A perseguição religiosa sob a perspectiva dos pais apostólicos

A perseguição religiosa sob a perspectiva dos pais apostólicos
Os pais apostólicos e a perseguição religiosa

A perseguição religiosa sob a perspectiva dos pais apostólicos

Este artigo analisa o pensamento de alguns pais apostólicos sobre a perseguição à igreja cristã. Seus escritos refletiam, em grande parte, o pensamento vigente acerca do cristianismo, o que criam e como viviam os cristãos após o martírio dos apóstolos instituídos por Jesus. Portanto, as razões históricas e sociais das perseguições, embora citadas, não serão o objeto de estudo deste artigo, senão as interpretações destes líderes da Igreja que substituíram os apóstolos nos dois séculos seguintes.

O primeiro período das perseguições

A perseguição aos cristãos iniciou-se com os judeus e continuou com os gentios por um período aproximado de trezentos anos,  com algumas breves interrupções. Philip Schaff afirmou ser uma luta desigual entre a cruz e a espada, e entre a vida e a morte. Ele concorda com Justino e Tertuliano que por trás da história estava a luta de Satanás e seus demônios contra a Igreja de Deus, embora não tenham negado o aspecto humano das perseguições. Schaff informa que eles interpretaram as perseguições tanto como uma punição pelos pecados cometidos no passado como também uma escola para a virtude cristã, pois desenvolviam a paciência e a resistência dos cristãos (SCHAFF, 1882, p. 38).

Embora nem todos os imperadores romanos tenham desenvolvido o ódio contra os cristãos, o cristianismo sempre foi, de Trajano a Constantino, uma religião ilegal e alvo de violência em todos os lugares. Alguns imperadores tais como Nero, Domiciano e Galério foram tiranos impiedosos, porém outros como Trajano, Marco Aurélio, Décio e Diocleciano embora não fossem inimigos do cristianismo per si, queriam manter as leis e o poder do Império, ameaçado pela nova religião, pois  todos os imperadores desconheciam as características do cristianismo (SCHAFF, 1882, p. 39).

O cristianismo, em virtude do seu crescimento acelerado, tornou-se um fenômeno que não poderia mais ser ignorado e, tão logo foi entendido como uma nova religião, lutou por seu reconhecimento e aceitação. Entretanto o governo romano censurou os cristãos e tachou o cristianismo de religio illicita[1], ou religião ilegal (SCHAFF, 1882, p. 43).

Ainda no período apostólico, a Igreja muito jovem, padeceu sob a perseguição do imperador Nero, que é considerada como o primeiro momento de perseguição política pelo qual a Igreja passou fora dos limites da Palestina. Devido aos seus caprichos egocêntricos, Nero não era estimado pelo povo e fazia sua vontade acontecer a qualquer preço. Todos aqueles que se colocavam contra suas ideias e vontades morriam misteriosamente ou eram submetidos ao suicídio forçado. Quando um grande incêndio abateu-se sobre Roma, a opinião pública voltou-se contra Nero, e diz a tradição que, enquanto Roma consumia-se no incêndio, Nero observava o caos do alto da torre de Mecenas vestido como um ator de teatro tocando sua lira cantando versos sobre a destruição de Troia (GONZÁLES, 2011, p.40).

O povo revolta-se, pois os estragos foram muito grandes e logo se exige um culpado. Nero, aproveitando-se do desconhecimento que a sociedade tinha do cristianismo, surgido há apenas 30 anos, coloca a culpa sobre esta nova religião. Muitos cristãos foram presos e torturados como inimigos da humanidade (MATTOSO, 1964, p. 492). Eusébio, em sua obra História Eclesiástica, preferiu omitir os detalhes da crueldade com a qual Nero infligiu os cristãos, culminando na morte de inúmeras pessoas e, citando Tertuliano, afirma que a perseguição era abertamente contra a doutrina cristã (EUSÉBIO, 2005, p. 73).

Eusébio, mencionando Dionísio, bispo de Corinto, confirma o martírio dos apóstolos Pedro e Paulo em Roma neste período, da seguinte maneira:

Nisto também vós, por meio de semelhante admoestação, fundistes as searas de Pedro e de Paulo, a dos romanos e a dos coríntios, porque depois de ambos plantarem em nossa Corinto, ambos nos instruíram, e depois de ensinarem também na Itália no mesmo lugar, os dois sofreram martírio na mesma ocasião (EUSÉBIO, 2005, p. 73).

