29 – Amós – O profeta da justiça social

Amós

Introdução ao Livro de Amós –  O profeta da justiça social

Amós é o contemporâneo mais velho de Miquéias e Oséias e foi o primeiro dos profetas escritores. Seu nome significa “aquele que leva cargas pesadas”. Amós era criador de gado e produtor de figos numa vila ao sul de Jerusalém chamada Tecoa. Amós recusou-se a ser chamado de profeta evidenciando a sua ruptura com as instituições formais de seu tempo: o palácio real e o templo (7:14-15).

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28 – Joel – Mas que dia!

Joel

Introdução ao Livro de Joel –  Mas que dia!

Sabe-se pouco sobre a vida pessoal de Joel além do nome de seu pai, Petuel. Não é mencionado como profeta em nenhum outro livro do AT, embora seja citado como um pregador vigoroso e atrevido. Seu interesse por Jerusalém e pelas cerimônias do templo (1:9; 1:13ss; 2:14-17,32) nos levam à conclusão de que ele era um profeta do templo, ou ao menos valorizava bastante seus rituais.

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27 – Oséias – A falta de conhecimento mata

Oséias
Oséias

Introdução ao Livro de Oséias –  A falta de conhecimento mata

 

Oséias viveu no século VIII a.C. e foi provavelmente o único profeta literário do Reino do Norte, Israel. Neste período, Israel vivia sua era de ouro com o reinado de Jeroboão II. O nome Oséias tem a mesma raiz de Josué, que significa salvação. Seu ministério começou cerca de 10 anos depois de Amós ter saído de Judá levando seus oráculos proféticos ao Reino do Norte, e durou no mínimo 25 anos, já que o primeiro verso do livro diz que Oséias profetizou entre os reinados de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias de Judá e Jeroboão II de Israel. Seus escritos estão entre os mais antigos oráculos proféticos registrados e sua obra inicia a seção da Bíblia Hebraica chamada O livro do Doze, embora Amós anteceda Oséias. O livro de Oséias abrange o período Assírio (de meados ao final do século VIII a.C.) junto com os livros de Amós, Jonas e Miquéias.

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014 – Ester – Nos bastidores da aliança

Ester

Introdução ao Livro de Ester – Nos bastidores da aliança.

O livro de Ester, devido ao seu estilo literário e trama cinematográfica, gerou muitos debates acerca de sua canonização na Bíblia Hebraica.

A narração está ambientada em Susã, capital do Império Persa, e não utiliza em nenhum momento o termo Deus ou Javé. De fato, a história descrita neste livro foi e continua sendo o enredo básico de muitos filmes e séries de televisão em consequência da estrutura de sua narrativa e construção dos personagens. Este livro retrata a jovem estrangeira órfã que se casa com o rei, vítima da manipulação de todos e sempre contrariado por sua rainha. Esta jovem descobre o plano do vilão para matar seu povo e arquiteta um contra golpe para salva-lo. Ao final da trama o vilão morre na própria armadilha que construíra, e seu tutor é elevado ao cargo de grande responsabilidade no reino, tomando o antigo lugar do vilão. Após longo debate sobre sua canonicidade, o livro passou a constar na lista dos livros inspirados divinamente.

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004 – Levítico – A parte legal da Bíblia

Levítico

Introdução ao livro de Levítico –  A parte legal da Bíblia

 O povo de Israel, prestes a se transformar em uma nação, era o povo escolhido por Javé no Antigo Testamento. Javé escolhera este povo sem nenhum tipo de critério ou merecimento e os libertara da escravidão do Egito para os encaminhar para a terra que prometera aos seus antepassados. Esta terra seria o local onde o povo escolhido deveria servir de testemunho para outras nações (Gn. 12:3), e não o deserto.

Portanto, este povo, formado por ex-escravos, precisava, além da terra prometida, de uma lei, um código de conduta, pois nesta terra eles teriam contato com as práticas de povos pagãos. O livro de Levítico contém este código para o povo da aliança, pois reflete a vida santa que este povo deveria ter por causa desta aliança (Lv. 20:26), confrontando estas práticas pagãs com a maneira correta de adorar ao único Deus.

O livro do Êxodo descreve a revelação e a construção do lugar de adoração do povo da aliança, o Tabernáculo (Ex. 25 – 31); o livro de Levítico descreve os detalhes da forma de adoração que este povo deveria prestar a Javé no tabernáculo.

O nome Levítico vem do grego, e significa “o que é relativo aos levitas”. O nome hebraico do livro é “E chamou”, tirado das primeiras palavras do primeiro versículo.

Moisés não é mencionado como autor humano no livro, porém seu nome aparece mais de 25 vezes, quase em todos os capítulos na expressão “O Senhor disse a Moisés”, exceto 2, 3, 9, 10 e 26, o que leva judeus e cristãos tradicionais a atribuir a autoria do livro a Moisés.

Contexto cultural

 Não eram apenas os hebreus que tinham um sistema religioso composto de sacrifícios e sacerdotes no antigo Oriente Médio. Povos egípcios e cananeus realizavam holocaustos, ofertas de comunhão, tinham lugar próprio de adoração das divindades e demais rituais semelhantes aos israelitas.

Porém, algumas diferenças mantinham o povo de Israel distinto do sistema religioso de outros povos, tais como:

  • A revelação direta da palavra divina
  • A manifestação visível de Javé
  • A compreensão do pecado humano e suas consequências
  • A natureza ética do culto a Javé comparado com o culto da fertilidade de outros povos
  • O caráter santo e justo de Javé em contraste com os deuses “humanizados” dos pagãos
  • A proibição de sacrifícios humanos

Estrutura de Levítico

 O livro de Levítico deve ser lido como uma continuação dos capítulos 25 a 40 de Êxodo, pois a primeira expressão do livro “e chamou o Senhor a Moisés” sugere esta estrutura, que na realidade vai até o livro de Números 10:10, narrando o primeiro ano do nascimento da nação de Israel.

As leis são discursos que Javé diz a Moisés, para que ele transmita ao povo. Estas leis eram para todo povo, pois tratava sobre os procedimentos de culto, festas solenes, instruções para os sacrifícios e diretrizes gerais para que a vida religiosa não fosse desassociada da vida civil.

O quadro abaixo mostra as divisões principais do livro:

I. Regulamentos para oferecimento de sacrifícios 1:1 – 7:38
II. Descrições da ordenação de Arão e seus filhos e os primeiros sacrifícios no tabernáculo 8:1 – 10:20
III. Leis regulamentando a pureza ritual 11:1 – 15:32
IV. Liturgia e calendário para o Dia da Expiação 16:1-34
V. Leis com exortações à vida santa 17:1 – 26:46
VI. Leis sobre dízimos e ofertas 27:1-34

Propósito e conteúdo

 

O propósito do livro de Levítico é expresso pela ordem dada no capítulo 11 versos 44 e 45: “…consagrem-se, sejam santos porque eu sou santo…”, uma vez que o povo de Israel fora chamado para cumprir uma missão (ser benção a todas as famílias da terra), por causa do ato redentor de Javé ao executar o Êxodo dos descendentes de Jacó do Egito (Lv. 22:32-33).

Portanto, Levítico é um manual de santidade pelo qual o povo escolhido, o futuro reino de sacerdotes e nação santa (Ex. 19:6), deveria adorar a Javé para usufruir as bênçãos prometidas (Lv. 26:1-13).

O livro de Levítico aborda ainda conceitos sobre:

  • A santidade de Deus
  • O princípio da mediação sacerdotal
  • A pureza do povo da aliança
  • A remissão do tempo pelo calendário litúrgico
  • O princípio de substituição no ritual do sacrifício

A primeira parte deste manual, que abrange os capítulo 1 a 10, prescreve os procedimentos de adoração a Javé, enquanto que a segunda parte, que vai do capítulo 11 ao 27, descreve a prática da santidade no dia-a-dia do povo.

Santidade

 Com base na lei levítica, todas as coisas eram divididas em sagrada e comum. O comum poderia ser dividido em puro e impuro. O puro tornava-se sagrado mediante a santificação e o impuro pela contaminação. O sagrado poderia ser profanado a tornava-se comum, ou mesmo impuro. O que era impuro poderia ser purificado e posteriormente consagrado para tornar-se sagrado.

O apóstolo Paulo recorreu a estes conceitos quando escreveu que todos os seres humanos são impuros por consequência do pecado de Adão (Rm. 5:6-14). Mas o sacrifício redentor de Jesus purifica e santifica o pecador (1 Co. 6:9-11).

Sacrifício

Embora os sistemas sacrificiais entre os povos antigos tivessem a idéia de aplacar a ira dos deuses, o sistema dos hebreus era diferente, pois era revelado divinamente. Além disso, o sistema sacrificial dos hebreus apontava para a uma ética pessoal e comunitária elevada, e também para uma vida de santidade.

De acordo com Levítico 17:11, a vida está no sangue, portanto o sangue no altar simbolizava a purificação da presença de Deus (Hb. 9:21-22). O propósito era preservar a santidade da presença de Deus no meio do povo. A descontaminação realizada por meio do sacrifício de sangue tornava o ofertante puro e permitia a reconciliação com Deus.

Os sacrifícios de animais não eram realizados para a salvação dos pecados das pessoas, mas preservavam a santidade da presença de Deus no meio do povo e permitiam um relacionamento saudável entre Javé e o povo, pois o ritual era simbólico que revelava a atitude interna do ofertante. O propósito dos sacrifícios era também adorar a Deus pela sua presença entre o povo da aliança, e representava a santidade de Deus em contraste com o pecado humano.

O ritual do sacrifício é a base do entendimento da obra redentora de Jesus, tendo sido reconhecido como o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo. 1:29-34). Em outros trechos, a morte de Jesus foi entendida como o sacrifício oferecido de uma vez por todas pelos pecados da humanidade (Rm. 5:6-11; Hb. 10:10-12). O livro de Hebreus traz uma comparação entre o Dia da Expiação com a morte de Jesus (Lv. 16 <-> Hb. 9-10).

Um destaque importante é que todos os sacrifícios de expiação mencionados em Levítico são para pecados cometidos “sem intenção”, pois não havia qualquer sacrifício específico para pecados premeditados ou rebelião maliciosa.

Descanso sabático

 A santidade do povo hebreu seria refletida também no calendário. Para facilitar o entendimento dos israelitas quanto à provisão de Javé suas festas seguiam o calendário agrícola (Lv. 23:4-44), mas a guarda do sábado introduziu o calendário religioso (Lv. 23:1-3).

A guarda do sábado lembraria a Israel que Javé era o Criador (Ex. 20:8-11), além de santificar um tempo de adoração ao Senhor. O sábado lembraria ao povo a aliança com Javé e testificaria que a santidade se baseava em Deus e não na lei ou nos rituais (Ex. 31:12-17; Lv. 26:2). Na época de Jesus este conceito havia se perdido, pois o legalismo obscurecera seu verdadeiro significado (Mt. 12:1-4; Mc. 7:1-13). No diálogo com a mulher samaritana (Jo. 4:21-24) Jesus relembra o verdadeiro significado de um tempo separado de adoração ao Senhor, que não se restringe a lugares ou tempo, mas a hora é sempre agora.

O princípio do sábado era aplicado também à terra, pois a cada 6 anos de plantio e colheita, a terra deveria descansar no sétimo ano. Isso simbolizava que Javé era o provedor de Israel, além do caráter social, pois os pobres poderiam colher livremente dos frutos da terra não cultivada (Ex. 23:11).

De acordo com o profeta Jeremias foi o desrespeito às leis sabáticas que causaram a queda de Jerusalém e o exílio para a Babilônia (Jr. 25:8-14; 2 Cr. 36:17-21). O exílio foi castigo de Javé ao separar da Terra da Promessa o povo escolhido, justamente por negligenciar as leis relativas à terra que o próprio Deus dera a este povo.

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001 – O Pentateuco

Pentateuco

O termo Pentateuco se refere aos cinco primeiros livros da Bíblia cristã. Mas este nome provém da palavra grega pentateuchos, que significa cinco rolos. Este nome foi usado pelos judeus helenistas (não nascidos na Palestina) de Alexandria, pois os judeus de origem hebraica o conheciam com Torah, ou seja, “instrução em santidade”. Outros nomes para esta coleção são usados, tais como:

  • Lei
  • Livro da lei
  • Lei de Moisés

Os livros que compoem esta coleção foram os primeiros escritos a serem reconhecidos como canônicos, ou inspirados divinamente, pela comunidade hebraica. A igreja cristã, desde seu início, herdou esta tradição.

Na divisão tripla da Bíblia hebraica, Lei, Profetas e Escritos, o Pentateuco ganha destaque vindo sempre no início.


Tema e conteúdo em geral

Apesar de conhecermos, hoje, o pentateuco como cinco livros separados, ele deve ser compreendido como um único livro em cinco volumes. Para uma compreensão básica, o Pentateuco pode ser dividido em dois grande blocos:

  • Gênesis 1-11
  • Gênesis 12 – Deuteronômio 34

A primeira parte explica a criação de todas as coisas e a queda do homem. Podemos encontrar os seguintes temas neste bloco:

  • Origem das coisas
  • A criação pefeita
  • Propósito do homem
  • A origem do pecado
  • O julgamento do pecado (observado no dilúvio)
  • A misericórdia de Deus (observada ao poupar Noé e sua família)
  • Orgulho e autosuficiência do homem (observados na Torre de Babel)

A segunda parte se propõe a explicar a resposta ao dilema apresentado na primeira parte, e inclui os seguintes temas:

  • Chamada de Abraão
  • Eleição do povo de Israel
  • A Aliança com seu povo


Unidade do Pentateuco

O tema que unifica todas as partes do Pentateuco é a promessa feita a Abrão registrada em Gênesis 12:3.

A importância do Antigo Testamento para a igreja é observada pelo uso que o Novo Testamento faz dele. Paulo, especialmente, recorre muito ao Antigo Testamento principalmente o trecho compreendido entre a chamada de Abrão até o rei Davi. Isto pode ser observado em seu discurso registrado em Atos 13:17-41. Neste discurso, Paulo afirma que Cristo é o objetivo máximo e o cumprimento da redenção narrada no Antigo Testamento.

A unidade do Pentateuco é vista também nas narrativas dos livramentos de Deus, tendo como centro a confissão de fé mostrada no Êxodo, ponto máximo da redenção de Javé no Antigo Testamento.

A redenção dada no Êxodo serve de padrão dos atos de salvação de Javé no Antigo Testamento, conforme podemos observar nos seguintes textos: Amós 2:4-10; Jeremias 2:2-7; Salmos 77:13-19.

A narrativa do Pentateuco tem o seguinte esboço:

Javé escolheu o povo hebreu, representado por Abrão, sem qualquer mérito. Livrou este povo da escravidão do Egito de modo miraculoso e estabeleceu com este povo sua aliança. A este povo Javé deu terras e uma lei para que pudessem ter uma constituição.

Esta história é narrada de Gênesis a Deuteronômio, e os capítulos 12 a 50 de Gênesis apresentam a promessa dessas terras, o livramento que será dado imerecida e gratuitamente, apontando para a concretização do cumprimento da aliança e a posse dessas terras.


Gêneros literários do Pentateuco

O Pentateuco contém um amplo acervo de gêneros literários, reflete a natureza da arte hebraica em sua forma e conteúdo. Grande parte do conteúdo do Pentateuco é expresso por meio das narrativas.

Esta narrativas não são apenas registros históricos do povo hebreu, pois há  interpretações teológicas mescladas ao texto, tal como a interpretação dos sofrimentos de José em favor do seu povo, registrada em Gênesis 50:15-21.

As narrativas do Pentateuco também incluem linguagem antropomórfica, ou seja, dar características humanas para Deus (Deus se ira, se arrepende, tem braços, mãos, rosto, etc.), além de teofanias, ou a manifestação visível de Deus entre seu povo (sinais da natureza, tais como trovões; o “ANJO DO SENHOR”).

Outro gênero literário muito comum no Pentateuco é a poesia. Abaixo segue os principais tipos de poesia encontrados no Pentateuco:

  • Orações: Benção sacerdotal de Arão – Números 6:22-27
  • Canções de louvor: Cântico de Miriã –  Êxodo 15:21
  • Canção no estilo épico: Cântico de Moisés – Êxodo 15
  • Bençãos de família: Jacó abençoando seus filhos no leito de morte – Gênesis 49
  • Profecias: Balaão profetizando sobre Israel – Números 23 e 24

O terceiro tipo mais comum de estilo literário é o legal (lei). O conceito de lei, no mundo do Antigo Testamento, não era exclusivo do povo hebreu. Pelo contrário, pois é certo que povos distintos dos hebreus já tinham suas leis promulgadas a pelo menos 500 anos antes das leis de Moisés. O povo babilônico é um exemplo. A influência destes documentos na formação da Lei do Pentateuco é inegável.

O objetivo da lei para os hebreus era organizar e regulamentar a vida cotidiana do povo (cerimonial, moral e civil) tendo em vista a santidade requerida por Javé no relacionamento da aliança estabelecida.


Contexto Histórico do Pentateuco

 O Pentateuco cobre o período histórico da criação até a morte de Moisés, pouco antes do povo hebreu entrar na Terra Prometida.

 Sem entrar muito nos detalhes de data, pois há uma ampla variedade de linhas de pensamento, adotaremos o período de 2000 a.C. para as narrativas patriarcais e o período de 1500 a.C. para as narrativas do Êxodo. O período histórico comum é situado na Idade do Bronze Médio no Antigo Oriente Médio.

A civilização egípcia é a que mais predomina durante a história do Pentateuco.


O Pentateuco e a Igreja Cristã

A questão da interpretação ou mesmo o uso do Antigo Testamento pela Igreja é alvo de antigas controvérsias ao longo da história. Existiram desde aqueles que negaram completamente a utilidade do Pentateuco pela Igreja até aqueles que ainda tem em todas as leis e narrativas do Antigo Testamento um padrão doutrinário e comportamental para Igreja.

A dificil conciliação entre “lei” e “graça” originou vários métodos de interpretação do Pentateuco para a Igreja hoje. Abaixo estão algumas abordagens do Antigo Testamento para a Igreja:

– O Pentateuco como um manual de ética pessoal.

– O Pentateuco como “testemunha de Cristo”, ou seja, tudo tem um “significado oculto” que aponta para Cristo.

– O Pentateuco como parte integrante da história da salvação, onde Deus age como redentor da humanidade.

– O Pentateuco como parte das “Escrituras” para a Igreja, atuando como voz de autoridade com relação à crença e prática na comunidade religiosa.

Nesta abordagem não se olha o Pentateuco exclusivamente sob as lentes do Novo Testamento, mas atribuí-se um valor bíblico-teológico a estes escritos preservando a autoridade divina para a Igreja do Novo Testamento, conforme Paulo afirma em Romanos 15:5, que tudo o que foi escrito, foi escrito para nos ensinar.

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Os efeitos do pecado

 

O estudo do pecado no Antigo Testamento nos leva necessariamente aos efeitos que o pecado causou em Adão e seus descendentes, porém o Antigo Testamento nada diz sobre os efeitos deste acontecimento.

Segundo Eichrodt, o profetismo passa pelos efeitos de Gênesis 3 sem prestar muita atenção, pois interessava a eles que seus ouvintes, atentos à proclamação do juízo, pudessem decidir e despertar seu sentido de responsabilidade, afinal estavam sob ameaça imediata, logo não havia necessidade de olhar para origem do problema naquele momento (EICHRODT, 2004, p. 849).

Gênesis 3 não diz nada sobre as consequências do pecado de Adão sobre seus descendentes, mas mostra as consequências para os envolvidos no primeiro pecado. A serpente é amaldiçoada, e o primeiro casal sofre os efeitos do seu pecado. À mulher coube ter seus filhos mediante dores no parto, o desejo ao seu marido e a submissão a ele; ao homem restou tirar o sustento da terra por meio da força física excessiva e a terra foi amaldiçoada. Deus expulsa do jardim o casal e o impede de entrar usando uma espécie de “guarda angelical”. Agora ninguém mais teria acesso ao jardim, onde ficava a árvore da vida; restava aos homens a morte, conforme o relato de Gênesis 3:22-23.

Para Eugene Merril, o fato da mulher ter provado o fruto primeiro, e ter oferecido a seu marido, sugere uma iniciativa de liderança sobre a familia criada, para a qual a mulher não fora feita. Portanto, a partir deste momento, seu desejo seria para seu marido, pois esta iniciativa de auto governo é o próprio âmago da queda (MERRIL, 2009, p. 206).

 Eichrodt vai além nesta meditação e diz que não se proclama simplesmente a morte como castigo do pecado, mas uma escravidão de uma vida inteira sob o poder da morte por meio do sofrimento, da dor e da fadiga, conforme o Salmo 90:7, onde o resultado não é a morte em si, mas o rápido passar da vida (EICHRODT, 2004, p. 847).

Smith, citando Victor Hamilton, diz que a morte não é tida como a consequência do pecado de Adão, mas o resultado do pecado é o trabalho árduo por toda a vida.

O Antigo Testamento não explica o pecado de um ponto de vista didático, entretanto mostrará toda a história subsequente como uma história de pecado. No episódio entre Caim e seu irmão Abel, o pecado não estava na exteriorização violenta de Caim contra seu irmão, mas na ira e inveja que sentiu dele. A consequência do pecado de Caim não foi a morte, mas sua alienação da sociedade.

À época de Noé, a terra estava corrompida (Gn 6:11-12), e Deus viu que toda intenção do homem era má (Gn. 6:5), por isso enviou o dilúvio para castigar a humanidade por seus pecados. Porém, mesmo após o dilúvio, Deus observou que as intenções do homem continuaram más, indicando que o pecado era universal (Gn 8:12). A família de Noé não foi poupada porque não tinha pecado, apesar de Noé ser chamado de justo e íntegro, porém a palavra tāmîm (direito, perfeito) não significa “sem pecado”, mas saudável ou inteiro.

 O Antigo Testamento não é dogmático no sentido do pecado original, porém mostra a tendência natural do ser humano para praticá-lo, além de referir-se aos efeitos do pecado sobre as gerações seguintes, conforme Ex. 20:5; Lv. 26:39; Nm.14:18. Estas passagens podem ser explicadas partindo-se do princípio do coletividade na visão israelita. Ou seja, o indivíduo estava subordinado a um grupo e as consequencias de seus pecados nunca eram individuais, mas atingia todo o grupo.

A origem do pecado

Faz parte da natureza do homem, sempre diante de um problema, tentar descobrir sua causa. Com o pecado não é diferente, e sempre que o estudamos nós nos deparamos com sua origem. O Antigo Testamento percebe uma profunda desordem na natureza e na humanidade. Essa desordem, segundo Eichrodt, é a rebelião contra as ordens de Deus, que não são abstratas, mas é a aliança baseada nas leis para a existência do povo aqui e agora (EICHRODT, 2004, p. 842).

O ser humano, segundo Gênesis 6:5 não é essenciamente bom, como Deus o havia criado. Sua ações basicamente demonstram sua atitude de rebeldia e oposição à sua Palavra, e a natureza de forma geral está sob maldição por causa desta condição (Gn. 3:17-19). Para Eichrodt, o problema da origem do pecado fica em segundo plano quando aborda-se o pecado apenas sob o ponto de vista da lei, pois há a preocupação de definir a conduta moral a partir da existência de Israel como uma nação já estabelecida. A “pré-história” sacerdotal, narrada em Gênesis 1 a 11 quer mostrar que as antigas tradições já falavam sobre a degeneração progressiva que o pecado gera. Mas, em sua opinião, apenas o autor Javista mostra a história da humanidade como uma história de pecado e o seu caráter universal (EICHRODT, 2004, p. 843).

Deus havia criado tudo perfeito, e o homem, quando proclamou sua independência de Deus, o mundo foi distorcido e depravado. Em Gênesis 3 lemos que o mandamento de Deus foi pervertido para uma espécie de repressão, e, ao comerem do fruto proibido, pensaram que não estariam mais sujeitos à sua supremacia. Os relatos bíblicos, posteriores ao episódio fundante da ruptura do homem com Deus, não tentam explicar este acontecimento, pois, de acordo com Christoph Barth a rebelião contra o Criador sempre será inesperada, ilógica, indesculpável e injustificada.

Eugene Merril especula que haja uma ligação com o fato do homem ser feito à imagem de Deus, portanto este tem a capacidade moral de fazer escolhas, pois se não fosse assim o homem seria semelhante a um robô e faria apenas aquilo que fosse programado para fazer. Este ser não seria capaz de mostrar a perfeição com a qual Deus o criara. Logo, a árvore daria chance de provar que o homem poderia exercer sua capacidade de escolha, e uma escolha correta (MERRIL, 2009, p. 204). Mas, segundo Smith, o Antigo Testamento apenas aponta como o pecado entrou no mundo e como foi se alastrando geração após geração e diz que a porta foi a livre escolha de Adão e Eva pela sugestão da serpente.

O Antigo Testamento não chama a serpente de satanás, nem pretende explicar a origem do mal no mundo, mas a despeito disso, duas coisas ficam claras em Gênesis 3: o mal não vem de Deus, mas está sujeito a Deus. De acordo com Eichrodt, para o historiador Javista, era inegável a qualidade de vida antes e depois da Queda (EICHRODT, 2004, p. 844). E ainda conforme Merril diz que “o fato de o homem escolher erroneamente e arrastar a si mesmo e à raça humana à condição de caído revela apenas quão legítima era a escolha e quão trágicas foram suas consequências” (MERRIL, 2009, p. 205).

A natureza do pecado

A Bíblia não é um conjunto de escritos dissertativos, mas traduz os conceitos diretamente da prática, do dia a dia. Por isso não encontramos nenhuma declaração formal do que é o pecado, mas ele é identificado na vida real, quando há o julgamento das ações em relação à conduta prescrita por Deus.

Eichrodt disse que isto fica patente pelos diversos termos com os quais o pecado é nomeado. A raiz p-šé utilizada com verbo para caracterizar o pecado como “revolta” e “rebelião”, ou seja, um sentido ativo. Já o verbo šāgāh traz a ideia de uma transgressão involuntária. Este conceito de culpabilidade está presente tanto nas ações praticadas, quanto no processo psíquico que acompanha esta ação.

Em todas as formas de se designar o pecado fica implícita a forma jurídica com a qual é tratado, ou seja, um comportamento que vai contra a norma estabelecida por Deus a seu povo por meio do berit, a aliança (EICHRODT, 2004, p. 824). Porém, devemos estar cientes que, estudar o pecado levando-se em consideração apenas o aspecto etimológico não nos ajudará muito na sua compreensão, pois estes termos devem ser estudados no contexto integral da fé. O termo básico para pecado é ḥata’, e significa errar o alvo, como um soldado que erra o alvo inimigo e agora pode ser morto por isso. Pecado é aquilo que é tortuoso, que não é reto ou direito.

O pecado no Antigo Testamento é somente uma ação ou pode ser considerado também uma condição? A maioria dos estudiosos concorda que pode ser as duas coisas. Eichrodt afirmou que as ações individuais do homem apontam para sua vontade pervertida. Ele disse ainda que o pecado é fruto do livre arbítrio do homem, ou seja, toda vez que o homem executa sua livre vontade ele acaba pecando. Logo podemos inferir que, devido à sua condição pecaminosa, o homem acaba executando ações pecaminosas.

Israel analisava a vida sob o prisma do berit que Deus estabelecera com seu povo. Por isso o pecado, como dito anteriormente acima, é a quebra, a violação da graciosa e justa aliança que garantia a comunhão pessoal de Deus com seu povo. O pecado pode ser descrito, além disso, como a revolta contra seu senhorio, ou seja, a independência do homem criado de seu Criador.

O conceito veterotestamentário de pecado é pessoal, mas pode haver outras perspectivas, como por exemplo, a moralista, onde observa-se e julga-se apenas o comportamento externo. Perto do fim do Antigo Testamento, este senso pessoal de pecado foi substituído pela simples observância externa às regras da lei, já não havia mais a ênfase na corrupção intrínseca do coração humano, conforme destaca o profeta Jeremias (17:9). Esta posição foi ganhando território e, no judaísmo pós bíblico a lei era um meio de salvação, pois cada pessoa, embora tivesse o impulso mau, podia dominá-lo não infringindo a lei mosaica. O judaísmo moderno, em sua maior parte, crê que o ser humano nasce essencialmente bom e adota uma visão bem otimista em relação a si mesmo. Por isso não crê que precisa ser salvo por qualquer mediador no céu ou na terra.

Esta visão contrasta radicalmente com a perspectiva neotestamentária, que adota uma visão pessimista do ser humano em relação ao pecado. O Novo Testamento inclusive adota uma visão mais aprofundada do pecado que o Antigo Testamento aborda. Eichrodt disse que o pecado se encontra de tal forma arraigado no interior do homem que é impossível a este fazer uma opção a favor de Deus, todas as suas opções são de apostasia contra Deus. Mesmo vendo todo o estrago que o pecado causou ao longo da história os profetas viam como o povo avançava pelo caminho da perdição (EICHRODT, 2004, p. 831).

Segundo Smith, citando De Vries, o pecado no Antigo Testamento é muito mais do que uma ação errada e envolve o ser humano integralmente, pois tem uma dimensão física, espiritual e mental. Quando o ser humano peca, se põe abaixo dos animais, pois nega seus atributos de autoconsciência, compreensão própria e seu propósito de vida na Terra, resultando em frustração, sofrimento e alienação de Deus.

Introdução

O pecado é um tema importante no Antigo Testamento. Enquanto a maneira de se fazer o bem é descrita poucas vezes, a maneira de se agir errado é descrita de muitas formas. Isto fica claro pelos diferentes nomes com os quais é tratado na Bíblia, tais como desgraça e má escolha, mas principalmente como a definição de um comportamento contrário a uma norma estabelecida (EICHRODT, 2004, p. 823).

Alguns entendem o processo do pecado como a “queda” da humanidade. Mas, Eugene Merril diz que o termo queda não ocorre nenhuma vez na Bíblia, porém entende ser uma boa palavra para descrever o estado do homem após sua rebelião contra Deus, pois a humanidade se afastou, abandonou sua condição original na criação, e agora está abaixo da condição de benção que Deus havia estabelecido (MERRIL, 2009, p. 203).

A Bíblia trata da questão do pecado de forma contundente, pois a ruptura causada pelo pecado abrange, além do próprio ser humano, todo mundo à sua volta. O pecado trouxe a ruptura com o próprio Criador, que chamaremos de ruptura teológica. Além da ruptura teológica, o pecado causou a ruptura sociológica, ou seja, o distanciamento entre os seres humanos. Igualmente, o pecado provocou a ruptura psicológica, onde observamos a vergonha que o homem sentiu de si mesmo quando se percebeu nu. E, não menos importante, o pecado ocasionou a ruptura ecológica, cujos efeitos foram vistos na produção de ervas daninhas sobre a Terra.

A Bíblia, apesar de versar sobre a dignidade e o valor humanos, está muito mais preocupada em tratar de sua profunda necessidade da salvação do pecado, pois há muitos exemplos da tragédia, culpa e alienação que este gerou no homem. Alguns teólogos tentam minimizar a questão da culpa e do pecado no homem, porém Walther Eichrodt afirma que além do sentido religioso, há o emprego do sentido jurídico, como um delito ou crime. A descrição de pecado pela raiz `-w-h deriva de um verbo de movimento que significa “dobrar, girar, desviar-se do bom caminho”, onde fica implícita a idéia da culpabilidade do agente (EICHRODT, 2004, p. 824). Bruce Milne diz que a razão para esta minimização do pecado se deve à teoria da evolução, à teoria socioeconômica da Karl Marx, à abordagem psicanalítica de Sigmund Freud e o secularismo do mundo moderno.