Saudações iniciais – v.1-3

Paulo começa esta carta destacando sua prisão e seus companheiros de lutas pelo evangelho. Timóteo, como em várias outras cartas, é colocado ao lado de Paulo. Isso nos remete à necessidade que temos da comunhão e ajuda de nossos irmãos, pois batalhamos pelo mesmo Senhor.

O próprio Filemon, é colocado como colaborador de Paulo. Pelas outras indicações de Paulo na carta, sabemos que eles estiveram juntos algumas outras vezes, e Paulo destaca seu valoroso trabalho a seu lado.

Ninguém pode fazer nada sozinho, precisamos uns dos outros, e todos nós precisamos de Jesus, do qual Paulo era prisioneiro. Paulo não havia feito nada de errado, nenhum crime ele havia cometido. Ele estava preso por pregar a Jesus. Paulo amou tanto a seu Senhor, que se considerou um escravo, considerou sua própria vida como nada, para que o evangelho pudesse ser espalhado. E suportou os sofrimentos de sua escolha, de doar-se totalmente a Jesus, com alegria.

Paulo, em geral, sempre começa suas cartas saudando seus destinatários com a graça e paz de Deus. A princípio tendemos a desconsiderar estas palavras, ou lê-las sem a devida importância que encerram.

Devemos considerar duas coisas importantes ao lermos esta saudação de Paulo: a igreja estava em um período de perseguição e Paulo estava preso.

A igreja, vivendo em um momento de perseguição, carecia da graça e da paz que só o Senhor poderia lhes dar. Isso nos remete imediatamente às palavras de Jesus de que no mundo teríamos aflições, e que ele nos daria sua paz; mas não como o mundo a dava. A igreja poderia, mesmo nos momentos de perseguição, experimentar a paz de Deus, que excede todo o entendimento humano. É uma paz que não está vinculada aos acontecimentos externos, pois esta é uma paz aparente, não verdadeira. A paz que vem das circunstâncias é uma paz passageira, pois nem sempre as coisas correm a nosso favor. Porém a paz que vem de Deus é uma paz duradoura, pois sabemos da nossa esperança e destino.

O segundo aspecto que devemos considerar é o da prisão de Paulo. Como já foi abordado anteriormente neste trabalho, Paulo estava preso quando escreveu esta carta. E mesmo na prisão, ele saúda seus amigos com a graça e paz de Deus. Paulo já havia passado por diversas tribulações, assim como bons momentos, como ele mesmo nos relata, e sempre desejava graça e paz a seus irmãos. Paulo sabia por experiência de vida que a paz de Deus independe das circunstâncias, e só alguém que experimentara realmente essa graça e paz, poderia dá-la da maneira que Paulo fazia.

Contexto histórico

A carta a Filemon é uma das que foram escritas enquanto Paulo esteve preso em Roma, por volta do ano 60.

Paulo escrevera esta carta a seu amigo Filemon para interceder em favor de Onésimo, seu escravo.

Na carta aos colossences, que também foi escrita durante a prisão de Paulo em Roma, no capítulo 4 verso 9, Paulo diz que Onésimo, era um deles, colossences. Sendo Onésimo escravo de Filemon, logo concluímos que Filemon residia em Colossos, e a igreja descrita reunida em sua casa era a igreja de colossos.

À época não existiam ainda os templos para as reniões das igrejas, logo, as reuniões eram realizadas nas casas dos membros pertencentes a estas comunidades.

Provavelmente, por ter escravos, Filemon era um cristão de muitas posses, e portanto, proprietário talvez de uma casa grande, onde era possível acomodar bastante gente com um relativo conforto. Quando a igreja crescia, e apenas uma casa já não comportava seus membros, outras casas eram usadas. Daí a expressão “igreja nas casas”.

Além do mais, nesta época, a igreja estava sob perseguição, e a reunião em templos, como a temos hoje, não era possível.

