A verdadeira fé é aquela que permanece

Nos dias de hoje, muitos termos bíblicos assumiram outra conotação, bem diferente do significado que o autor bíblico pretendeu.

O termo fé é um deles.

Para nosso estudo aqui, vamos utilizar um trecho bem conhecido, e mal empregado: Habacuque 2:4.

Vamos pegar o parágrafo todo para melhor compreensão do texto escolhido.

1 Ficarei no meu posto de sentinela e tomarei posição sobre a muralha; aguardarei para ver o que ele me dirá e que resposta terei à minha queixa.

2
Então o Senhor respondeu: “Escreva claramente a visão em tabuinhas, para que se leia facilmente.

3 Pois a visão aguarda um tempo designado; ela fala do fim, e não falhará. Ainda que se demore, espere-a; porque ela certamente virá e não se atrasará”.

4
Escreva: “O ímpio está envaidecido; seus desejos não são bons; mas o justo viverá pela sua fidelidade.

Contexto histórico

Como bons hermeneutas sabemos que o contexto histórico não deve ser desprezado. Por isso, vamos analisar o que estava acontecendo nos dias do profeta Habacuque, e que influência isso teve no que Deus lhe falou. Aliás, Deus falou o que falou justamente por causa deste contexto, que muitos aliás, preterem.

Em Habacuque lemos sobre o juízo que Deus executaria contra Judá.

Nos livros de I e II Reis lemos sobre a corrupção  e iniquidade que haviam se instaurado no Reino do Sul.

Então, da mesma forma como Deus havia castigado Israel pela Assíria anos antes, ele diz a Habacuque que usará a Babilônia para fazer o mesmo com Judá.

A Babilônia havia derrotado a Assíria, como predito pelo profeta Naum, e estava expandindo seus domínios na região do Oriente Médio.

Indignado, nosso profeta filósofo começa a questionar a Deus: como uma nação de ímpios seria usada para estabelecer o juízo do Senhor contra seu povo escolhido?

Deus, mesmo sendo o soberano de todo o universo, se digna a responder aos questionamentos de Habacuque, e, no capítulo 2, Habacuque se propoe a ficar firme em sua posição e não se abalar com as circunstâncias.

Finalmente, no capítulo 3, Habacuque entende que independente das circunstâncias ele se alegraria em Deus.

Fé posicionada

Para compreendermos o que Habacuque quis dizer com a  expressão “o justo viverá da fé”, vamos recorrer à língua original do texto. Assim diz o verso 4:

hinnêh `uppelâh lo’-yâsherâh naphsho bo vetsaddiyqbe’emunâtho yichyeh

A palavra corresponde a fé é emunâtho, e tem o sentido de posicionamento, pois este é um termo militar. O soldado deve permanecer em sua posição, haja o que houver; note como Habacuque começa o capítulo 2.

Tomo a liberdade fazer uma tradução paralela de acordo com o texto original:

Veja: sua alma está engrandecida e não está em retidão no Senhor, mas o justo viverá por sua firmeza no Senhor.

Agora, nosso conceito de fé começa a mudar, e fica bem diferente do que é dito hoje em dia pelos apóstolos televisivos, não?!.

Por isso Habacuque disse que, mesmo que tudo estive contra o que ele acreditava ser correto, ele exultaria em Deus, e não nas circunstâncias.

Outro exemplo de fé “emunah”, que raramente é interpretado corretamente, está no capítulo 3 do livro de Daniel. Diante da ameaça de ser jogado na fornalha, os amigos de Daniel não se dobram diante de Nabucodonosor, permanecem posicionados.

Um pequeno trecho do verso 18, frequentemente ignorado, nos dá a pista do tipo de fé que esses jovens tinham:

Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos teus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer.

Esta frase, dita hoje, denotaria total falta de confiança em Deus, não?! Afinal basta determinar, e está tudo resolvido!

O que deve ficar claro aqui é que, mesmo que Deus não os livrasse eles não adorariam a Nabucodonosor. Um magnífico exemplo de fé posicionada! Estamos com o Senhor, e disso não abrimos mão!

O que fé não é

Devemos entender que nossa fé não necessária para que Deus aja. Tudo foi criado por ele antes de existir qualquer coisa. Ninguém precisou ter fé para que Deus criasse todas as coisas.

Ninguém precisa ter fé para que aquilo está determinado em Apocalipse aconteça, por exemplo.

