodo no capítulo 43.

A consagração

YAHWEH chamara este povo a ser uma nação separada, santa. Neste processo de separação a YAHWEH a consagração do povo deveria ser comemorada com duas cerimônias relacionadas entre si: a páscoa, como vimos acima, e a consagração dos primogênitos, conforme lemos em Êxodo 13:2; 6-7. Lemos no relato evangélico de Lucas que Jesus foi consagrado segundo esta tradição, de acordo com o capítulo 2 verso 22.

Esta consagração dos primogênitos lembraria aos israelitas que Deus os tinha como filhos, segundo Êxodo 4:22. Esta consagração também deveria ser uma expressão da gratidão de Israel para a redenção graciosa de YAHWEH.

A morte do cordeiro pascal redimiria da morte os filhos dos israelitas, segundo Êxodo 13:15. Isto os lembraria de que a redenção tem um preço, e nossas atitude erradas e pecados tem consequências sérias.

O Êxodo

A saída dos israelitas do Egito foi feita por uma rota não egípcia justamente para evitar o exército do faraó pelo caminho mais comum naquela época.

Em Êxodo 13:21 YAHWEH fornece provas do seu poder ao guiar o povo da aliança com a coluna de nuvem e de fogo.

YAHWEH avisa aos israelitas que viriam mais problemas pela frente ao dizer que o coração do faraó seria endurecido. Porém o propósito era a glorificação de YAHWEH para que os egípcios soubessem que somente ele era Deus. Isto nos remete à ideia de que o ser humano não é o foco da narrativa bíblica, mas sim a glorificação do único Deus soberano sobre toda a terra, de acordo com Êxodo 14:4.

Quando YAHWEH orienta o povo a fazer voltas pelo deserto, daria ao faraó a ilusão de que o povo estava desorientado, tornando-o portanto, uma presa fácil diante de seu poderoso exército.

Então, a lição definitiva de Deus para o povo da aliança e para os egípcios, envolveu a resposta de fé de Moisés para superar a visão distorcida que o povo tinha da situação, conforme Êxodo 14:13. Mais uma vez aprendemos que a fé não é um botão mágico que aciona o braço de Deus a nosso favor, mas a capacidade, dada pelo próprio Deus, de permanecer firme em qualquer situação.

Mais tarde, conforme o texto de Êxodo 14:31, lemos os resultados desta intervenção divina em favor do seu povo. Mais tarde, estes resultados ultrapassariam as fronteiras de Canaã, conforme relatos no livro de Josué.

A celebração da vitória

No capítulo 15 de Êxodo lemos o cântico de vitória do povo sobre os feitos magníficos de YAHWEH. Este cântico é repetido e relembrado em Apocalipse 15.

Notemos que a intervenção humana é claramente excluída. YAHWEH era o único responsável por tudo.

Neste cântico podemos perceber a relação com a criação por causa da separação das águas. Há o caos para que a vida possa continuar. Novamente, por todo Antigo Testamento, o tema de Deus subjugando as águas estará presente. O livro dos Salmos, Naum e Isaías trarão muitas menções a este fato.

Estes episódios ensinaram o povo de que YAHWEH era fiel às suas promessas e tinha poder para superar todos os obstáculos.

A promessa em risco novamente

Depois disso tudo, depois de todos os sinais e milagres, o povo volta a reclamar no deserto, e a promessa parece estar em risco novamente, como vimos por todo livro de Gênesis.

Mas YAHWEH, que é fiel não necessariamente a nós, mas às suas promessas e sua palavra, dissera lá em Êxodo 3:12, que seu povo o encontraria e o adoraria no monte, o que aconteceu no capítulo 15 versos 22 e 23.

Durante toda a travessia no deserto, mesmo vivendo dias e noites de milagres, o povo duvidava das promessas, não cria na soberania e poder de YAHWEH, que os havia chamado e redimido.

Pecar ou não pecar?

Publicado em Filosofia Cristã no dia 6 de setembro de 2010

A situação

Um erro bastante comum, ao examinarmos os textos bíblicos, é desconsiderarmos a data e o propósito para o qual cada livro ou carta da Bíblia foi escrita, e para irmos um pouco além, para quem foi escrita.

Muitos erros doutrinários, e por consequência, de comportamento cristão, poderiam ser evitados se não usássemos os textos bíblicos para nos auto-desculparmos dos pecados cometidos.

Um exemplo clássico é o uso da carta aos romanos, de Paulo, para provar a nós mesmos que somos reprováveis diante de Deus, e apenas a justiça divina aplicada em Jesus nos livra da justa ira de Deus. Mesmo Paulo escrevendo que não devemos viver no pecado, nós os que já morremos para ele, encontramos grande parcela da população cristã vivendo na “liberdade da graça“.

