Levítico – A parte legal da Bíblia

As dificuldades para entender o livro de Levítico

Se há um livro nas Escrituras que definitivamente não é um campeão de biblheteria é Levítico. À exceção de pouquíssimos manuais acadêmicos perdidos nos sebos, há pouco material disponível na internet.

Este post é uma tentativa de resgatar sua utilidade para os dias de hoje.

Existem pelo menos 5 mitos que impedem os cristãos, de forma geral, de estudarem as leis do povo hebreu:

  • Mito ritualista – as leis são ritos sem sentido que foram abolidos pela cruz.
  • Mito histórico – as leis foram dadas em um contexto de uma cultura tão antiga e distante que apenas os museus podem estar interessados
  • Mito ético – as leis não refletem o padrão ético do Novo Testamento
  • Mito literário – as leis são escritas sob uma forma obsoleta, que se torna incompreensível nos dias de hoje.
  • Mito teológico – as leis refletem um deus de ira e julgamento, então a sensibilidade do mundo moderno não consegue atinar com um deus assim.

Ora, mas se a lei ainda é válida para nós hoje, como justificar o sacrifício de animais? Seríamos, no mínimo, presos por crueldade com animais. Além disso, Jesus disse que nenhum til da lei passaria até que tudo se cumprisse.

Diretrizes iniciais para a compreensão de Levítico

Nossa compreensão acerca da lei começa mudar quando inciamos o estudo pela origem da palavra em hebraico: tôrâh, que originariamente significa direção, orientação ou instrução.

A tradução do termo tôrâh na Septuaginta (tradução do AT em grego) para nomos – lei – desvirtuou este significado. A partir daí houve uma compreensão da direção e orientação de Javé, para uma condição legal.

Abaixo estão discriminadas seis diretrizes iniciais para a compreensão do relacionamento entre o cristão e a lei do AT.

A lei do AT é uma aliança – A aliança no AT é baseada em um contrato chamado suserano-vassalo. Este contrato, ou aliança, previa a proteção pelo suserano (um chefe poderoso) e a lealdade do vassalo, mais fraco e dependente. O suserano protegia o vassalo, e o vassalo prometia obediência e lealdade absoluta ao senhor. Esta lealdade era demonstrada seguindo as regras ou orientações estipuladas pelo senhor. A lei de Javé para o povo hebreu seguia este modelo conhecido no mundo antigo.

O AT não é nosso testamento – Não estamos mais obrigados a guardar a forma da antiga aliança, a não ser que sejam explicitamente renovadas pela nova aliança. A lealdade ainda nos é requerida, porém sob outra forma.

Algumas estipulações da antiga aliança não foram renovadas – Duas categorias principais de leis que não se aplicam aos cristãos são: 1) as leis civis israelitas e 2) as leis rituais israelitas. Tais leis aplicavam-se somente aos cidadãos antigos de Israel. Porém devemos tomar cuidado aqui, pois embora as formas não se aplicam mais à igreja, ainda podemos extrair as normas para nossa vida.

Parte da antiga aliança é renovada na nova aliança – O aspecto ético da lei do AT ainda se aplica aos cristãos de hoje. Basta lembrar que Jesus resumiu a lei em duas condições básicas, das quais dependem toda a lei e os profetas.

Toda a lei ainda é Palavra de Deus para nós mesmo que não continue tendo uma forma aplicável para nós hoje – A bíblia contém muitos mandamentos que Deus quer que saibamos, mas que não são necessariamente dirigidos para nós. Um exemplo no NT é o mandamento de Jesus em Mateus 11:4, onde ele manda anunciar a João o que estava acontecendo. Este mandamento não é para nós hoje, embora o fosse para os ouvintes originais.

Somente aquilo que foi explicitamente renovado no NT pode servir de lei para os cristãos hoje – Os 10 mandamentos são o exemplo clássico desta abordagem, pois estes são mencionados de diversas maneiras no NT.

Não perca os próximos posts, onde estudaremos alguns aspectos teológicos e como isso influencia nossa vida.

Exemplo de interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica

Interpretação dos símbolos apocalípticos

Exemplo de interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica

Considerando o post anterior, sobre a interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica, vamos ver, na prática, como este simbolismo e linguagem cósmica pode ser usado para nosso ensino e edificação nos dias atuais.

Vamos determinar como o símbolo “cavalo” é usado em Zacarias 1:7-11 e em Apocalipse 6:1-8.

Primeiramente vamos fazer uma descrição do contexto histórico destas passagens.

Zacarias

Junto com Ageu foi um dos profetas pós-exílicos. Viveu no período do rei persa Dario I. Apesar da volta de uma parte do povo judeu da Babilônia, ainda não havia uma constatação da renovação da aliança que Javé havia prometido a Jerusalém.

Por isso, o profeta, na introdução do seu livro, desafia o povo a voltar-se para Javé e arrependenrem-se dos seus pecados.

A partir do verso 7, na visão dos cavalos, a patrulha divina constata que o mundo está em paz debaixo da mão de ferro do império persa, e Dario estava favorável aos judeus.

Javé ainda estava no controle e ainda cuidava de Jerusalém com zelo e garantiria a reconstrução da cidade e do templo.

Apocalipse

O escritor do apocalipse, o apóstolo João, foi o último dos discípulos a morrer. A data que os eespecialistas colocam para o livro é de 95 d.C.

Nesta época reinava o imperador Domiciano. A primeira fase da perseguição imperial aos cristãos passara; surgia agora o segundo período das perseguições imperiais. A história dá seu testemunho de que outras perseguições estavam por vir.

O Apocalipse foi escrito para encorajar os cristãos a permanecerem firmes em sua fé, pois, no final, Deus seria o vencedor supremo.

No trecho em questão o juízo de Deus tem seu início. No julgamento, representado pela abertura dos selos, seu conteúdo está muito relacionado à guerra e seus efeitos. O aparecimento do líder conquistador, representado pelo primeiro cavalo; uma guerra, representado pelo segundo cavalo; fome, terceiro cavalo e morte, quarto cavalo; estes dois últimos resultados naturais da guerra.

Aplicação

Na leitura destes dois trechos, um do Antigo Testamento, outro do Novo Testamento, observamos pelos contextos históricos que Deus é o Senhor da história.

Suas promessas, embora tenhamos a impressão de demora, sempre se cumprem. Deus ama seu povo, e, por isso, o corrige assim como um pai faz com os filhos. Porém, sempre após sua correção Deus restaura e renova sua aliança com seu povo.

Nos dois períodos históricos estudados vimos a repreensão, o cuidado e a restauração da terra por Deus, que é soberano e Senhor da história.

A interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica

Interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica

A interpretação dos símbolos na literatura apocalíptica

Uma das características da literatura apocalíptica é o uso de símbolos para expressar uma realidade, atual ou futura. As narrativas cósmicas apresentadas confudem o leitor entre o que é literal e simbólico.

Um dos fundamentos que devemos ter em mente quando lemos algum material deste gênero é que as visões conduzem os leitores a uma realidade transcendente, que é superior à situação presente e encoraja os leitores a perseverarem em meio às provações.

Outras características da literatura apocalíptica

Apesar das dificuldades que este gênero tem, podemos listar alguns aspectos que aparecem com frequência na maioria das obras.

1 – O pessimismo quanto à era presente – É a caracter;istica dominante nesta literatura. A situação era tão desesperadora que tudo que um cristão, filho de Deus, podia fazer era esperar a futura intervenção divina.

2 – A promessa de salvação ou restauração –  É outro lado da mesma moeda. O tema da restauração é predominante, por exemplo, em Aocalipse e Daniel.

3 – Visão da realidade transcendente centrada na presença e controle de Deus – A ênfase não está não está na desesperança do presente, mas na esperança do futuro. Deus ainda reina sobre o história, e ele lhe dará um fim no devido tempo.

4- Determinismo – Deus controle completamente toda a história, e prevalece uma perspectiva muito forte de predestinação, na medida em que Deus já tem definido o curso futuro deste mundo.

5 – Dualismo modificado – Não se trata de um dualismo absoluto, pois os lados adversários não são iguais. Satanás não é uma espécie de “deus do mal”, mas atua de acordo com a permissão de Deus, debaixo do seu propósito. Esta era é caracterizada pela oposição entre Deus e Satanás, e a próxima era será marcada pela vitória completa de Deus.

6 – A recriação do cosmos – Este aspecto é refletido em várias obras do gênero apocalíptico, às vezes com a destruição do mundo existente. Céu e terra, antes separados, agora juntam-se em uma nova unidade, satisfazendo o “gemido da criação”.

7 – Perspectiva escatológica – A literatura apocalíptica não apenas rejeita a história humana como ainda a vê concluída e transformada. Deus é soberano sobre o presente eo sobre o futuro.

Outra característica importante é o fato de que os símbolos nem sempre significam a mesma coisa. Por isso, o estudo do contexto histórico da época que o texto foi escrito é de suma importância para determinar o que o símbolo queria transmitir. Sabendo o que o símbolo queria transmitir na época podemos fazer uma aplicação mais adequada à nossa realidade nos dias de hoje.

Introdução à hermenêutica

Introdução à hermenêutica

O apóstolo Pedro admite, falando das Escrituras, que entre as do Novo Testamento “há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras [as do Antigo Testamento], para a própria destruição deles”. E para piorar a situação existem aqueles que além de interpretarem para seu próprio uso, levam outros a cair no mesmo erro.

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