O que Deus determinou vai acontecer, tendo ou não fé. Veja o verso 3 do trecho em questão.

A fé hoje é confundida com o desejo humano de que tudo corra bem. Afinal as pessoas não costumam dizer: “Tenho fé que Jesus vai me dar um emprego melhor”, “Tenho que fé que tudo vai dar certo” ?

Fé não é acreditar que por dar o dízimo, e fazer uma oração antes de sair de casa, seremos protegidos de qualquer mal.

Basta lermos o que diz o livro de Eclesiastes: tudo acontece igualmente a todos. A chuva cai para o justo e injusto. O sol nasce para o justo e injusto também.

O que é fé

Do ponto de vista bíblico, fé é posicionamento no presente e esperança no porvir, pois aguardamos uma pátria melhor, a celestial, conforme trata Hebreus 11, justamente o capítulo sobre os heróis da fé.

Fé é ficar posicionado, mesmo que coisas ruins aconteçam, e vão acontecer com todos, não adianta acharmos que não.

Fé é saber, e experimentar, que posso todas as coisas naquele que me fortalece, inclusive passar necessidade, como nos informa o apóstolo Paulo.

Fé e esperança nunca são comparadas com as coisas dessa vida terrena, mas sempre com o porvir.

Os mártires do cristianismo do primeiro século experimentaram, e viveram essa fé. Eles não se dobravam diante dos imperadores, e morriam crendo na pátria celestial. Posicionamento no presente, e esperança no porvir.

Por isso, há um constante apelo na Bíblia para permanecermos (posicionados) no amor de Jesus, nos seus ensinos, na videira.

Fé é posicionamento no presente, e esperança no porvir, independente do que nos aconteça.

As orações não fazem Deus mudar de idéia

Recentemente escrevi um artigo aqui falando sobre nossas decepções com Deus em relação a orações não atendendidas. E escrevi que aquilo que Deus já determinou, e planejou, não será mudado por causa do nosso clamor.

Se assim fosse, ninguém morreria, ninguém ficaria desempregado, todos ganhariam na loteria. Isso mais parece aquele filme com o Jim Carrey “O Todo Poderoso”.

Muitos me perguntam: “A oração pode fazer Deus mudar de idéia?” Eu creio que não, pois se assim fosse, Deus não teria parâmetros para agir, pois cada um de nós pede quase sempre aquilo que nos agrada, e a oração não é para isso.

Fora quando nossas orações entram em conflito com as de outras pessoas! Quem Deus atenderá?

Então percebam que, se a oração for usada como propósito para fazer Deus mudar de idéia, ou mesmo convencer Deus a fazer algo do nosso agrado, ele ficaria maluco!

A vida cristã é relacionamento com Deus, não uma tentativa de fazê-lo atender nossos pedidos, por mais honestos que sejam. Não é uma tentativa de persuadir a Deus de que nossa intenção é boa, afinal ele conhece nosso mais profundo ser, e sabemos que nem sempre é assim, sejamos honestos.

Não estamos diante de um tribunal divino pleiteando verbas para nosso próprio interesse. Mas, nossa vida cristã tem se parecido muito com isso.

E outra, não fazemos orações apenas de petição, mas parece que a vida cristã, atualmente, se resumiu a isso. Onde estão as orações de louvor? De gratidão? De ação de graças? Onde estão as orações conversa-de-pai-para-filho?

Claro que, em nossos encontros dominicais, podemos ir à frente da igreja e expor nossos pedidos, afinal ele nos ouve. Mas, o que eu proponho aqui é uma mudança de mentalidade com relação ao clamor.

Que as nossas orações sejam, não uma tentativa de fazer Deus mudar de idéia, isso não é possível, pois o que ele planejou será executado; mas sim sejam como as do nosso Senhor Jesus.

Vamos analisar o modelo de oração que ele nos deixou, e ver onde estamos errando em nosso relecionamento com Deus.

Pai nosso que está no céu
Santificado seja teu nome

Jesus começa engrandecendo a Deus pelo que ele é (nosso pai) e declara seu atributo de santidade. Aqui o filho reconhece como é o seu pai, e reconhece sua soberania.

Venha a nós o teu reino e seja feita a tua vontade
Assim na terra como é feita no céu

Nesta parte o filho pede que os valores do reino façam parte da sua vida, e a vontade de seu pai seja plenamente estabelecida. O filho sabe que o pai é soberano, e que nada escapa ao seu controle.