Eusébio cita a tradição de que Paulo foi decapitado e Pedro crucificado, ambos em Roma sob o governo de Nero. Posteriormente, os túmulos desses apóstolos, em razão do seu sofrimento e martírio, haviam adquirido o status de troféus, conforme relata o próprio Eusébio (EUSÉBIO, 2005, p. 73).

Após este primeiro período de perseguição, sob Nero, os cristãos experimentam a fúria do imperador Domiciano cerca de 30 anos depois. Diz-nos Eusébio que Domiciano

deu provas de uma grande crueldade para com muitos, dando morte sem julgamento razoável e não pequeno número de patrícios e de homens ilustres, e castigando com o desterro fora das fronteiras e confisco de bens a outras inúmeras personalidades sem causa alguma. Terminou por constituir-se a si mesmo sucessor de Nero na animosidade e guerra contra Deus (EUSÉBIO, 2005, p. 91).

O segundo período das perseguições

O segundo período de perseguições começou com a exigência do Império Romano para os judeus enviarem a oferta destinada ao Templo de Jerusalém para Roma, sob o argumento de o Templo não existia mais. Como os judeus se recusaram a fazê-lo o imperador Domiciano desencadeou este segundo movimento de perseguição, a princípio contra os judeus. Entretanto, como ainda não havia uma distinção clara entre a recente fé cristã e o judaísmo, os cristãos passaram também a ser perseguidos. E, além deste motivo econômico, passaram a ser perseguidos por ateísmo, já que o deus adorado pelos cristãos era invisível (GONZÁLEZ, 2011, p. 43). González afirma que “o imperador Domiciano, que perseguiu os cristãos nos fins do século I, parece ter sido o primeiro imperador a perceber que a nova fé representava uma ameaça às velhas tradições romanas” (GONZÁLEZ, 2011, p. 44).

Clemente

De acordo com alguns eruditos foi nesta época que Clemente (EUSÉBIO, 2005, p. 91), em Roma, escreveu sua primeira carta aos coríntios (EUSÉBIO, 2005, p. 91). Esta carta foi produzida na mesma época que João escreveu o seu Apocalipse, quando estava exilado na ilha de Patmos (HOLMES, 2007, p. 33). Eusébio testifica que esta epístola gozou de grande prestígio e admiração (EUSÉBIO, 2005, p. 91).

Clemente, escrevendo aos coríntios, menciona os “males e provas inesperados e seguidos que sobrevieram a nós [os cristãos]” (GONZÁLEZ, 2011, p. 43). No capítulo seis desta mesma carta, ele menciona homens que viveram a prática do cristianismo e foram torturados por isso. Clemente considera este fato um “exemplo excelente” e ainda descreve a firmeza de duas mulheres chamadas Danaides e Dirce diante dos sofrimentos terríveis e tormentos indescritíveis[2].

No capítulo sete, Clemente deixa implícita a mensagem de que o sofrimento é também um dever do cristão. Ele usa a metáfora da arena para se referir à luta do cristão, já que era muito comum, neste período, lançarem cristãos em uma arena repleta de leões como aplicação da pena de morte[3].

Chegando ao fim da sua longa carta, Clemente faz uma súplica ao seu Mestre ajudador pedindo o resgate dos que estavam presos e encorajamento para os que estavam sentindo-se fracos (HOLMES, 2007, p. 125).

Inácio

Em virtude do aumento da perseguição, ainda no primeiro século da era cristã, começaram a surgir relatos detalhados sobre o processo do martírio pelo qual passavam os cristãos (GONZÁLEZ, 2011, p. 45). Inácio de Antioquia[4], outro pai apostólico[5], produziu “o exemplo mais valioso dessa classe de documentos”, escritos entre o fim do primeiro século e começo do segundo, que foi uma coleção de sete cartas escritas a caminho do seu martírio (GONZÁLEZ, 2011, p.45).  Na carta endereçada aos Romanos, ele primeiramente pede que não impeçam nem se manifestem contra seu martírio iminente, pois deseja agradar a Deus antes de agradar aos homens. Inácio considerava este fato como seu sacrifício pessoal a Deus (HOLMES, 2007, p. 227).

