A nova condição de Onésimo – v. 15-16

Paulo não esconde o erro de Onésimo, segundo as leis romanas, mas ressalta que agora ele é um irmão em Cristo, e isso está acima de qualquer lei humana.

Onésimo havia aceitado voltar para seu senhor demonstrando estar arrependido pelo que fizera, resultado da graça de Deus em sua vida. O encontro com Jesus sempre nos transforma e gera atitudes práticas, e nos ensina que devemos aceitar as consequências pelos nossos erros, por pior que sejam. Paulo poderia ter dito a Onésimo seguir para outro caminho, mas isso não condiziria com sua nova vida em Jesus, e persuadiu, antes de tudo, que ele voltasse e reparece seu erro diante de Filemon.

Paulo ensina a Filemon, e consequentemente à igreja de Colossos, já que esta se reunia em sua casa, que o amor entre irmãos em Cristo está muito acima da escravidão. Em Cristo todos são iguais, não importa o que a lei dos homens diga.

Da mesma forma como ele, Paulo, havia recebido um escravo como irmão em Cristo, Filemon deveria seguir este exemplo.

O envio de Onésimo – v. 12-14

Paulo está pesaroso de mandar Onésimo de volta, pois ele lhe fora muito útil na prisão. Onésimo havia fugido de seu senhor, para uma suposta vida de liberdade. Porém, depois de sua conversão Onésimo não se importou em ficar com Paulo, antes abriu mão de sua própria liberdade, ainda que contra as normas, para ajudá-lo. Onésimo havia aprendido que somos servos uns dos outros, e agora estava pronto a servir Filemon como se estivesse servindo ao próprio Jesus.

Paulo, mais uma vez, ressalta sua prisão por causa do evangelho, mas em nenhum momento diz isso com pesar ou tristeza.

Parece que Paulo deseja ficar com Onésimo, pois este lhe tem sido muito útil, mas, segundo as leis da época, Onésimo pertence a Filemon, e Paulo não podia fazer isso de forma alguma, por isso o manda de volta.

Paulo aqui não vai contra as leis civis sobre a escravidão, pois este não é a razão de sua carta. Pelo contrário, Paulo sempre demonstra submissão às leis civis da época, desde que não entrem em conflito com as leis de Deus. Paulo está muito mais preocupado com o relacionamento cristão entre os irmãos do que com as questões civis. Porém isso não deve ser tratado como uma aprovação de Paulo à escravidão, ele apenas não tratou destes assuntos seculares por achar que o amor entre os irmãos é superior a estas questões.

O pedido a Filemon – v. 10-11

Finalmente Paulo entra no motivo de sua carta a Filemon. Tudo, até aqui, serviu como um preâmbulo, uma preparação, para este pedido em favor de Onésimo.

Paulo trata Onésimo como seu próprio filho. Este era um tratamento que Paulo aplicava sobre seus discípulos. Havia feito o mesmo com Timóteo, e agora, com Onésimo, demonstra o mesmo amor de um pai para com seu filho.

Paulo se entregava inteiramente ao seu ministério de discipulado a ponto de considerar seus discípulos como filhos. Já que Paulo não havia se casado, nem tido filhos, considerava aqueles que Deus lhes dava, tanto cooperadores como discípulos, como sua família, a família da fé.

Outro ponto que merece destaque é que o evangelho havia surtido um efeito tão grande na vida de Onésimo, que ele passaria a ser muito útil a Filemon. Entre outras coisas, o evangelho nos ensina a fazermos todas as coisas como se estivéssemos fazendo para o Senhor. Paulo confia tanto neste evangelho, que é o poder de Deus para transformar as pessoas, que recomenda Onésimo para Filemon, afirmando que sua postura vai mudar, de inútil para útil, pois ele mesmo experimentara isso de Onésimo.