O pão nosso de cada dia nos dá hoje
Perdoa nossas dívidas, assim como perdoamos nossos devedores
Não nos deixe cair em tentação, mas livra-nos do mal

Aqui entra a seção dos pedidos. Notem os pedidos que são feitos. Uma ínfima parte desta oração é para nosso próprio deleite físico e material (o pão de cada dia). Mesmo assim, é um pedido não extravagante, que reflete nossa necessidade e não nossos desejos. O restante da petição é sempre em relação a nosso próximo (perdão das nossas dívidas), e em relação a Deus (não cair em tentação, que leva ao pecado).

Pois teu é o reino, o poder e glória, para sempre.

Nesta parte exercemos nosso papel como adoradores, reconhecendo mais uma vez, toda a soberania de Deus.

Podemos concluir, de acordo com o modelo de oração de Jesus, que apenas 12% de toda a oração é dedicada a nosso próprio interesse.

A maioria da oração modelo de Jesus é direcionada ao reconhecimento da soberania de Deus, nossa adoração a ele, e nossa relação com o próximo.

Os Herodes do século XXI

A Bíblia indiscutivelmente está certa quando nos diz que não há nada de novo debaixo do Sol. Ela nos diz também muito sobre a real condição humana diante de Deus, que não mudou seu caráter ao longo dos séculos.

Fomos criados para o louvor da glória de Deus, e enquanto estivermos fora deste padrão, não estamos na vontade de Deus; que é a nossa santificação.

Quantas desculpas inventamos para nós mesmos, e para os outros, sobre nossa relação com Deus. O buscamos pelas razões erradas, e depois nos queixamos de não termos nossas orações respondidas, ou nos angustiamos por estarmos frustrados e decepcionados com Deus.

Para exemplificar esta relação caráter humano + história + frustração com Deus voltemos à maior farsa jurídica da história: a crucificação de Jesus.

Durante o jogo do empurra-empurra entre Pilatos e Herodes lemos algo curioso sobre Herodes no capítulo 23, verso 8 do Evangelho escrito por Lucas.

Quando Herodes viu Jesus, ficou muito alegre, porque havia muito tempo queria vê-lo. Pelo que ouvira falar dele, esperava vê-lo realizar algum milagre.

Vamos analisar este trecho com cuidado, e chegaremos à conclusão de que as coisas não mudaram muito de lá para cá.

A Bíblia diz que Herodes ficou muito contente quando viu Jesus, pois já queria vê-lo a muito tempo. Desde quando ele havia mandado decapitar João Batista queria saber quem era Jesus, mas nunca tinha tido essa oportunidade. Naquele momento Jesus estava na sua frente e ficou muito alegre por isso!

A fama de Jesus havia chegado até os ouvidos de Herodes, e este queria ver Jesus realizar algum milagre.

Ora, notem que coisa extraordinária! Herodes ficou MUITO alegre por ver Jesus. Mas quais eram suas motivações reais? Qual era a causa da alegria de Herodes por ver Jesus? A fama de Jesus foi a razão da alegria de Herodes. A alegria não vinha pelo fato de Jesus ser o Messias esperado, mas vinha da fama de Jesus.

Outra coisa que nos chama a atenção é que Herodes esperava que Jesus fizesse algum milagre. Lendo o trecho completo, vemos que sequer uma palavra saiu dos lábios de Jesus. Herodes fez muitas perguntas a Jesus,  mas só queria ouvir aquilo que interessava a ele. Herodes nunca pediu para Jesus algo assim: “Mestre, me fale dos seus ensinamentos”. Não! Herodes só queria tirar de Jesus aquilo que fosse útil para ele próprio.

Isso enfureceu a Herodes, que começou a zombar dele, e o mandou de volta a Pilatos.

Isso nos leva de volta àquilo que a Bíblia nos diz sobre a natureza humana, que não muda conforme o tempo.

Quantas pessoas hoje ficam alegres por se encontrar com Jesus? Muitas! E não duvido que realmente se alegrem, pois esperavam por isso a muito tempo! A fama de Jesus chegou aos ouvidos dessas pessoas. E essas mesmas pessoas esperam de Jesus uma única coisa: MILAGRES.