Schaff classifica este desejo de Inácio como fervorosamente mórbido com um final gratificante, pois atingira seu objetivo: ser martirizado. Isto aconteceu durante o governo do imperador Trajano no ano 107. Nesta época Trajano ameaçou a todos em Antioquia com a perseguição caso se recusassem a oferecer sacrifícios aos deuses romanos. Inácio foi condenado por este crime e orgulhosamente se autodenominou de Teoforos, isto é, portador de Deus.  A execução de sua sentença foi ser atirado aos leões no anfiteatro em Roma (SCHAFF, 1882, p. 48).

Para Inácio, o martírio era uma chance de não apenas ser chamado cristão, mas também era o meio para provar ser um. Se ele pudesse provar ser um cristão por meio do martírio, logo ele poderia ser chamado de cristão. Inácio ainda escreveu a várias igrejas defendendo sua postura de morrer por sua fé insistindo que fazia isso por seu próprio livre arbítrio. Ele continuou a apologia a seu martírio dizendo que as feras seriam o meio pelo qual ele estaria diante de Deus na eternidade, e seria o trigo de Cristo esmagado para ser um pão puro (HOLMES, 2007, p. 229).

Entretanto, não foi apenas aos romanos que Inácio escreveu sobre seu martírio, mas a igreja de Esmirna, da mesma forma, recebeu seu ensino acerca da perseguição aos cristãos citando o sofrimento do Senhor Jesus e explicando as características deste sofrimento além de ter usado a si mesmo como exemplo (HOLMES, 2007, p. 251). Inácio também confessa sua rendição diante da morte dizendo que quaisquer que fossem os meios pelos quais viesse a morrer significariam sua aproximação de Deus (HOLMES, 2007, p. 253).

Em sua última epístola, aos Trálios[6], Inácio revela seu medo do martírio que se aproxima, e diz que deseja sofrer, mas não por orgulho próprio. Contudo, ele pede paciência para eles suportarem o que, na concepção de Inácio, não eram capazes de entender ainda (HOLMES, 2007, p. 219).

Policarpo

Na carta que a Igreja de Esmirna enviou à Igreja de Filomélio há a descrição do modo como os cristãos daquela região encaravam as perseguições em meados do segundo século da era cristã. Esta carta, que ficou conhecida como “O Martírio de Policarpo”, é o documento mais antigo sobre o martírio dos cristãos fora do Novo Testamento (HOLMES, 2007, p. 298). Este registro, que mescla elementos narrativos e querigmáticos (HOLMES, 2007, p.298), menciona a morte de Policarpo, bispo de Esmirna por volta deste período. O autor da carta considera Policarpo bem-aventurado em virtude da perseguição que sofreu, e afirma que o sofrimento imposto a ele é um exemplo que o Evangelho oferece. Ainda segundo o autor da carta, Policarpo considerou a vinda do seu martírio demorada, pois ele almejava imitar Jesus até mesmo em sua morte[7].

Esta carta afirma que todos os martírios foram abençoados e o sofrimento dos cristãos que passaram por esta experiência originou-se da vontade de Deus. Os mártires, segundo o autor da carta, são considerados cristãos que se distinguem dos outros por demonstrarem maior piedade, nobreza e paciência. Ademais são dignos de admiração pois, durante seu martírio, não soltavam um gemido ou suspiro sequer. Teologicamente este fato é entendido como uma espécie de ausência corporal, cujo tormento foi suplantado de alguma forma, que a carta não explica, pela graça de Cristo. O texto toma um rumo escatológico quando afirma que o fogo no qual foram martirizados lhes pareceu como refresco à medida que Cristo lhes revelava coisas que os “ouvidos jamais ouviram e olhos jamais viram” até tornarem-se anjos[8].

Além de Policarpo outro grupo de cristãos foi condenado ao martírio e “segundo o relato de alguém que diz ter sido testemunha dos acontecimentos, aplicaram-lhes os mais dolorosos castigos e nenhum deles se queixou de sua sorte, pois descansando na graça de Cristo tinham em pouca conta as dores do mundo”. Por fim, Policarpo foi queimado vivo, numa fogueira preparada pela população (GONZÁLEZ, 2011, p. 50).