Filemon era um cristão convertido de Paulo, conforme podemos notar pela expressão “para não te dizer que ainda a ti mesmo a mim te deves”. Filemon era fruto provevelmente dos 3 anos que Paulo passou em Éfeso, e pelo teor cortêz e amável da carta, ele e Paulo eram amigos íntimos.

Parece que Onésimo havia roubado algum dinheiro de Filemon e fugido para Roma. Talvez depois, quando o dinheiro acabou, tenha ido procurar Paulo. Não é provável que tenha encontrado Paulo por acaso, já que Roma era uma cidade cosmopolita com milhares de habitantes.

Onésimo conhecia a Paulo da casa de seu senhor, Filemon, e pensou que talvez ele o pudesse ajudar. Uma vez em contato com Paulo, este o evangelizou, e Onésimo se converteu. Os versos 10 e 16 nos ajudam a entender que provavelmente, à época de sua fuga, Onésimo não era cristão, e após este encontro com Paulo, sua vida é transformada.

Uma vez que Onésimo havia se convertido, Paulo o persuade a agir como um cristão: voltando para o seu senhor, levando consigo esta carta para Filemon.

Devemos considerar que, para a sociedade da época, a escravidão era tida como normal. Os escravos eram considerados em geral, não como seres humanos, mas sim como um bem de consumo ou produção, tal qual uma carroça, ou cavalo. Porém a literatura parece desmentir alguns fatos sobre a crueldade para com os escravos no mundo antigo, especialmente o romano. Existem diversos casos sobre o tratamento bondoso dos senhores romanos aos seus escravos.

Na carta, Paulo pede que Filemon receba Onésimo como um irmão amado e como se estivesse recebendo a ele próprio. Paulo intercede dessa maneira pois, naquela época, era permitido aos senhores açoitar escravos fugitivos, e provavelmente tirar a vida dos que tivessem roubado alguma coisa.

Paulo, no verso 11, diz para Filemon que Onésimo será muito útil a ele agora. Pode ser um trocadilho com o significado do nome “Onésimos“, derivado do verbo “oninemi“, que significa tornar-se útil.

Introdução

O presente trabalho tem por objetivo a interpretação hermenêutica da carta do apóstolo Paulo a seu amigo Filemon.

O contexto histórico será de suma importância neste trabalho para uma aplicação correta e relevante à Igreja atual. Se desconsiderado este contexto não poderemos realmente saber quais os ensinos e princípios que Paulo quis mostrar a Filemon.

Uma vez descoberto qual o verdadeiro sentido desta carta a seu destinatário, poderemos também aplicá-lo para a Igreja de hoje.

Antes de fazer sentido a nós no século XXI, esta carta deve ter tido sentido no século I, e isto não pode ser desprezado.

Será mesmo que Paulo estava se referindo apenas à escravidão de Onésimo em relação a Filemon? A Bíblia apóia a escravidão, uma vez que Paulo pediu para Onésimo retornar à casa de Filemon?

Estas perguntas serão respondidas incorretamente se as questões históricas forem desprezadas, e não poderemos jamais tirar os ensinamentos que Deus quis deixar à sua Igreja. Sendo a Bíblia toda inspirada por Deus, e inerrante, podemos concluir que há algum ensinamento para nós, hoje, nesta carta.

A gramática é outro aspecto importante da interpretação. Para abstrairmos os ensinamentos e princípios que Deus nos deixou devemos considerar as palavras, períodos e expressões em seu contexto imediato, e no contexto da própria carta, pois devemos ter em mente as intenções do autor quando escreveu a carta.

Tomando como pressuposto que a Bíblia não se contradiz, deveremos examinar o contexto bíblico integral para que os ensinos deixados por Deus nesta carta sejam relevantes para nós hoje.

À medida do possível recorreremos também às línguas originais para descobrirmos o significado de alguma palavra, para desta forma determinarmos o sentido dela nos dias atuais.