E interrogam, questionam, decretam, declaram, exigem que Jesus lhes responda aquilo que é de interesse delas, e não aquilo que Jesus tem a ensinar realmente.

E o que acontece com essas pessoas quando Jesus não lhes responde nada?

Se enfurecem, de decepcionam, se frustam, pois não era este tipo de Jesus que elas esperavam, mas sim o Jesus de suas conveniências.

Pois é, a natureza humana não muda, e Herodes está bem vivo ainda hoje, no século XXI.

Igrejas ou consultórios psiquiátricos?

Em um mundo a cada dia mais egocêntrico, não é dificil percebermos o quanto isso afeta a Igreja.

Por consequência do estilo de vida em nosso século, as pessoas tendem a olhar para si próprias. E, a igreja, é fatalmente atingida por estes pensamentos hedonistas, prazer e bem estar a todo custo.

Dificilmente vemos uma ênfase à adoração nas pessoas, por mais que digam o contrário, mas, atualmente, a ida a alguma igreja está relacionada a “sentir-se bem”.

Vamos à igreja para nos sentir bem, a comunhão dos irmãos nos faz bem, saímos com a alma leve e o espírito renovado. Tudo bem, isso não é pecado, mas será mesmo essa a real essência da Igreja? Foi para isso que Jesus morreu na cruz? Para que as pessoas se reunissem para sentirem-se bem?

Será que em algum lugar da Bíblia lemos este tipo de coisa?

As pessoas em nossas igrejas, hoje, almejam estar na igreja para que alguém cuide delas, para que dêem atenção a elas. Se esta espectativa não é suprida de alguma maneira, geralmente de uma maneira toda “especial”, para não dizer bizarra, as pessoas saem da igreja.

Ou seja, estão transformando a igreja, de uma comunidade de adoração ao Deus vivo e Santo, em uma comunidade psico-terapêutica.

Não vamos à igreja para nos sentir bem, ou acolhidos, ou amados; vamos à igreja para adorar aquele que nos deu vida, nos salvou e nos regenerou. A ênfase da igreja não está nas pessoas, mas está em Deus!

A partir do momento que nos conscientizarmos disso, que vamos, que estamos, que pertencemos à igreja, e que a ênfase está em nosso Senhor, e não em nós mesmos, passaremos a querer, cada vez mais, amá-lo e adorá-lo. E como consequência, e não finalidade, passaremos a querer ajudar nosso irmão. Passaremos a amar nosso irmão, e querer o melhor para ele.

Mas isso é uma consequência da nossa adoração a Deus na igreja, e não uma finalidade.

Vamos à igreja para servir, e não para ser servido.

Vamos à igreja para adorar, e não para nos sentirmos bem.

Não faz sentido mudarmos de igreja, denominação, comunidade por causa de desavenças, por causa de não nos sentirmos bem. Podemos mudar de igreja se mudamos de localidade, de bairro, município, Estado, País.

Se todos, como consequência de sua adoração a Deus, cuidassem uns dos outros, não teríamos este tipo de problema, e a igreja se tornaria uma comundiade psico-terapêutica, não como uma finalidade, mas como consequência da atitude correta.

Logo, a origem deste tipo de problema, na igreja, é resultado de nosso pensamento egoísta e pecaminoso.

Por isso a Bíblia diz que não devemos levar em consideração nossos próprios interesses, inclusive o de nos sentirmos bem, para considerarmos os outros superiores a nós mesmos (vejam como a Bíblia se completa).

Então, vamos resgatar o real sentido de Igreja: comunidade de adoração, ao invés de comunidade psico-terapêutica, isso é apenas a consequência de nossa adoração a Deus.

Enxergando o verdadeiro milagre

Fazia tempo que eu não escrevia na seção “Filosofia Cristã”, e, nesta última semana, tive bons motivos para deixar mais um pensamento aqui.

Este pensamento diz respeito a uma das mais conhecidas passagens dos evangelhos: Lucas 5:1-11.

Nesta passagem, lemos sobre Jesus, cercado de uma multidão, que subiu em um barco e começou a ensinar o povo.

Notemos que depois do ensino de Jesus, quando ele pede para Pedro voltar ao mar este já o chama de Mestre. Antes disso, no capítulo 4 Pedro já havia se encontrado uma vez com Jesus, na ocasião da cura de sua sogra.