Eusébio afirma que, neste tempo, as perseguições na Ásia eram muito severas, confirmando que a animosidade do Império Romano para com os cristãos não estava restrita somente às adjacências de Roma (EUSÉBIO, 2005, p. 128), embora Schaff comente que dos dez imperadores romanos que promoveram as perseguições contra os cristãos, apenas dois – Décio e Diocleciano – a estenderam além dos limites do Império (SCHAFF, 1882, p. 39). O exame de Eusébio sobre o martírio de Policarpo o levou à conclusão de que a firmeza que os cristãos demonstravam durante a execução era motivo de espanto (EUSÉBIO, 2005, p. 128) para aqueles que assistiam ao castigo. Entretanto, aqueles que negavam pertencer à religião cristã eram rechaçados como covardes. Este foi o caso de um cristão chamado Quinto, que Eusébio não hesita em comparar sua desistência do martírio à perda da salvação (EUSÉBIO, 2005, p. 129).

O martírio era entendido como parte da vontade de Deus para os cristãos, conforme o relato de Eusébio sobre a oportunidade que Policarpo teve de fugir, mas não o fez.

Como chegaram a uma hora tardia, encontraram-no deitado em um cômodo do piso superior, de onde era possível passar para outra casa; mas ele não quis fazê-lo e disse: “Cumpra-se a vontade de Deus” (EUSÉBIO, 2005, p. 130)

Antes de sua morte, Policarpo, em sua carta aos efésios, cita como um dos exemplos da retidão, o assunto principal da carta, o martírio. Policarpo, para animar e encorajar o martírio dos cristãos, diz que eles devem “ter certeza de que tudo isso não é correr em vão, mas com fé e retidão, e que eles [os martíres] já estão no devido lugar deles com o Senhor, com quem eles também sofreram.” (HOLMES, 2007, p. 291)[9].

Justino

Justino, o mártir, para defender os cristãos, apela à lógica quando escreve sua primeira apologia. Ele argumenta que os cristãos não deveriam ser punidos como criminosos tampouco absolvidos apenas por se declararem cristãos. Além disso, ele afirma que os cristãos são as pessoas mais excelentes em virtude do seu comportamento, mas ainda assim são acusados como malfeitores. Para Justino era um contrasenso castigar cidadãos de comportamento exemplar, e prossegue, recorrendo aos princípios fundamentais do direito, ao afirmar que a Justiça requer evidências, e não apenas acusações, para a condenação de uma pessoa[10].

Aos cristãos, Justino escreve consolando-os, dizendo para não temerem a morte, já que todos passarão por isso. Justino continua sua exposição dizendo que, em última instância, aqueles que martirizam os cristãos estão, na verdade, executando uma benfeitoria, pois libertam os cristãos dos sofrimentos e necessidades da vida[11].

Eusébio sacraliza o martírio ao mesmo tempo em que condecora Justino afirmando que “depois de dedicar aos imperadores seu segundo livro em defesa de nossas doutrinas, foi adornado com o sagrado martírio”. No trecho no qual cita o martírio de Justino, Eusébio compara esta condenação com um prêmio pelo modo como Justino viveu a vida cristã. Ainda tratando sobre a execução de Justino, Eusébio menciona o próprio registro feito pelo mártir sobre a conspiração armada para condená-lo. Neste registro, Justino acusa Crescente de malvado, ignorante e irracional em razão de não procurar informar-se dos ensinos de Cristo antes de incriminar os cristãos como ateus e ímpios. Eusébio conclui o texto deduzindo que a causa do martírio de Justino foi, em última análise, a leviandade e preconceito de Crescente em relação aos cristãos e não necessariamente a algum mal executado por eles (EUSÉBIO, 2005, p. 134).

Além disso, Eusébio também alude a casos onde os cristãos foram retirados da arena das feras. Nesta situação, os que passaram por isso não consideravam-se mártires e nem permitiam que os demais os reconhecessem como tais, embora afirme que deram testemunho e tiveram sua glória. Para estes os verdadeiros mártires eram os que já haviam morrido por Cristo, cuja fé foi selada com a morte. Estes, que sobreviveram ao martírio, eram considerados testemunhas sem expressão (EUSÉBIO, 2005, p. 161).