O amor antes da autoridade – v. 8-9

Paulo havia recebdio do próprio Jesus autoridade apostólica, como ele mesmo o defendeu em outras ocasiões. Porém aqui, neste caso, ele abre mão de suas prerrogativas apostólicas e faz um preâmbulo para seu pedido baseado no amor cristão que tinham um pelo outro. Nem sempre o uso da autoridade eclesiástica se faz necessário, porém o amor cristão entre os irmãos deve ser a regra de conduta. Antes de usar a autoridade, devemos agir em nome de nosso mútuo amor.

Para reforçar seu pedido, Paulo lembra a Filemon sua situação por causa do evangelho.

Testemunho de Paulo sobre Filemon – v. 7

Mais uma vez Paulo testemunha sobre o amor de Filmeon para com o povo de Deus. E mais uma vez Paulo fica contente por isso, pois tem a consciência de que a Igreja de Jesus é um só corpo, uma família. E quando um de seus membros ajuda os outros, todo o corpo se beneficia. Paulo estava muito longe, em Roma, mas pôde sentir alegria, pois como ele havia falado antes, estavam unidos pela mesma fé.

Paulo não apenas fica contente, como também é encorajado e consolado pelo ato de amor de Filemon para com seus irmãos. Logo, nossa fé posta em prática reflete não apenas na pessoa diretamente, mas o testemunho da fé prática se reflete em todo o corpo.

O entendimento das bênçãos recebidas – v.6

Eles estavam unidos uns aos outros pela fé em comum em Jesus. Paulo faz menção sobre sermos um só corpo, por estarmos unidos por esta fé, uma fé viva, que produz resultados em nossa alma, quando nos alegramos; e também produz resultados na sociedade, quando irmãos em necessidade são ajudados por outros em melhores condições. Enquanto estivermos neste mundo, sempre haverá desigualdade social, e cabe aos irmãos na fé ajudarem-se mutuamente, para que esta diferença não seja tão grande.

Paulo fala sobre a necessidade que temos de conhecer profundamente as bençãos que temos recebido. E diz para pedirmos esta compreensão a Deus, pois, por nós mesmos, jamais teremos ciência de todas as bençãos que Deus já nos tem dado.

Ele se refere tanto a si mesmo, como ao próprio Filemon, pois este era um homem rico, mas Paulo não tinha muitos recursos. Passava necessidade constantemente.

Porém, o entendimento que Paulo pede vai além das bençãos materiais apenas.

O fato de Paulo enfatizar esta compreensão, de forma profunda, indica que não devemos ter em conta apenas bênçãos materiais, como Paulo destaca em outras cartas. A igreja, na época, não tinha muitos recursos e estavam, como já foi destacado, sob perseguição. Isso fazia com que o sentimento de pertencerem à mesma família se intensificasse. Basta lermos a última expressão que Paulo usa neste parágrafo: “por estarmos unidos com Cristo”. O fato de paulo estar em Roma, e Filemon em Colossos, não diminuiu o sentimento de Paulo com relação à Igreja de Jesus.

Além do mais, Paulo continua a introdução de seu apelo a Filemon de maneira progressiva.

No parágrafo anterior começou seu apelo elogiando o amor de Filemon por seus irmãos, já preparando seu estado psicológico para receber Onésimo, com o mesmo amor que tem demonstrado a seus irmãos.

Aqui, Paulo continua introduzindo seu apelo, argumentando que estavam unidos com Cristo, e como ele demonstrará mais à frente, Onésimo agora também estava unido com Cristo, fazendo parte desta mesma família.

Agradecimento pelo testemunho de Filemon – v. 4-5

A intercessão era uma característica marcante de Paulo. Ele sabia que esta era uma arma poderosa em nossa luta. Outro fato que devemos considerar é que Paulo sempre animava seus discípulos e irmãos e agradecia a Deus quando ouvia algo de bom sobre eles.

O fato de fazermos boas obras evidencia a ação do Espírito Santo em nossa vida, sem o qual jamais poderíamos realizar nada. É por meio dele e para ele que fazemos boas obras, por isso todo louvor e agradecimentos devem ser dados a Deus.