Pois bem, Pedro, obedecendo, já que era Jesus falando, volta ao mar e….MILAGRE! Grandes quantidades de peixes são pescadas, Pedro se prostra aos pés de Jesus, diz ser um pecador, e ele e seus sócios ficam boquiabertos.

Realmente Jesus é maravilhoso, pois concedeu àqueles homens frustrados e famintos comida.

Opa! Espere um pouco!  Será que é realmente isso que devemos apreender do texto? Foi que isso que Lucas quis nos mostrar?

Notem como temos a tendência de observar apenas o sobrenatural, observar apenas o Jesus atacadista comercial, pronto a atender nossas necessidades básicas.

Leia novamente, dessa vez com calma, os versículos 5 a 8, especialmente o 8. O que vemos aqui? Um Pedro contrito e consciente de seu estado de miséria e pecado. Diante do poder de Jesus ele se reconheceu um pecador, e é isso que devemos aprender com Pedro.

O verdadeiro milagre aqui foi começar a transformação de um homem duro, bronco, em um valoroso servo de Deus.

Os peixes eram transitórios, iriam acabar na primeira fritada, e depois? Eles sempre iriam precisar de peixe, e Jesus não estaria mais lá para ser o fornecedor oficial de pescadas.

Agora, o verdadeiro milagre, a chamada (e trasnsformação) dos primeiros discípulos, iria abalar o mundo conhecido de então, dali a alguns anos.

Nós podemos aprender algumas outras coisas.

Já sei! Sempre que quisermos peixe devemos pedir pra Jesus! Hummm..pode ser, mas isso Jesus disse que nos daria de qualquer maneira. Veja lá em Mateus 6 depois.

O que devemos aprender é que quando estamos diante de Jesus, e conhecemos seu poder, não há como não ver em nós mesmos nossa miséria e pecado.

Não há como conhecer a Jesus, e não sofrermos uma transformação.

E principalmente, não há como conhecer Jesus e não largar até o que é mais precioso para nós, para o seguir. Notem como largaram tudo depois que os barcos foram atracados de novo.

Pedro nos dá uma importante lição aqui. E antes de termos a atitude de Jesus, creio que devemos ter a mesma atitude de Pedro: nos reconhecermos pecadores.

Este é o primeiro passo. Este é o verdadeiro milagre.

Diante disso, devemos estar mais atentos às lições e os verdadeiros milagres que a Bíblia registra. Afinal, o apóstolo João nos diz que estes sinais foram deixados apenas para que creiamos em Jesus, e crendo nele, tenhamos a vida eterna (João 20:30-31).

Logo, o milagre nunca foi um fim em si mesmo. A Bíblia diz que Jesus veio buscar e salvar o que se havia perdido.

Quando o clamor não resolve.

Muitos, durante sua caminhada na fé, ficam desapontados com Deus. Esta decepção vem do fato de, muitas vezes, não estarmos conectados à vontade de Deus. Queremos fazer da nossa vontade, a vontade dele.

Será que nossa oração, nosso clamor podem fazer Deus mudar de idéia? Será que aquilo já estava pré-determinado por ele mudará em face do nosso clamor?

Creio que a razão de Deus ouvir nossos clamores, é que, de alguma forma,  conseguimos captar sua vontade plena para determinado acontecimento ou circunstância. O inverso também é verdadeiro – Deus não nos ouve de forma alguma quando o que pedimos está contra a sua vontade, ou aquilo que Ele mesmo já determinou.

Veja o caso de Jeremias, nosso profeta chorão.

Deus já havia determinado destruir Judá em consequência de seus pecados. E antes mesmo que Jeremias gastasse saliva à toa, Deus o advertiu:

Jer. 7:16 – Tu, pois, não ores por este povo, nem levantes por ele clamor ou oração, nem me supliques, porque eu não te ouvirei.

Deus foi absolutamente claro aqui. Não ore, pois não vou ouvir. E todos sabemos o que aconteceu com Judá. Deus já havia planejado o cativeiro, era necessário que isso acontecesse.

Diante disso, me pergunto se realmente Deus ouvirá alguma oração do tipo:

“Deus, em nome de Jesus te peço que não permitas que aconteceçam terremotos, que não aconteçam catástrofes, que não aconteçam guerras…”

Segundo a Bíblia, esta é mais uma oração que Deus não ouvirá, vejam em Marcos 13:7

Outras orações que tampouco serão ouvidas:

“Que o anticristo não se levante contra o Senhor” – “Que o diabo se converta”

Claro que colocadas dessa forma chegamos à conclusão que estas orações beiram o absurdo. Mas quantas orações absurdas não são feitas hoje em dia?! Quantas orações que estão fora do propósito eterno de Deus.

Logo, para não ficarmos frustrados e decepcionados, estejamos todos os dias no centro da vontade de Deus (não na nossa), e procuremos saber, a cada dia, qual é a vontade dele para nós.

Desta forma oraremos sempre como Jesus: “Contudo, que não se faça a minha vontade, mas a sua”.

O que torna Deus um Ser confiável?

O mundo evangélico atual, nos últimos tempos, adotou um novo slogan:  “Deus está no controle”

Mas com base em que nós falamos isso?

Por que, sempre que oramos, dizemos a Deus:  “Deus, eu confio em ti!”. Por que chegamos diante de Deus com nossas súplicas e orações? Alguns responderiam: “Eu confio em Deus”. Poderíamos dizer que a Bíblia nos autoriza a buscar a Deus;  existe a questão da fé;  e ainda poderíamos citar o amor de Deus.  São todos excelentes motivos para confiarmos em Deus, claro.

Não trataremos de todos estes aspectos hoje, mas trataremos de um específico. Um atributo, uma qualidade de Deus, que o diferencia de nós, seres humanos. Diferencia Deus de tudo o que veio antes, de tudo que existe hoje, e diferencia de tudo que virá depois.

Nós vamos pensar e tratar um pouco sobre a imutabilidade de Deus. Porque Deus não muda, e é por isso que eu posso confiar nele.

E nós vamos aprender porque podemos confiar em Deus:

Salmos 33:11 – Desígnios por todas as gerações.

O Salmo trinta e três é a base da nossa confiança em Deus, pois é exatamente disto que o salmista vai tratar com Deus. Ele colocava sua confiança em Deus, justamente porque Deus não mudava.

No versículo dez, para entendermos o contexto, vai dizer o seguinte: O SENHOR acaba com os planos das nações, ele não deixa que eles se realizem.  Na época de Davi, temos de lembrar que existiam muitas guerras. De um lado eram os filisteus, depois vinham os amorreus, e quando não eram os filisteus nem amorreus eram outros eus. Porém, o salmista sabia que estas nações podiam fazer seus planos de guerras e ataques, mas Deus frustraria estes planos, por causa da promessa que havia feito aos seus antepassados, Abraão, Isaque e Jacó. Aquilo que Deus planejara duraria para sempre!

Isaías 41:4 – Deus estava no começo e estará no final de tudo.

Notem que Isaías, neste trecho, também fala de guerra. Quem foi que fez com que este rei viesse para cá? Quem foi que fez com a guerra acontecesse? E no versículo quatro temos a resposta: Fui eu, o Senhor, que fez com que tudo isto acontecesse!

Deus pode ser pego de surpresa? Existe alguma coisa que aconteça em nosso planeta, ou que já tenha acontecido que pegou Deus desprevenido alguma vez? A segunda guerra mundial pegou Deus desprevenido? Esta crise econômica pegou Deus desprevenido?

Efésios 3:11 – Propósito eterno de Deus.

Vejam que, novamente, a Bíblia fala de um propósito eterno de Deus! Este propósito eterno foi realizado por meio de Cristo. A crucificação de Jesus foi um acidente? Claro que não! Chega a ser cômica, estas discussões acadêmicas sobre quem matou Jesus, não? Foram os judeus, ou foram os romanos? Do ponto de vista de Deus, tanto os judeus, quanto os romanos, foram apenas instrumentos de Deus, para que seu propósito eterno se cumprisse. Logo, não importa quem matou Jesus. O importante é que o propósito eterno de Deus se cumpriu! E vemos este propósito eterno lá em Gênesis. Antes que o mundo viesse a existir, Deus já havia planejado a crucificação. Mais uma vez constatamos que aquilo que Deus planeja dura para sempre.

Gênesis: 15:13 – Escravidão do povo no Egito predita por Deus a Abrão.

Em Gênesis lemos algo muito interessante, sobre o planejamento de Deus para a descendência de Abraão. Este texto vai nos confirmar que os planos de Deus duram para sempre, e se cumprem!