Como ninguém é de ferro, e todos continuam pecando, utiliza-se o texto da primeira carta do apóstolo João para remir-se de seus pecados, afinal ele (Deus) é fiel e justo para nos purificar, certo?

Logo, temos duas partes de um mesmo problema: romanos nos informa de nossa miserável condição pecaminosa, e João nos apresenta uma “solução rápida” a este problema.

Agora, como a história e propósito das cartas nos ajudam a viver uma vida cristã mais consciente?

Toda carta do NT foi escrita com um propósito situacional. Ou seja, todas as cartas foram escritas pois surgiram nas igrejas, e/ou regiões, problemas que estavam ameaçando de alguma maneira a unidade cristã no primeiro século.

Com isto em mente, poderemos tirar os ensinamentos corretos para a igreja de hoje.

Romanos

Tirando toda a parte do “tratado teológico” da carta aos romanos, Paulo escreve a estes irmãos por causa também da tensão que existia entre os judeus e gentios naquela igreja. Paulo não fundara esta igreja, e desejava muito conhecê-los, até mesmo para trocar experiências cristãs com aqueles irmãos, conforme vemos no início da carta.

Porém, devemos ter em mente que a localidade onde esta igreja estava inserida não era das mais éticas (pressuposto cristão) e familiares do mundo conhecido de então.

Sabendo da tensão entre os irmãos gentios e judeus, e também do baixo padrão moral da sociedade, Paulo exorta estes irmãos a não viverem uma vida de pecados.

Não era só por que viviam debaixo da graça, e não debaixo da lei, que eles deveriam viver na prática do pecado para que, de alguma forma, a graça de Deus se sobrepusesse ao pecado.

Paulo foi muito enfático quando disse que “DE FORMA NENHUMA” deveriam viver em pecado. E não apresentou nenhuma “fórmula mágica” de perdão de pecados. Nos disse sim, que nada poderia nos separar do amor de Cristo. Mas sua ênfase em não pecar persiste por toda a carta, que aliás é uma espécie de pré-requesito para tudo o que escreve depois.

I João

O contexto histórico da primeira carta de João é bem diferente.

Em primeiro lugar, era fim do século I. Todos estavam na espectativa do anti-cristo. As perseguições imperiais estavam a todo vapor, e os cristãos estavam com muito medo.

Para fechar com chave de ouro este período, onde a fé dos santos foi altamente provada, começaram a surgir inúmeras heresias a respeito de Jesus Cristo.

Pois bem, junte a isto o fato de que quase nenhuma igreja tinha o que conhecemos hoje por Bíblia, e por consequência, algumas doutrinas ainda não estavam fechadas ou definidas.

João escreve para um grupo de cristãos com medo, sendo atacados por todos os lados, interna e externamente. Logo, alguns começaram a questionar sua própria salvação, ou ainda, começaram questionar a perda de sua salvação.

O apóstolo do amor, dirigido por Deus, escreve a estes irmãos tranquilizando-os de que eles estavam salvos, se realmente cressem na Palavra da Vida, e por causa das heresias, ele escreve que não há ninguém que não peque, mas, se pecassem, Deus poderia purificá-los. Ou seja, um contexto totalmente diferente que temos da carta aos romanos.

Conclusão

Logo, de forma nenhuma podemos continuar na prática do pecado, já que somos pecadores e Deus nos perdoa, pois estamos na graça, e depois do pecado praticado, chegarmos diante de Deus com a cara lavada pedindo perdão, pois ele é fiel e justo.

Somos santos lutando contra o pecado, ou seja, o pecado em nossa vida é como um acidente, e ninguém vive se acidentando a todo minuto.

O que nos falta na igreja hoje é uma consciência da santidade de Deus, a mesma da qual nos fala o AT no pentateuco.

Sinto que falta, por vezes, um pouco de coragem da liderança eclesiástica de confrontar o pecado como a Bíblia ordena. Assim como Paulo fez com os romanos e coríntios, não se intimidou ou melindrou, mas nomeou os pecados e tratou de forma dura, como de fato deve ser tratado.

Não vejo na Bíblia nenhuma apologia ao “politicamente correto” no tratamento do pecado

Que o Senhor nos ajude a manter a santidade em mundo corrompido.

Exemplo de interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica

Publicado em Hermenêutica no dia 7 de agosto de 2010

Interpretação dos símbolos apocalípticos

Exemplo de interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica

Considerando o post anterior, sobre a interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica, vamos ver, na prática, como este simbolismo e linguagem cósmica pode ser usado para nosso ensino e edificação nos dias atuais.

Vamos determinar como o símbolo “cavalo” é usado em Zacarias 1:7-11 e em Apocalipse 6:1-8.

Primeiramente vamos fazer uma descrição do contexto histórico destas passagens.