A carta a Diogneto, escrita em meados do segundo século (HOLMES, 2007, p. 689), para os não cristãos a respeito das razões da fé cristã, concorda que uma das características distintivas dos cristãos era a perseguição que sofriam pela sociedade. O texto da carta também relata a condição de injustiça à qual os cristãos eram submetidos tais como: condenados sem um julgamento, postos à morte, não tinham cidadania, pois eram meros desconhecidos, desonrados e, ao fazer o bem eram punidos como aqueles que faziam o mal. O autor ressalta que os perseguidores eram incapazes de dizer a razão da hostilidade contra os cristãos (HOLMES, 2007, p. 703).

Tertuliano

No fim do segundo século, Tertuliano[12], outro influente pai apostólico, também escreve sobre as circunstâncias adversas nas quais os cristãos se encontravam. Em sua obra “Ad Martiras” [Aos mártires] Tertuliano procura confortar os cristãos que estavam presos e enfrentavam a iminência da morte em razão de abraçarem a fé cristã. Tertuliano apela para a linguagem paulina ao convocar aqueles que estão presos a não entristecer o Espírito Santo, pois, segundo seu modo de entender, em última instância, ele havia levado os cristãos a este estado[13]. Para Tertuliano esta era uma oportunidade para os cristãos encarcerados demonstrarem paz aos não cristãos. Desta forma, podemos presumir que Tertualino compartilha do pensamento de que a prisão era um propósito de Deus para os cristãos naquele período.

Schaff compara Tertuliano como um profeta que antecipou o movimento protestante, pois afirmou com audácia que o Império jamais poderia obrigar a todos a adorarem os ídolos pagãos de Roma, pois nenhuma forma de culto tem valor se o tributo à divindade não partir do coração (SCHAFF, 1882, p. 39).

Tertualino continua seu trabalho pastoral afirmando que os cristãos presos, na verdade, foram tirados da corrupção do mundo e foram colocados pelo Espírito Santo em um lugar de segurança e chega comparar a prisão com a verdadeira liberdade dada por Deus. Tertualino via na prisão dos cristãos o mesmo efeito do deserto para os profetas[14].

Recorrendo ainda à linguagem paulina, Tertuliano diz que a prisão serve para o cristão encarcerado como um campo de treinamento do soldado para a guerra ou como uma disciplina mais apurada para um atleta, reforçando a iminência do martírio para aprovação no juízo final[15].

Por outro lado, Tertuliano, em sua apologia ao cristianismo perante o Império Romano, também recorre aos princípios do Direito ao propor que

Se realmente somos os mais nocivos dos homens [os cristãos], porque se nos dá um tratamento diferente daquele que se dá aos nossos congêneres na criminalidade? Um mesmo delito acaso não faz jus a um mesmo procedimento? Outros, réus dos delitos que se nos imputam, têm o direito de defender-se, pessoalmente ou mediante advogados; dá-se-lhes o direito de pleitear e altercar porque é ilícito condenar homens sem que se defendam e sem que sejam ouvidos. Unicamente aos cristãos se proíbe proferir a palavra que os inocentaria, defenderia a verdade e pouparia ao juiz uma iniquidade. Deles apenas se espera aquilo que o ódio público reclama: que se confessem cristãos. Examinar a culpa não importa (BETTENSON, 2007, p. 35).

O objetivo da longa perseguição aos cristãos, na avaliação de Schaff, falhou, pois a Igreja sempre esteve fundada sobre a rocha, e, ao invés de aniquilá-la, na verdade purificou-a. Ou como asseverou Tertuliano, que nunca viu o fim das perseguições: “O sangue dos cristãos é a semente da Igreja” (SCHAFF, 1882, p. 39).


[1]    Algumas religiões gozavam de certos privilégios no Império Romano, tais como a dispensa do serviço militar e do culto ao imperador. Estas religiões recebiam o status de religio licita, como era o caso do judaísmo. As religiões que não possuíam este atributo eram designadas de religio illicita,  tal qual o cristianismo.

[2]    ANF01. The Apostolic Fathers with Justin Martyr and Irenaeus. Disponível em: <http://www.ccel.org/ccel/schaff/anf01.ii.ii.vi.html>. Acesso em: 22 jul. 2012. Tradução nossa.