Aqui, neste ponto da história, Deus ainda nem havia mudado o nome de Abrão para Abraão, e faltavam ainda muitos anos para que Deus desse um filho a ele. Porém, Deus já havia predito que sua descendência seria escravizada no Egito! Deus apenas “sabia” da escravidão, ou havia planejado isso, para que seus propósitos se cumprissem?

Isto nos traz à memória a história de José, não? E geralmente pensamos: “Pobrezinho do José, vendido como escravo! Pobrezinho de José foi parar na prisão injustamente!” Porém, nos esquecemos de que todos estes acontecimentos, já estavam planejados por Deus. Nada do que aconteceu com José foi um acidente, ou mesmo malvadeza de seus irmãos. Nada do que aconteceu com José fez Deus mudar seus planos. Pelo contrário, o que aconteceu com José foi plano de Deus!

Apocalipse 10:5-7 – Deus cumprirá o seu plano secreto, como anunciou aos seus servos, os profetas.

Novamente lemos sobre o plano de Deus, que será cumprido. Os fatos de Apocalipse, já aconteceram? Claro que não, certo? Estamos esperando os eventos de Apocalipse acontecerem. Porém, a maioria dos fatos citados neste livro, está no presente! O que isso significa? Significa que, embora, para nós, não tenha ainda chegado o tempo, para Deus, estes fatos já aconteceram, está tudo planejado!

Deus não está no mesmo tempo que nós. Deus não está vivendo no ano de dois mil e nove, como nós estamos. Não está condicionado ao nosso tempo, pois foi Ele mesmo quem criou o tempo, e já tem todas as coisas planejadas. Para Deus, o Apocalipse é uma realidade, mesmo que para nós ainda não tenha acontecido.

Sua salvação foi planejada por Deus, desde a criação do mundo. Ora, se o dom mais precioso de Deus para você, Ele o planejou na criação, coloque sua confiança nele, pois o que Ele planeja dura para sempre, e os planos do Senhor não mudam.

Compartilhando a fé a partir da doutrina da Criação – Conclusão

Analisando toda a história, tudo o que já foi escrito sobre a revelação natural de Deus, fica claro que não podemos conhecer plenamente a Deus apenas por meio da natureza.

O verdadeiro conhecimento de Deus só pode vir através de sua revelação pessoal a nós, por meio do seu Espírito Santo que nos convence do pecado, da justiça e do juízo.

Contudo, Deus em sua misericórdia, nos deixou algumas “pistas” de sua existência na natureza, e também dentro de nós. O conhecimento natural de Deus se realiza a partir do momento que cria um ponto de contato, uma ponte, para que as pessoas percebam que Deus existe, como um ser pessoal, criador e sustentador de todas as coisas.

Compartilhando a fé a partir da doutrina da Criação – Parte IV

Antes de prosseguimos, devemos estabelecer alguns conceitos sobre o que são pontos de contato.

Ponto de contato é o ponto de partida, dado por Deus, onde podemos construir “pontes” entre os indivíduos e o evangelho. Ou seja, não cabe a nós provarmos nada, pois Deus mesmo é quem realiza todas as coisas. Devemos apenas estabelecer uma ligação entre estes pontos que Deus fundamentou e os corações que ainda não conhecem sua graça e seu amor.

A criação, por Deus, é um destes pontos de contato. Agora que já definimos a criação a partir do nada – ex nihilo, que Ele deve ser adorado, ao invés de sua criação, e que ainda, Ele é o governador e sustentador de todas as coisas, podemos usar a criação como um ponto de contato para compartilhar a fé cristã.

O primeiro grande ponto que lemos na Bíblia é que Deus criou todas as coisas. Logo, seria esperado que toda a criação carregasse um pouco da marca de Deus.

Leibniz, em seu Discurso de Metafísica, diz que toda pessoa ou substância é como um pequeno mundo, que expressa o grande. O mesmo se pode dizer da ação extraordinária de Deus sobre esta substância, não deixa de ser miraculosa, pois está compreendida na ordem geral do universo. O universo está multiplicado de certo modo por tantas vezes quantas substâncias existem e a glória de Deus está redobrada por outras tantas representações diferentes de sua obra. Leibniz acreditava que as obras de Deus carregavam um pouco de sua própria essência.

Kant parecia creditar à intuição todo o conhecimento. Para ele, a intuição dependia da presença do objeto. Podemos dizer que toda a criação de Deus carrega seu testemunho, logo teríamos a presença do objeto em nossa intuição. Neste caso temos uma intuição empírica, pois segundo Kant, só podemos saber o que está contido no objeto se o mesmo estiver presente.