Zacarias

Junto com Ageu foi um dos profetas pós-exílicos. Viveu no período do rei persa Dario I. Apesar da volta de uma parte do povo judeu da Babilônia, ainda não havia uma constatação da renovação da aliança que Javé havia prometido a Jerusalém.

Por isso, o profeta, na introdução do seu livro, desafia o povo a voltar-se para Javé e arrependenrem-se dos seus pecados.

A partir do verso 7, na visão dos cavalos, a patrulha divina constata que o mundo está em paz debaixo da mão de ferro do império persa, e Dario estava favorável aos judeus.

Javé ainda estava no controle e ainda cuidava de Jerusalém com zelo e garantiria a reconstrução da cidade e do templo.

Apocalipse

O escritor do apocalipse, o apóstolo João, foi o último dos discípulos a morrer. A data que os eespecialistas colocam para o livro é de 95 d.C.

Nesta época reinava o imperador Domiciano. A primeira fase da perseguição imperial aos cristãos passara; surgia agora o segundo período das perseguições imperiais. A história dá seu testemunho de que outras perseguições estavam por vir.

O Apocalipse foi escrito para encorajar os cristãos a permanecerem firmes em sua fé, pois, no final, Deus seria o vencedor supremo.

No trecho em questão o juízo de Deus tem seu início. No julgamento, representado pela abertura dos selos, seu conteúdo está muito relacionado à guerra e seus efeitos. O aparecimento do líder conquistador, representado pelo primeiro cavalo; uma guerra, representado pelo segundo cavalo; fome, terceiro cavalo e morte, quarto cavalo; estes dois últimos resultados naturais da guerra.

Aplicação

Na leitura destes dois trechos, um do Antigo Testamento, outro do Novo Testamento, observamos pelos contextos históricos que Deus é o Senhor da história.

Suas promessas, embora tenhamos a impressão de demora, sempre se cumprem. Deus ama seu povo, e, por isso, o corrige assim como um pai faz com os filhos. Porém, sempre após sua correção Deus restaura e renova sua aliança com seu povo.

Nos dois períodos históricos estudados vimos a repreensão, o cuidado e a restauração da terra por Deus, que é soberano e Senhor da história.

A interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica

Publicado em Hermenêutica no dia 7 de agosto de 2010

Interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica

A interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica

Uma das características da literatura apocalíptica é o uso de símbolos para expressar uma realidade, atual ou futura. As narrativas cósmicas apresentadas confudem o leitor entre o que é literal e simbólico.

Um dos fundamentos que devemos ter em mente quando lemos algum material deste gênero é que as visões conduzem os leitores a uma realidade transcendente, que é superior à situação presente e encoraja os leitores a perseverarem em meio às provações.

Outras características da literatura apocalíptica

Apesar das dificuldades que este gênero tem, podemos listar alguns aspectos que aparecem com frequência na maioria das obras.

1 – O pessimismo quanto à era presente – É a caracter;istica dominante nesta literatura. A situação era tão desesperadora que tudo que um cristão, filho de Deus, podia fazer era esperar a futura intervenção divina.

2 – A promessa de salvação ou restauração –  É outro lado da mesma moeda. O tema da restauração é predominante, por exemplo, em Aocalipse e Daniel.

3 – Visão da realidade transcendente centrada na presença e controle de Deus – A ênfase não está não está na desesperança do presente, mas na esperança do futuro. Deus ainda reina sobre o história, e ele lhe dará um fim no devido tempo.

4- Determinismo – Deus controle completamente toda a história, e prevalece uma perspectiva muito forte de predestinação, na medida em que Deus já tem definido o curso futuro deste mundo.

5 – Dualismo modificado – Não se trata de um dualismo absoluto, pois os lados adversários não são iguais. Satanás não é uma espécie de “deus do mal”, mas atua de acordo com a permissão de Deus, debaixo do seu propósito. Esta era é caracterizada pela oposição entre Deus e Satanás, e a próxima era será marcada pela vitória completa de Deus.

6 – A recriação do cosmos – Este aspecto é refletido em várias obras do gênero apocalíptico, às vezes com a destruição do mundo existente. Céu e terra, antes separados, agora juntam-se em uma nova unidade, satisfazendo o “gemido da criação”.

7 – Perspectiva escatológica – A literatura apocalíptica não apenas rejeita a história humana como ainda a vê concluída e transformada. Deus é soberano sobre o presente eo sobre o futuro.

Outra característica importante é o fato de que os símbolos nem sempre significam a mesma coisa. Por isso, o estudo do contexto histórico da época que o texto foi escrito é de suma importância para determinar o que o símbolo queria transmitir. Sabendo o que o símbolo queria transmitir na época podemos fazer uma aplicação mais adequada à nossa realidade nos dias de hoje.

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