Compartilhando a fé a partir da doutrina da Criação – Parte II

Toda a narrativa sobre a criação do mundo, por Deus, se encontra no Antigo Testamento.

Nos onze primeiros capítulos do livro de Gênesis, o palco de toda a história humana é preparado. Eles são a chave para entendermos todo o restante da Bíblia. A razão de o homem ter pecado, a necessidade de redenção que o homem tem, e a maneira que Deus conduziu toda a história, até chegar em Jesus; e daí para adiante nossa esperança de vida eterna.

Somos informados que Deus é o Criador e Sustentador de todo o universo. Porém, há uma importante distinção a ser feita aqui. A natureza criada por Deus não é divina, ou seja, os corpos celestes e os elementos de nosso planeta não devem ser adorados como deuses.  No mundo antigo era muito comum o fato das pessoas adorarem o sol, a lua e as estrelas.  O Antigo Testamento destaca o fato de que estes elementos são subordinados a Deus e não possuem uma natureza intrinsecamente divina.

Outra distinção importante que o Antigo Testamento faz é que tudo foi criado ex nihilo (“a partir do nada”). Quando houve a expansão do cristianismo, nos séculos I e II, houve o choque com o pensamento grego sobre a criação do mundo. Platão, em um dos seus diálogos (Timeu), apresenta a idéia de que o mundo foi criado, porém a partir de alguma matéria preexistente. No caso, Platão apresenta a idéia de um artífice, que ele chamou de demiurgo, que deu forma a uma matéria prima (chamada causa errante) tomada do modelo do mundo das idéias. Este ser divino produziu as obras da natureza e as imagens dessas obras.

Esta idéia foi posteriormente incorporada nos escritos dos gnósticos e também em alguns teólogos cristãos, como Justino Mártir. Ele, antes de se converter à fé cristã, foi um seguidor de Platão, e abordou a concepção da preexistência da matéria, que teria sido transformada no ato da criação.

Porém, algum tempo depois, em virtude da associação deste pensamento com o gnosticismo, e da leitura mais profunda das Escrituras, muitos dos principais autores cristãos dos séculos I e II defenderam a idéia da criação de Deus a partir do nada. Segundo eles, não havia nenhum tipo de matéria preexistente.

Irineu, um destes autores, refuta esta idéia em seu livro “Contra as Heresias – Volume II”. Diz-nos Irineu, que havia aqueles que não acreditavam que Deus em seu prazer e vontade própria criou todas as coisas do nada, daquilo que antes não existia. E chama de hereges os que assim crêem.

Tertuliano, no capítulo XVII de sua Obra “Apologia”, destaca que o poder da palavra de Deus e sua sabedoria ordenadora criaram todas as matérias do nada, para a sua glória. Segundo Tertuliano, a existência de todas as coisas dependia de Deus e era mantida por Deus, contrastando com a “teologia” aristotélica de que o universo não foi criado, pois sempre foi preexistente; e contrastando também com a idéia de imobilidade do “primeiro motor”, o ato-puro.

Porém, nem todos os teólogos da antiguidade adotaram esta posição sobre a doutrina da criação. Orígenes, um dos maiores escritores cristãos do século II, continuou a defender a teoria platônica da matéria preexistente.

O fato é que ao final do século IV, todos os grandes teólogos já haviam abandonado a idéia platônica da criação por meio da matéria preexistente, inclusive as abordadas por Orígenes. O Credo de Niceia, realizado em 325, começava abordando a criação como obra de Deus, tanto as coisas visíveis como as invisíveis, deixando bem clara a posição da Igreja quanto a esta doutrina.

Compartilhando a fé a partir da doutrina da Criação – Parte I

Sabemos que, quem realmente convence de todo pecado, justiça e juízo é o Espírito Santo. Não há a menor pretensão de querer convencer as pessoas sobre a fé cristã, do ponto de vista puramente humano; porém, como o apóstolo Pedro ensina, temos de estar preparados para responder com mansidão e temor a razão da esperança que há em nós.

A fé não é regida apenas por sentimentos, mas também por crenças e fatos. A apologia cuida para que esta crença tenha uma base intelectual sólida. Crer em Jesus não significa apenas amá-lo ou adorá-lo, mas também saber certas coisas bem definidas a seu respeito, e estas coisas justificam e fundamentam o amor e a adoração a Ele.

A Bíblia nos fornece o panorama do que Deus traçou para a raça humana. O fim de todas as eras já está escrito, então se não considerarmos o relato da criação de Deus algo verídico, onde o restante da história estaria fundado? Lemos que o Cordeiro de Deus já havia sido morto antes da fundação do mundo. Desta forma, tudo o que foi criado serve de pano de fundo para a vinda do Cordeiro, para nossa redenção, e em última análise, para demonstração da glória de Deus. Logo, a criação serve como fundamento para criarmos um ponto de contato com aqueles que ainda não possuem a fé cristã.

Este trabalho não pretende ser um tratado exaustivo sobre apologética, nem tampouco uma tese sobre o criacionismo. O objetivo é usar o conhecimento que a Bíblia nos dá, aliado ao conhecimento filosófico histórico para demonstrar, com a criação, que a fé em Deus, como Criador e Sustentador de todas as coisas, não precisa ser considerada irracional ou ilógica.