Por meio da graça de Deus, a criação aponta para seu Criador. Foi nos deixado uma memória intrínseca de Deus. Embora exista uma quebra entre o ideal, aquilo que Deus tinha em mente, e o empírico – real, a memória deste ligamento permanece viva.

Agostinho diz que Deus pode estar em todas as partes, sem que nada possa contê-lo realmente,  e que nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em Deus o descanso.

Esta é a lembrança que permanece em nós, que vem da criação de todas as coisas, a qual perdemos parcialmente por causa do pecado. E é justamente neste ponto onde ouvimos muitos testemunhos sobre o “vazio interior” que algumas pessoas relatam em sua conversão.

A criação é como uma placa de sinalização, que não aponta para si mesma, mas para uma direção específica, no caso, para Deus, o Criador. Porém deve-se tomar cuidado para não interpretar a natureza, criada por Deus, como tudo o que dele pode ser conhecido.

A Teologia Natural, se entendida incorretamente, pode representar uma tentativa da busca do homem por Deus. E neste caso haveria a inversão do que a Bíblia nos transmite, que é Deus quem se revela por meio da natureza a nós.

Karl Barth, em sua Epístola aos Romanos, diz que é apenas Deus, por Ele mesmo que é a resposta de sua revelação. Nosso saber está muito longe e distante do que é possível conhecer de Deus, por nossa própria iniciativa.

Não é possível, apenas olhando a natureza, conhecer a Deus plenamente, esta idéia é irreal e não condiz com que as Escrituras nos ensinam. O cristianismo não é a busca do homem por Deus, e sim, a busca de Deus pelo homem.

Compartilhando a fé a partir da doutrina da Criação – Parte III

A primeira questão importante a ser tratada é a distinção entre Criador e criatura. Desde a antiguidade, tem havido a tentação de adorar as coisas criadas, em detrimento de seu Criador. Paulo, em sua carta aos romanos, trata deste assunto kologo no primeiro capítulo. Paulo nos diz que Deus criou o mundo, e, portanto seus atributos estão visíveis e os homens são tolos por adorarem as coisas criadas, ao invés de Deus, o Criador.

Agostinho, em suas confissões, usa este argumento contra os maniqueístas. Diz Agostinho, que eles, os maniqueístas não conheceram o Verbo, Jesus, pela qual todas as coisas foram feitas. Apesar de dizerem verdades sobre as criaturas, não procuraram o Autor da criação. E mesmo que o tivessem encontrado, como Deus, não o honraram como Deus, nem lhe deram graças, e ainda, mudaram a verdade de Deus em mentira, e serviram à criatura, ao invés do Criador.

Calvino, em suas Institutas, diz que os homens em seus louvores à natureza, suprimem o nome de Deus tanto quanto é possível. Também chama de profano, e destituído de consciência, aqueles que pensam que o universo é animado por uma inspiração secreta. Nos diz ainda que o universo foi criado para a glória de Deus, que é o seu Criador.

Mesmo crendo na natureza inerentemente pecaminosa da humanidade, Calvino não desqualifica a criação de Deus. Ou seja, mesmo destruída pelo pecado, a criação continua sendo para glória dele, e por isso deve ser valorizada.

Outra questão importante a ser considerada na doutrina da criação é a autoridade de Deus sobre todas as coisas criadas. Então, desta forma, os seres humanos são considerados parte desta criação, e sujeitos ao governo de Deus, com funções especiais. Com esta idéia bem clara, temos que o homem não é, e nem pode ser proprietário de nada; porém, está posto como um administrador, representando Deus.

Calvino, nesta questão, nos diz que Deus além de ter criado todas as coisas, é também levado a preservá-las, e que podemos achar na bondade de Deus a causa desta criação e preservação. Os louvores pertencem a Deus e ocorrem do testemunho da própria natureza.

Ainda sobre o governo e sustentação do mundo por Deus, diz-nos a Bíblia que Cristo sustenta todas as coisas pelo poder de sua palavra. Esta não é uma imagem de Cristo, como Atlas, que carregava o mundo em seus ombros; mas, Cristo conduz o mundo através dos tempos. Há um destino para a criação, e o propósito de Cristo é levar o mundo a este ponto.