[3]    ANF01. The Apostolic Fathers with Justin Martyr and Irenaeus. Disponível em: <http://www.ccel.org/ccel/schaff/anf01.ii.ii.vii.html>. Acesso em: 22 jul. 2012. Tradução nossa.

[4]    Inácio foi bispo de Antioquia na Síria e foi martirizado durante o governo do imperador Trajano (98 a 117 d.C.)

[5]    Consideramos como pais apostólicos a primeira geração de líderes após os apóstolos no século II d.C., cuja preocupação primeira era pastoral e não teológica. Diz a tradição que Inácio de Antioquia foi discípulo do apóstolo João.

[6]    Holmes considera a epístola aos Trálios como a última baseado no Codex Mediceo-Laurentianus.

[7]    ANF01. The Apostolic Fathers with Justin Martyr. Disponível em: <http://www.ccel.org/ccel/schaff/anf01/Page_39.html>. Acesso em 29 jul. 2012. Tradução nossa.

[8]    ANF01. The Apostolic Fathers with Justin Martyr. Disponível em: <http://www.ccel.org/ccel/schaff/anf01/Page_39.html>. Acesso em 29 jul. 2012. Tradução nossa.

[9]    Be assured that all these did not run in vain but with faith and righteousness, and that they are now in the place due them with the Lord, with whom they also suffered.

[10]   ANF01. The Apostolic Fathers with Justin Martyr and Irenaeus. Disponível em: <http://www.ccel.org/ccel/schaff/anf01.viii.ii.iv.html>. Acesso em: 30 jul. 2012. Tradução nossa.

[11]   ANF01. The Apostolic Fathers with Justin Martyr and Irenaeus. Disponível em: <http://www.ccel.org/ccel/schaff/anf01.viii.ii.lvii.html>. Acesso em: 30 jul. 2012. Tradução nossa.

[12]   Tertuliano era natural de Cartago e viveu entre os anos 160 e 220 d.C. Foi um dos primeiros teólogos a sistematizar as doutrinas da fé cristã.

[13]   ANF03. Latin Christianity: Its Founder, Tertullian. Disponível em: <http://www.ccel.org/ccel/schaff/anf03.vi.v.i.html> Acesso em: 24 jul. 2012. Tradução nossa.

[14]   ANF03. Latin Christianity: Its Founder, Tertullian. Disponível em: <http://www.ccel.org/ccel/schaff/anf03.vi.v.ii.html>. Acesso em: 24 jul. 2012. Tradução nossa.

[15]   ANF03. Latin Christianity: Its Founder, Tertullian. Disponível em: <http://www.ccel.org/ccel/schaff/anf03.vi.v.iii.html> Acesso em: 24 jul. 2012. Tradução nossa.

Publicado por

Alexandre Milhoranza

Sou Alexandre Milhoranza e pertenço à Igreja Batista. Sou Casado com a Ana Claudia e temos dois filhos, a Bárbara e o Eduardo. Atuo profissionalmente com Desenvolvimento de Sistemas Web na plataforma .NET e Sharepoint, mas também estudo Teologia na Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Um pecador salvo unicamente pela graça de Deus, e basta.

12 comentários em “A perseguição religiosa sob a perspectiva dos pais apostólicos”

    1. Muito bom , Milhô!!!

      E para provar q lí o texto todo, encontrei um errinho de digitação no 3º parágrafo de "Tertuliano", onde está escrito por duas vezes escrito "Tertualino". kkkkk

      Parabéns, mano! Seu blog tá muito legal!! Abração

  1. Duas coisas me impressionaram no relatado neste excelente texto.

    1- É incrível pensar que uma pequena religião nascida numa pequena região do Império Romano e iniciada por um pequeno grupo liderado por um homem que já tinha morrido (aposto que os romanos não davam muito crédito a essa história de ressurreição) tomou tão grandes proporções a ponto de incomodar vários imperadores e provocar a ira de pessoas em todo o mundo conhecido. E não só a ira, evidentemente, mas também a conversão de pessoas de ponta a ponta do Império. Que força!

    2- É constrangedor pensar no quanto os primeiros cristãos levavam a sério a ideia de que o discípulo deve imitar seu mestre em tudo, chegando ao extremo de querer com muita ânsia imitá-lo até mesmo em sua autoentrega para a morte, dedicando ao Senhor o seu "sagrado martírio".

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *