A justificação e a reforma na Suíça

A justificação pela fé

Lutero entendeu que nenhum sacramento, tradição ou simbolismo seria suficiente para obter o favor de Deus. Tudo o que Lutero havia feito ainda deixava sua consciência intranquila e Deus lhe parecia sempre irado. Até que, na progressão de seus estudos na Bíblia, entendeu que o homem não é justo, mas Cristo o é. Logo, mediante a cruz, há uma “troca agradável e alegre” entre a retidão de Cristo e a iniquidade do homem. Isto acontece na vida de todo aquele que crê na Palavra de Deus. Deus, em Cristo, agora vê o homem pecador como justo, embora não tenha deixado de ser pecador.

A reforma na Suíça

A Suíça, na época da Reforma Protestante, era o território mais livre da Europa.

Zwinglio pertence à primeira geração de reformadores. Nasceu em uma família de posses, permitindo que ele frequentasse a Universidade de Viena e da Basiléia, em 1502. Seus estudos humanistas o levaram para o estudo crítico bíblico. Mais tarde, em 1519, em contato com as idéias de Lutero, teve sua experiência de conversão. Começou a pregar a reforma dizendo que o dízimo não era exigência divina, mas uma questão de voluntariedade.

Para Zwinglio a fé era a caracterísitica essencial de todo sacramento, e via a ceia do senhor como um memorial, não uma repetição da morte de Cristo. Por causa disso Lutero e Zwinglio seguiram caminhos distintos. Zwinglio entendia o pecado como uma doença moral, mas não como uma culpa. Portanto as crianças poderiam ser salvas sem o batismo.

Em 1528 os ideais da Reforma foram aceitos em Zurique após debate público,  com aceitação do conselho da cidade. E em 1529 as missas foram abolidas em Basiléia. Após a autorização para Zwinglio continuar pregando o evangelho Zurique se torna o primeiro estado protestante.

Neste mesmo ano de 1529 eclode uma guerra entre protestantes e católicos. Zwinglio entra nesta luta servindo como capelão dos soldados, onde morre em combate em 1531.

Jean Calvin, nascido na França, aceitou em 1528 os principios da Reforma e foi expulso de Paris. Fundou juntamente com Teodoro Beza uma academia protestante que se tornou o principal centro do protestantismo na Europa. .

Devido à sua condição socio-cultural, Calvino queria o desenvolvimento de uma igreja governada pela representação, ao contrário de Lutero, que esperava o apoio dos aristocratas e príncipes da Alemanha. Ainda devido à sua formação humanista Calvino deu mais ênfase à sistematização da teologia em contrapartida de Lutero, que privilegiou a pregação.

Com relação aos sacramentos também divergiu de Lutero quanto à presença física de Cristo nos elementos, e ensinou apenas a sua presença espiritual.

Sua doutrina da predestinação, com sua disciplina rigorosa, serviu de impulso para o progresso de muitas pessoas na classe média, pois dava grande ênfase ao trabalho, fortalecendo desta forma o sistema capitalista. A doutrina da predestinação afirmava que o homem já nasce salvo ou condenado, segundo a eleição soberana de Deus, não cabendo ao homem mérito algum neste processo.

Em 1536, com 26 anos, Calvino temina sua mais importante obra, As Institutas da Religião Cristã, em Basiléia. Foi uma tentativa de Calvino de defender os protestantes franceses, que sofriam por sua fé, diante do rei Francisco I, para este aceitasse as idéias da Reforma.

Os ensinos de Calvino possibilitaram um avanço da democracia, pois ele cria que a Igreja e o Estado poderiam trabalhar em harmonia para o desenvolvimento do cristianismo. O calvinismo também vai se espalhar rapidamente pois os burgueses abraçam as idéias do calvinismo por motivos econômicos ao invés de se restringir apenas a uma determinada localidade na Europa.

A verdadeira fé é aquela que permanece

Nos dias de hoje, muitos termos bíblicos assumiram outra conotação, bem diferente do significado que o autor bíblico pretendeu.

O termo fé é um deles.

Para nosso estudo aqui, vamos utilizar um trecho bem conhecido, e mal empregado: Habacuque 2:4.

Vamos pegar o parágrafo todo para melhor compreensão do texto escolhido.

1 Ficarei no meu posto de sentinela e tomarei posição sobre a muralha; aguardarei para ver o que ele me dirá e que resposta terei à minha queixa.

2
Então o Senhor respondeu: “Escreva claramente a visão em tabuinhas, para que se leia facilmente.

3 Pois a visão aguarda um tempo designado; ela fala do fim, e não falhará. Ainda que se demore, espere-a; porque ela certamente virá e não se atrasará”.

4
Escreva: “O ímpio está envaidecido; seus desejos não são bons; mas o justo viverá pela sua fidelidade.

Contexto histórico

Como bons hermeneutas sabemos que o contexto histórico não deve ser desprezado. Por isso, vamos analisar o que estava acontecendo nos dias do profeta Habacuque, e que influência isso teve no que Deus lhe falou. Aliás, Deus falou o que falou justamente por causa deste contexto, que muitos aliás, preterem.