Neste trecho lemos sobre o bom testemunho que Filemon dava, e sobre como todo povo de Deus era abençoado por sua vida. Mesmo em um tempo onde as comunicações não eram tão rápidas como hoje, este testemunho chegou até Paulo e serviu para animá-lo bastante, já que estava na prisão. A fé que Filemon tinha em Jesus foi traduzida em boas obras para com seus irmãos na fé.

Saudações iniciais – v.1-3

Paulo começa esta carta destacando sua prisão e seus companheiros de lutas pelo evangelho. Timóteo, como em várias outras cartas, é colocado ao lado de Paulo. Isso nos remete à necessidade que temos da comunhão e ajuda de nossos irmãos, pois batalhamos pelo mesmo Senhor.

O próprio Filemon, é colocado como colaborador de Paulo. Pelas outras indicações de Paulo na carta, sabemos que eles estiveram juntos algumas outras vezes, e Paulo destaca seu valoroso trabalho a seu lado.

Ninguém pode fazer nada sozinho, precisamos uns dos outros, e todos nós precisamos de Jesus, do qual Paulo era prisioneiro. Paulo não havia feito nada de errado, nenhum crime ele havia cometido. Ele estava preso por pregar a Jesus. Paulo amou tanto a seu Senhor, que se considerou um escravo, considerou sua própria vida como nada, para que o evangelho pudesse ser espalhado. E suportou os sofrimentos de sua escolha, de doar-se totalmente a Jesus, com alegria.

Paulo, em geral, sempre começa suas cartas saudando seus destinatários com a graça e paz de Deus. A princípio tendemos a desconsiderar estas palavras, ou lê-las sem a devida importância que encerram.

Devemos considerar duas coisas importantes ao lermos esta saudação de Paulo: a igreja estava em um período de perseguição e Paulo estava preso.

A igreja, vivendo em um momento de perseguição, carecia da graça e da paz que só o Senhor poderia lhes dar. Isso nos remete imediatamente às palavras de Jesus de que no mundo teríamos aflições, e que ele nos daria sua paz; mas não como o mundo a dava. A igreja poderia, mesmo nos momentos de perseguição, experimentar a paz de Deus, que excede todo o entendimento humano. É uma paz que não está vinculada aos acontecimentos externos, pois esta é uma paz aparente, não verdadeira. A paz que vem das circunstâncias é uma paz passageira, pois nem sempre as coisas correm a nosso favor. Porém a paz que vem de Deus é uma paz duradoura, pois sabemos da nossa esperança e destino.

O segundo aspecto que devemos considerar é o da prisão de Paulo. Como já foi abordado anteriormente neste trabalho, Paulo estava preso quando escreveu esta carta. E mesmo na prisão, ele saúda seus amigos com a graça e paz de Deus. Paulo já havia passado por diversas tribulações, assim como bons momentos, como ele mesmo nos relata, e sempre desejava graça e paz a seus irmãos. Paulo sabia por experiência de vida que a paz de Deus independe das circunstâncias, e só alguém que experimentara realmente essa graça e paz, poderia dá-la da maneira que Paulo fazia.

Contexto histórico

A carta a Filemon é uma das que foram escritas enquanto Paulo esteve preso em Roma, por volta do ano 60.

Paulo escrevera esta carta a seu amigo Filemon para interceder em favor de Onésimo, seu escravo.

Na carta aos colossences, que também foi escrita durante a prisão de Paulo em Roma, no capítulo 4 verso 9, Paulo diz que Onésimo, era um deles, colossences. Sendo Onésimo escravo de Filemon, logo concluímos que Filemon residia em Colossos, e a igreja descrita reunida em sua casa era a igreja de colossos.

À época não existiam ainda os templos para as reniões das igrejas, logo, as reuniões eram realizadas nas casas dos membros pertencentes a estas comunidades.

Provavelmente, por ter escravos, Filemon era um cristão de muitas posses, e portanto, proprietário talvez de uma casa grande, onde era possível acomodar bastante gente com um relativo conforto. Quando a igreja crescia, e apenas uma casa já não comportava seus membros, outras casas eram usadas. Daí a expressão “igreja nas casas”.

Além do mais, nesta época, a igreja estava sob perseguição, e a reunião em templos, como a temos hoje, não era possível.

Filemon era um cristão convertido de Paulo, conforme podemos notar pela expressão “para não te dizer que ainda a ti mesmo a mim te deves”. Filemon era fruto provevelmente dos 3 anos que Paulo passou em Éfeso, e pelo teor cortêz e amável da carta, ele e Paulo eram amigos íntimos.

Parece que Onésimo havia roubado algum dinheiro de Filemon e fugido para Roma. Talvez depois, quando o dinheiro acabou, tenha ido procurar Paulo. Não é provável que tenha encontrado Paulo por acaso, já que Roma era uma cidade cosmopolita com milhares de habitantes.

Onésimo conhecia a Paulo da casa de seu senhor, Filemon, e pensou que talvez ele o pudesse ajudar. Uma vez em contato com Paulo, este o evangelizou, e Onésimo se converteu. Os versos 10 e 16 nos ajudam a entender que provavelmente, à época de sua fuga, Onésimo não era cristão, e após este encontro com Paulo, sua vida é transformada.

Uma vez que Onésimo havia se convertido, Paulo o persuade a agir como um cristão: voltando para o seu senhor, levando consigo esta carta para Filemon.

Devemos considerar que, para a sociedade da época, a escravidão era tida como normal. Os escravos eram considerados em geral, não como seres humanos, mas sim como um bem de consumo ou produção, tal qual uma carroça, ou cavalo. Porém a literatura parece desmentir alguns fatos sobre a crueldade para com os escravos no mundo antigo, especialmente o romano. Existem diversos casos sobre o tratamento bondoso dos senhores romanos aos seus escravos.

Na carta, Paulo pede que Filemon receba Onésimo como um irmão amado e como se estivesse recebendo a ele próprio. Paulo intercede dessa maneira pois, naquela época, era permitido aos senhores açoitar escravos fugitivos, e provavelmente tirar a vida dos que tivessem roubado alguma coisa.

Paulo, no verso 11, diz para Filemon que Onésimo será muito útil a ele agora. Pode ser um trocadilho com o significado do nome “Onésimos“, derivado do verbo “oninemi“, que significa tornar-se útil.

Introdução

O presente trabalho tem por objetivo a interpretação hermenêutica da carta do apóstolo Paulo a seu amigo Filemon.

O contexto histórico será de suma importância neste trabalho para uma aplicação correta e relevante à Igreja atual. Se desconsiderado este contexto não poderemos realmente saber quais os ensinos e princípios que Paulo quis mostrar a Filemon.

Uma vez descoberto qual o verdadeiro sentido desta carta a seu destinatário, poderemos também aplicá-lo para a Igreja de hoje.

Antes de fazer sentido a nós no século XXI, esta carta deve ter tido sentido no século I, e isto não pode ser desprezado.

Será mesmo que Paulo estava se referindo apenas à escravidão de Onésimo em relação a Filemon? A Bíblia apóia a escravidão, uma vez que Paulo pediu para Onésimo retornar à casa de Filemon?

Estas perguntas serão respondidas incorretamente se as questões históricas forem desprezadas, e não poderemos jamais tirar os ensinamentos que Deus quis deixar à sua Igreja. Sendo a Bíblia toda inspirada por Deus, e inerrante, podemos concluir que há algum ensinamento para nós, hoje, nesta carta.

A gramática é outro aspecto importante da interpretação. Para abstrairmos os ensinamentos e princípios que Deus nos deixou devemos considerar as palavras, períodos e expressões em seu contexto imediato, e no contexto da própria carta, pois devemos ter em mente as intenções do autor quando escreveu a carta.

Tomando como pressuposto que a Bíblia não se contradiz, deveremos examinar o contexto bíblico integral para que os ensinos deixados por Deus nesta carta sejam relevantes para nós hoje.

À medida do possível recorreremos também às línguas originais para descobrirmos o significado de alguma palavra, para desta forma determinarmos o sentido dela nos dias atuais.