Em Habacuque lemos sobre o juízo que Deus executaria contra Judá.

Nos livros de I e II Reis lemos sobre a corrupção  e iniquidade que haviam se instaurado no Reino do Sul.

Então, da mesma forma como Deus havia castigado Israel pela Assíria anos antes, ele diz a Habacuque que usará a Babilônia para fazer o mesmo com Judá.

A Babilônia havia derrotado a Assíria, como predito pelo profeta Naum, e estava expandindo seus domínios na região do Oriente Médio.

Indignado, nosso profeta filósofo começa a questionar a Deus: como uma nação de ímpios seria usada para estabelecer o juízo do Senhor contra seu povo escolhido?

Deus, mesmo sendo o soberano de todo o universo, se digna a responder aos questionamentos de Habacuque, e, no capítulo 2, Habacuque se propoe a ficar firme em sua posição e não se abalar com as circunstâncias.

Finalmente, no capítulo 3, Habacuque entende que independente das circunstâncias ele se alegraria em Deus.

Fé posicionada

Para compreendermos o que Habacuque quis dizer com a  expressão “o justo viverá da fé”, vamos recorrer à língua original do texto. Assim diz o verso 4:

hinnêh `uppelâh lo’-yâsherâh naphsho bo vetsaddiyqbe’emunâtho yichyeh

A palavra corresponde a fé é emunâtho, e tem o sentido de posicionamento, pois este é um termo militar. O soldado deve permanecer em sua posição, haja o que houver; note como Habacuque começa o capítulo 2.

Tomo a liberdade fazer uma tradução paralela de acordo com o texto original:

Veja: sua alma está engrandecida e não está em retidão no Senhor, mas o justo viverá por sua firmeza no Senhor.

Agora, nosso conceito de fé começa a mudar, e fica bem diferente do que é dito hoje em dia pelos apóstolos televisivos, não?!.

Por isso Habacuque disse que, mesmo que tudo estive contra o que ele acreditava ser correto, ele exultaria em Deus, e não nas circunstâncias.

Outro exemplo de fé “emunah”, que raramente é interpretado corretamente, está no capítulo 3 do livro de Daniel. Diante da ameaça de ser jogado na fornalha, os amigos de Daniel não se dobram diante de Nabucodonosor, permanecem posicionados.

Um pequeno trecho do verso 18, frequentemente ignorado, nos dá a pista do tipo de fé que esses jovens tinham:

Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos teus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer.

Esta frase, dita hoje, denotaria total falta de confiança em Deus, não?! Afinal basta determinar, e está tudo resolvido!

O que deve ficar claro aqui é que, mesmo que Deus não os livrasse eles não adorariam a Nabucodonosor. Um magnífico exemplo de fé posicionada! Estamos com o Senhor, e disso não abrimos mão!

O que fé não é

Devemos entender que nossa fé não necessária para que Deus aja. Tudo foi criado por ele antes de existir qualquer coisa. Ninguém precisou ter fé para que Deus criasse todas as coisas.

Ninguém precisa ter fé para que aquilo está determinado em Apocalipse aconteça, por exemplo.

O que Deus determinou vai acontecer, tendo ou não fé. Veja o verso 3 do trecho em questão.

A fé hoje é confundida com o desejo humano de que tudo corra bem. Afinal as pessoas não costumam dizer: “Tenho fé que Jesus vai me dar um emprego melhor”, “Tenho que fé que tudo vai dar certo” ?

Fé não é acreditar que por dar o dízimo, e fazer uma oração antes de sair de casa, seremos protegidos de qualquer mal.

Basta lermos o que diz o livro de Eclesiastes: tudo acontece igualmente a todos. A chuva cai para o justo e injusto. O sol nasce para o justo e injusto também.

O que é fé

Do ponto de vista bíblico, fé é posicionamento no presente e esperança no porvir, pois aguardamos uma pátria melhor, a celestial, conforme trata Hebreus 11, justamente o capítulo sobre os heróis da fé.

Fé é ficar posicionado, mesmo que coisas ruins aconteçam, e vão acontecer com todos, não adianta acharmos que não.

Fé é saber, e experimentar, que posso todas as coisas naquele que me fortalece, inclusive passar necessidade, como nos informa o apóstolo Paulo.

Fé e esperança nunca são comparadas com as coisas dessa vida terrena, mas sempre com o porvir.

Os mártires do cristianismo do primeiro século experimentaram, e viveram essa fé. Eles não se dobravam diante dos imperadores, e morriam crendo na pátria celestial. Posicionamento no presente, e esperança no porvir.

Por isso, há um constante apelo na Bíblia para permanecermos (posicionados) no amor de Jesus, nos seus ensinos, na videira.

Fé é posicionamento no presente, e esperança no porvir, independente do que nos aconteça.